Festival Paredes de Coura 2004
Paredes de Coura
17-/20 Ago 2004

Reportagem de André Gomes
Fotografias de Carlos Oliveira

17/08

O ritual é quase invariavelmente o mesmo. Respondendo à chamada, milhares de pessoas devidamente equipadas sobem ou descem o país na procura da - por uns dias sagrada - praia fluvial do Tabuão, em Paredes de Coura. Djambés, guitarras, toalhas de praia, tendas e sacos-cama, arcas, baús de esperança, espírito. Tudo vale para manter a chama festivaleira acesa. Grita-se “É um dilúvio, é um dilúvio” de dentro de uma das tendas. Chuva, o convidado que ninguém queria mas que todos temiam. Nervosa, miudinha, teimosa, chata, molha-tolos: não houve sossego durante quase todo o festival, e a marca de vinte mil espectadores esperada pela organização parecia cada vez mais impossível de atingir. Ainda assim, na noite anterior - a noite de recepção ao campista -, o palco 2 havia recebido os Magnus, o projecto que une Tom Barman (líder dos belgas DEUS) e CJ Bolland, DJ-produtor e face visível do techno. Durante mais de duas horas, a dupla brindou a ansiosa plateia com um set que apenas a espaços largos teve sucesso na difícil arte de reanimar os molhados e arrefecidos. Na verdade, perante o cenário de quase tempestade que se instalou em Paredes de Coura, seria preciso bem mais do que tímidas incursões pelo house, carregadas linhas de baixo e mesmo o trabalho de MC de Tom Barman para que a actuação tivesse todo o êxito que se esperava.

Ainda com chuva, seguiram-se os esperados Los de Abajo que, por “problemas aerodinâmicos” viram a sua actuação servir como fecho de noite. Embora tenha durado apenas trinta minutos, a actuação dos Los de Abajo teve grande sucesso em animar a plateia. Incentivado pelos sons do merengue, da salsa, do reggae e do funk e sequioso pelos primeiros momentos de diversão, o público aderiu instantaneamente e se não fossem as condições climatéricas e a falta de segurança dos músicos, talvez o concerto de promoção de Latin Ska Force, o último disco de originais da banda, tivesse ultrapassado o sucesso dos últimos concertos em Portugal. O concerto chegou ao fim abruptamente depois de um dos toldos que cobriam o palco ter caído. A ver pela reacção dos resistentes espectadores, os Los del Abajo podem muito bem transformar-se em mais uma daquelas bandas de culto que o nosso país tanto insiste em fomentar – os Los del Abajo são muitas vezes comparados a Manu Chao ou até mesmo aos Orishas. Soltando uma graçola ou duas, comparava-se a edição 2004 do Festival Paredes de Coura com um possível festival de Inverno ou mesmo com um festival para gente molhada.

CocoRosie
Voltando ao primeiro dia de concertos no palco principal – devido à chuva, o delicioso Jazz na relva passou para o Centro Cultural de Paredes de Coura e o palco songwriters, a grande novidade da edição 2004 do Festival Paredes de Coura (que, ao que parece, é para manter), para o palco principal – Paredes de Coura assitia à estreia em palcos nacionais das CocoRosie, a dupla norte-americana formada pelas irmãs Sierra e Bianca Cassady, um dos projectos mais excitantes do momento, no que diz respeito ao songwriting. A chuva intensa fez com que as manas Cassady descessem até ao palco agarradas a um guarda-chuva. Em palco, um órgão, uma guitarra acústica e um par de microfones. Em mente, La Maison de Mon Revê, um conjunto de canções folk e blues de contornos bizarros. A acompanhar as irmãs Cassady estava um human beatbox, ou seja, alguém que, com a boca, ia fornecendo batidas hip-hop que serviam de base para quase todas as canções. Do alinhamento constaram “Madonna” (“Miss madonna won't you give me a kiss / One of your soft sweet lagrimas”), “Jesus Loves Me” – (Jesus loves me / But not my wife / Not my nigger friends / Or their nigger lives / But Jesus loves me / That's for sure / 'Cause the bible tells me so”), “By Your Side” (“I'll always be by your side / Even when you're down and out / I just wanted to be your housewife / All i wanted was to be your housewife ”, entre outras. O acompanhamento musical ia sendo feito com um fio que segurava pequenos sinos, uma pandeireta, gravadores que encostados a um microfone iam reproduzindo conversas, suaves murmúrios, e todo o tipo de objectos bizarros pertencentes ao imaginário infantil. Sierra ia alternando entre a guitarra acústica, o orgão e a harpa – o tal instrumento que está cada vez mais em voga por estas andanças. As vozes – as de Sierra e Bianca, de uma cândida brancura e quase tão bizarra como a de Joanna Newsom, respectivamente – partilham a mesma dor e entrecruzam-se maravilhosamente como o cor-de-rosa e o branco e direccionam-se a um céu que, durante toda a actuação, suspendeu a queda de chuva só para as poder ouvir. Algumas bolas de sabão sopradas directamente da plateia subiam e direccionavam-se a Sierra e Bianca Cassady, reforçando a imagem na sua condição etérea – tão cedo não se esquecerá a passagem das CocoRosie por Portugal, pelo seu carácter único e revelador. A quantidade de publico ia aumentado cada vez mais e também a curiosidade e a surpresa de alguns. Para outros é a confirmação: as CocoRosie são ainda mais intensas ao vivo do que em disco. Houve ainda tempo, na última canção, um instrumental conduzido pela angelical harpa de Sierra Cassady, para a entrada em palco de Devendra Banhart (o namorado de Bianca Cassady), que adornou o tema ao orgão e emprestou a sua voz para ainda mais harmoniosos murmúrios. Resumindo, espera-se um regresso muito em breve, de preferência em nome próprio.

De seguida entrariam em palco os Arrested Development para aquilo que Speech, o guia da banda, anunciava: “Esta digressão vai ser uma mistura excitante de música com dança, percussão, DJs e claro, com todas as canções que se tornaram famosas por este mundo fora”. Motivo principal: o hip-hop servido por batidas fortes, guitarras plenas de groove e linhas de baixo saltitantes e irrequietas. Mas se é complicado animar toda uma multidão ao sol, ainda mais difícil será reanimar escassas centenas de pessoas ameaçadas por mais um ataque de pluviosidade. A banda pedia: “Put your hands up in the air”, “Jump, jump”. As palmas à chuva tornaram as coisas ainda mais tragicamente enternecedoras. “Tennessee" ou "People Everyday” foram temas obrigatórios num alinhamento que passou curiosamente por “Raining Revolution”, “Nightmare Demons” e “ Ease My Mind”. À frente, duas bailarinas mostravam o caminho para o festejo à chuva, mas a carga de água impossibilitava mesmo a celebração do hip hop, como se esperava.

Bunnyranch

Ao contrário daquilo que era esperado, os Snow Patrol, autores do mais recente Final Straw, não puderam estar presentes devido à doença do vocalista, uma infecção viral, que o obrigou a cancelar grande parte da digressão. É verdade que a noticia deve ter deixado algumas pessoas tristes, mas para tal cenário de dilúvio o que se pedia era mesmo rock. Na sua vez actuaram os sempre surpreendentes Bunnyranch, de Kaló (voz, bateria), Filipe Costa (orgão, piano, voz), André Ferrão (guitarra) e Pedro Calhau (baixo). Na mala, ou no alinhamento, o novo álbum de originais intitulado Trying to Loose. Para quem anda distraído, os Bunnyranch – ao lado dos Wray Gunn – são a banda de rock n’ roll mais excitante de Portugal. Kaló é um animal de palco: nasceu para ele, vive nele, e nele morrerá. Toca bateria em pé, roda em volta dela, parece fugir de alguma coisa ou de alguém. É tão endiabrado quanto a sua música o sugere. O merecido lugar no palco principal não foi em vão: com ou sem chuva, não houve quase ninguém que não tivesse dançado com as enérgicas e confrontadoras canções rock imbuídas em blues - rockabilly também é rei. Os refrões são catchy, as guitarras são barulhentas, o baixo é corpulento, os teclados são coloridos e festivos e a pose é rock - exageradamente rock, como se quer.

Injustiça ou prémio, não deixa de ser curioso que os Bunnyranch tenham actuado mesmo antes dos Blues Explosion de Jon Spencer, banda a que muitas das vezes são comparados. A verdade é que – vendo as coisas à luz da razão e da chuva – os Blues Explosion raramente conseguiram provocar mais loucura na plateia do que os Bunnyranch haviam conseguido. Jon Spencer, Judah Bauer e Russell Simmins têm novo disco e este não seria com certeza o melhor concerto para mostrar as novas canções. Apesar de terem passado por alguns clássicos, os Jon Spencer nunca tiveram o público na mão. Apesar disso e da chuva, Jon Spencer parecia estar a ter uma grande noite, pois saltava e mexia-se efusivamente. Não fosse a chuva e as coisas teriam sido bem diferentes. Talvez seja o sinal de aviso para os Jon Spencer virem tocar a Portugal, mas em nome próprio. Este ano, Paredes de Coura mostrou apostar verdadeiramente nas guitarras, e para esse efeito, os Blues Explosions preencheram e transbordaram os requisitos mínimos.


Scissor Sisters
Para fechar a noite, uma fenómeno com quase tanto sucesso como os O-Zone do famoso “Dragostea din tei”: os Scissor Sisters. Duas vozes em palco: o vocalista, magro e excêntrico, pavoneava-se e roçava-se no microfone; a vocalista dançava e tentava animar o público. Das colunas saíam os sons electro-redneck de “Take Your Mama”, o tema que até podia muito bem ter tido a voz de Elton John quando se canta: “Do it / Take your mama out all night / So she'll have no doubt that we're doing oh the best we can / We're gonna do it / Take your mama out all night / You can stay up late 'cause baby you're a full grown man ”. “Take Your Mama” é um convite à excentricidade, uma alusão à noite e ao que nela se vive. O concerto continua com guitarras funk, linhas de baixo fortes e sexo espremido como se de uma laranja se tratasse. Há solos de guitarra, há solos de orgão, há solos. A certa altura, a vocalista, com um palavreado encantador, informa que se já eramos heróis do mar, agora eramos heróis da chuva. Do céu, mais algumas descargas mas o público não abandona a causa. Do palco, disco sound e quase ninguém parecia incomodado com isso. “Mary” é um trama baladeiro conduzido por teclados que termina em destemido solo de guitarra. “Comfortably Numb”, um tema original dos Pink Floyd, ganha cor, brilho, glamour, teclados lascivos e falsetos pré-histéricos. Com tanto cortar, tanto cortar, os Scissor Sisters ficam apenas com uma colecção de canções balofas e inconsequentes de disco sound. Um hype tão-somente e com menos piada que os Electric 6. No fim não restavam dúvidas: as CocoRosie e os Bunnyranch haviam sido os heróis da noite.
· 17 Ago 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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