Festival Paredes de Coura 2004
Paredes de Coura
17-/20 Ago 2004

18/08

E finalmente o sol. Ou o quase sol. Ou a não chuva, porque isto de optimismo exagerado não costuma ter bons resultados. Depois de alguns dias de teimosia, a chuva abriu espaço para algum bom tempo. Mesmo assim o Jazz na relva continuava a acontecer no Centro Cultural da vila que de ano para ano mostra estar mais desenvolvida e animada. Enquanto se esperava pelo concerto no palco Jazz, uma flauta e um batuque recreavam, perto de umas escadarias, a música de Michael Knight (a personagem do canastrão David Hasselhoff) numa versão ska. Numa visão mais optimista, pensava-se em Van Morrison e no seu colorido Astral Weeks. Ainda na espera pelo concerto, montava-se uma espécie de atelier construído com alguns bidões azuis que serviria durante toda a semana para um workshop de percussão. Uma vez chegados à sala, na falta do rio havia paredes, na falta de relva havia um enorme tapete verde que cobria quase todo o espaço. Pouco depois das cinco horas da tarde, o Bernardo Sassetti Trio entrava em palco. Bernardo Sassetti no piano acompanhado de Carlos Barreto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria. Muitos olhares curiosos, ansiosos pelo início do espectáculo – o público do Jazz na relva vai-se repetindo aqui e ali. O trio, em palco, é assombroso. O piano de Sassetti evoca a aurora boreal em toda a sua beleza ou uma manhã trágica e teatral de orvalho. O contrabaixo, com ou sem arco, é uma força da natureza. O trabalho de bateria de Alexandre Frazão é espantoso. Dedicaram uma canção a Carlos Paredes, recriaram Miles Davis e um ou outro standard e debruçaram-se em temas mais ou menos uptempo. “Quando volta o encanto” foi um dos momentos mais altos da actuação: silencioso, belo, e nocturno.

Josh Rouse
De volta ao recinto, um concerto que reunia bastantes expectativas. Josh Rouse, acompanhado por um teclista/guitarrista trazia o colorido e açucarado 1972. Apesar de despidas, as canções que Josh Rouse apresentou foram sempre capazes de distribuir sorrisos pela plateia. ”1972”, “Sunshine (Come On Lady)”, “Come Back (Light Therapy)” e “Love Vibration” foram disparadas logo ao início em versões simples, desprovidas de grandes ornamentos soul escutáveis no disco. A mui cantarolável “Love Vibration” solta palavras de esperança: “Now everbody's scared / Scared of being lonely and abandoned / Find someone who cares / Find someone to love and understand you”. “Under Cold Blue Stars”, editado em 2002, foi passagem obrigatória em temas como “Miracle” e “Under Cold Blue Stars”. Houve também passagens por Home, por “Directions” - o tema que surge na banda sonora de Vanilla Sky -, e ainda por versões para canções de Tom Waits e Neil Young. Josh Rouse é o capitão dos refrões chorudos e a plateia mostrava-o bem ao cantá-los alegremente. Espera-se ver repetida a actuação e de preferência com full band, até porque Josh Rouse tem disco novo, Nashville, que vai estar disponível na Primavera de 2005.

Mão Morta
Os Mão Morta, ao que se sabe, tinham demonstrado o seu desagrado por continuarem a ser tratados como uma banda de garagem, por isso apresentaram-se vestidos de forma peculiar – cabeleiras, identidades sexuais trocadas, vestidos – e acima de tudo com três guitarras, o que confere à música dos Mão Morta uma dimensão quase absurda. Apresentaram-se como as “bonecas de Braga” e por isso voltaram às raízes – começaram com “Sobe Querida, Desce”. Ao contrário daquilo que costuma acontecer nos últimos concertos – chegaram a apresentar Nus do início ao fim – do último disco de originais, apresentaram apenas “Gnoma” - que na falta de Miguel Guedes, o vocalista dos Blind Zero, contou com três vozes da banda - e “Vertigem”. O alinhamento foi sendo feito com canções dos primeiros discos e direccionou-se claramente aos fãs da banda: “Lisboa”, “Budapeste”, “Barcelona”, “Vamos Fugir”, “E Se Depois” e o clássico “Em Directo (Para a Teelvisão)" com o refrão a ser entoado por muitos: “É guerra sem quartel / De empresas rivais / Na busca do controlo / De mercados locais / Ou então... ou então... / Encena-se um directo / Para a teelvisão”. “Cão da Morte” fechou um concerto enormíssimo, provavelmente um dos melhores dos últimos anos dos Mão Morta – se tivessem tocado entre os Mondo Generator e os Motorhead não seria surpresa para ninguém.

Desconhecidos para muitos – alguns ficavam surpresos ao saber a data de início de actividades – os DKT/MC5, banda lendária de Detroit, subiram ao palco com apenas três dos membros originais. Michael Davis (baixo), Wayne Kramer (guitarra) e Dennis Thompson (bateria). Para ajudar nas vozes e algo mais, subiram também ao palco Mark Arm (Mudhoney,) Nicke Royale (The Hellacopters), Lisa Kekaula (The Bellrays) e, numa das músicas, Lemmy Kilminster. Tudo o que se pedia eram descargas rock – aquelas que influenciam uma grande parte deste novo fenómeno do novo rock de que tanto se fala. Solos ao alto, as guitarras estão no meio de nós – e degladiam-se em despiques. Canções como “Ramblin’ Rose”, “Sister Anne”, “Motor City’s Burning”, “I Can Only Give You Everything” e “Human Being Lawnmower” são ainda inflamadas visões do rock n’ roll, adornadas pela soul ou pelos blues. Lisa Kekaula transformou-se na face mais visível dessa soul devedora aos Deuses. Segurava uma pandeireta e libertava sonoros gritos que chocavam com os riffs que iam saindo cada vez mais fortes e intrincados. É o preço do rock n’ roll e alguém tem de o pagar. Alguém no palco ordenou a plateia em três partes diferentes e sequenciou-as para manifestações distintas – cada um tinha uma frase diferente e o efeito foi deveras interessante. Uma vez posta em marcha, a manobra criava uma espécie de refrão vocal, de belo efeito. Pouco depois, o clássico, manobra rock de teor inflamável – Jeff Buckley que o diga, pois apresentou-a em vários concertos. A verdade é que os MC5 conquistaram finalmente Portugal – ainda se falava sobre o concerto um ou dois dias após de ter acontecido. Pena que tenha sido tantos anos após o primeiro disco.

Mondo Generator
A edição de 2003 do Festival Paredes de Coura trouxe os Queens of The Stone Age naquele que foi um dos melhores concertos do respectivo ano. Desta vez, a representação seria feita pelos Mondo Generator, o projecto de Nick Oliveri. Esta mudança pode parecer uma regressão e não podiam estar mais perto da verdade. Se A Drug Problem That Never Existed, o último disco de originais dos Mondo Generator, já não tinha especiais pontos de interesse, ao vivo a banda de Nick Oliveri torna-se ainda menos apelativa. Algo corre mal quando o melhor momento do concerto foi “I’m Gonna Leave You”, um tema original dos Queens Of The Stone Age. Algumas canções assemelham-se de tal forma aos Queens of The Stone Age que recuperam os riffs sirene de ambulância dos autores de Rated R. Ao mesmo tempo, a quantidade de panamás da Optimus fazia com que a plateia parecesse um laranjal. Indiferentes a isso, os Mondo Generator prosseguiram com algumas músicas novas e com alguns temas de A Drug Problem That Never Existed como “Four Corners”, “So High, So Low” e “Here We Come”. “13th Floor”, do primeiro disco, Cocain Rodeo, fechou um concerto morno e pouco inspirado.

Motorhead
Quem durante todo o dia percorreu a vila de Paredes de Coura, o recinto e o parque de campismo, sabia que a quantidade de camisolas pretas e brancas com o símbolo dos Motorhead queria dizer apenas uma coisa: o dia seria de incondicional devoção à banda de Lemmy Kilminster. Era certo e sabido que nem com toda a chuva deste mundo algum fã dos Motorhead abandonaria o recinto antes de Lemmy abandonar o palco pela última vez. Depois de entrarem em palco, não houve descanso durante muito tempo. O mosh pit alargou-se e era o local onde todos queriam estar. “Metropolis”, “Brazil” e uma versão de “God Save The Queen”, um original dos Sex Pistols, foram alguns dos mais altos momentos de uma actuação que fez esquecer chuva, a lama, e tudo mais. Lemmy, o carismático vocalista e baixista, conduziu os Motorhead pelo meio de erupções, ataques de fúria, raiva em quantidades suficientes e ainda houve tempo para um solo de bateria daquele que foi apresentado como o melhor baterista do mundo. Desde o início do concerto – talvez do dia – que uma canção pairava nas mentes de todos os fãs dos Motorhead. Essa canção é “Ace Of Spades” que já no encore transformou o anfiteatro natural de Paredes de Coura em zona de guerra, espaço privilegiado para o mosh. O resto da história pertence só a quem lá esteve – e não é de bom tom partilhar aquilo que muita gente vai guardar para o resto de uma vida.

Para o after hours estava reservada a actuação dos estupidamente excitantes LCD Soundsystem, o projecto de James Murphy. Ao contrário daquilo que se podia pensar, o concerto decorreu em forma de full band e não em DJ set, como tudo fazia prever. Agastado pela chuva que tinha atingido Paredes de Coura, o público limitava-se a algumas escassas centenas que se recusavam a ir para as tendas sem mais um pouco de diversão. O público permanecia algo enlameado mas colorido pelas canetas florescentes que a Optimus entretanto tinha distribuindo. E é exactamente de diversão que se tratam os LCD Soundsystem. Por enquanto ainda editaram apenas alguns singles, mas o burburinho já se sente ao longe. Quando apresentaram "Give It Up" já as coisas iam quentes. A mistura de funk e rock com batidas fortes tinha já incendiado o dance floor. Os temas são longos e estimulantes - alguns prolongam-se mesmo para lá dos dez minutos. James Murphy, o front man, com algum humor, anuncia as últimas músicas dizendo que, na verdade, não tem mais disponíveis. Os LCD apresentaram ainda uma cover e terminaram com a excêntrica e excitante “Yeah”. Se não fosse pela chuva e pelo horário do concerto, provavelmente estaríamos a falar aqui de um happening.
· 17 Ago 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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