Festival Sudoeste 2003
Zambujeira do Mar
7-10 Ago 2003

10/08

Badly Drawn Boy “Eu gosto de dar concertos para amigos”
Identificação ao peito. Bebe-se um pouco, pega-se na guitarra. Começa-se a tocar, pára-se: “What fucking sound”. Com o volume mais alto, começa-se a tocar de novo. Pára-se, coça-se o nariz. Damon Gough protagonizou no início de noite/final de tarde de domingo o concerto mais original de todo o Sudoeste. Quase sempre sozinho (à excepção de quando vinha alguém, de surpresa, ao piano ou quando quem o acompanha em digressão veio dançar para o palco) Badly Drawn Boy desfilou pelo palco temas dos três álbuns até agora editados, ao mesmo tempo que revisitou lados-B e adiantou alguns avanços para o novo disco. As versões eram, naturalmente, despojadas do seu lado mais rítmico, e algumas delas chegavam a ser mesmo de difícil reconhecimento por parte de quem conhecia os originais. Não obstante isso, foram sempre certeiras , mesmo que arriscadas, e mostraram que mesmo em versão solitária Badly Drawn Boy é capaz de fazer muita coisa.
O recinto começou quase vazio, mas à medida que as músicas foram avançando a plateia foi-se compondo e os sorrisos de admiração foram mais que muitos. Primando sempre por um estilo invulgar, quase apalhaçado, Badly Drawn Boy soube sempre como cativar o público mesmo quando parecia não o querer fazer. TG

Moloko O passado era mais risonho...
Os Moloko assinaram uma actuação inconstante, em que os momentos altos se sucediam a momentos mais monótonos. “Sing it Back” foi um grande momento, numa autêntica jam session de longa duração, carregada de criatividade e percorrendo caminhos do jazz, soul, funk e música de dança, tudo numa música só. Mas houve momentos em que tivemos saudades de algum do dramatismo que Roisin Murphy tão bem sabe empregar à sua voz. Faltaram as orquestrações mais elaboradas, mas no cômputo geral souberam adaptar a sua música a um festival e apelar a uns passos de dança. É isso que se quer num festival…Certo? MM

Stereophonics Embaixadores de Sua Baixeza, o pop-rock galês
Fracos simulacros dos Manic Street Preachers, a superar os índices de irritabilidade dos Oasis e, ainda assim, francos-atiradores nas tabelas de vendas e no airplay das rádios, os Stereophonics bafejaram os presentes com uma excelsa declamação de rock desnutrido. Se os grandes êxitos radiofónicos foram bem recebidos, a incursão por ‘Ace of Spades’ dos Mötorhead colocou-os alguns furos abaixo daquilo que poderia ter sido uma actuação inofensiva para passar a sofrível. Também poderá ser ingrata a tarefa de suceder a Badly Drawn Boy e aos Moloko e antecipar as actuações de Beth Gibbons & Rustin Man e Beck. Contudo, a prestação, tal qual a conhecemos, não deixaria de ser desinteressante num outro contexto, festivaleiro ou não. A insidiosa tentativa de penetração no indie rock de feira torna ainda mais caricatural o embuste. Mais tarde, a noite prosseguiu lauta em revelações e confirmações e os Stereophonics foram esquecidos. Talvez tenham aprendido qualquer coisa com os nomes que se lhes seguiram. Se tiver sido esse o caso, bem hajam e voltem sempre. HG

Beth Gibbons & Rustin Man Cápsula intemporal em gestação
Entender Beth Gibbons é ousar tocar a berma da vida, decalcar a biografia de um qualquer ser e reproduzi-la em parcos minutos. É tentar compreender que a existência não passa do refrão de uma música que bate fundo na alma. Olhar o luar sobre o Sudoeste e contar as estrelas que vieram assistir à prestação da mais brilhante. “Out of Season”, o primeiro capítulo de um compêndio a solo que se pretende infinito, é um disco intemporal, abstémio em matéria de elaboradas técnicas de estúdio e uma das mais bonitas composições fora de época, algo vintage, porque se eternizou na máquina do tempo. Cheiram já a Outono as recordações mais persistentes daquela subida ao palco no Verão de 2003. Um set que desembainhou os temas do disco com uma pequena inflexão passada, a trazer de volta as memórias da actuação cinco anos antes à frente dos Portishead. Ali mesmo, entre a estrada e o mar. ‘Mysteries’ soou primeiro e mais denso. Depois, foi assistir a um trabalho de performance que tanto tem de desajeitado como de encantador. E sentir o calor que desencarcerou do seu corpo ao descer para cumprimentar a sua assistência, extasiada e aturdida. É destas notas e destas palavras que se arquitectam os mais consistentes casulos, os mais desafogados sopros do coração. Fica a saudade na partida. HG

Beck Quando o pó rima com festim rock-qualquer-coisa
Derradeiro momento de um festival onde predominou o profissionalismo mas raramente a novidade, o concerto de Beck constituía, antes de acontecer, para muitos - menos do que nas outras noites mas maioritariamente fiéis – uma espécie de esperança na surpresa.
A noite já ia longa quando Beck e seus companheiros de estrada, vestidos de negro, invadiam o palco. «Novacane», « New Pollution» e «Mixed Bizness» davam início ao momento, de forma explosiva. O clima era de festa. Sea Change parecia ter sido arrumado pelo Artista a um canto para ocasiões mais intimistas, mas eis que este se revela. Depois de um «Paper Tiger» mais eléctrico do que em álbum, temas como «The Golden Age», «Lonesome Tears» e «Lost Cause» vieram acalmar as hostes. Naquele contexto, ficaram-se a milhas da intensidade atingida em disco. O desfalecimento de um público sedento por dança, mesmo que cansado, provava-o. Contavam-se pelos dedos os que queriam folk introspectivo a horas tão tardias. «Loser», em versão encurtada e tocado em slide , voltou a levantar pó na Zambujeira. A electricidade e o fervor haviam regressado àqueles espaço e momento tornados ilimitados. Beck ameaçara causar estragos, ao afirmar que o Verão habitualmente o incentivava à realização de estúpidas experiências. Um brilhante meddley de temas de gente como Beyoncé, Justin Timberlake, Nelly, TATU ou Queen fez corar cada um dos presentes. A festa tinha regressado à Zambujeira e com ela o pó.
Eis que Badly Drawn Boy é chamado a palco. Com o Artista interpreta um dos temas dos primórdios da carreira de Beck - «Puttin’ It Down» - à guitarra acústica, pois claro. A partir daqui não há sinal de paragem até ao final do festim. «Where It’s At», «Hotwax» e «Beercan» enchem-nos a alma de pó. Já em encore, e de fatos branco-florescentes, Beck e a banda – profissional mas inferior à que passou pelo mesmo palco há três anos - atacam um derradeiro «Devil’s Haircut». Os festivaleiros estão rendidos, com o diabo no corpo e na mente. Mesmo não ultrapassando a surpresa e diversidade de há três anos, este foi, seguramente, um dos melhores concertos do festival. E porquê? Porque Beck não consegue ser mau naquilo que faz. Tem a lição de performance, qualidade e eclectismo musical bem estudada. Quem é que disse mesmo que ele era um perdedor? TC

· 07 Ago 2003 · 08:00 ·

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