Festival Sudoeste 2003
Zambujeira do Mar
7-10 Ago 2003

09/08

David Fonseca David FonSECA?
O português que cantou no maior número de festivais deste 2003 chegou à Zambujeira do Mar com um concerto maçador que começa a precisar de nova cara. Num concerto que teve o momento mais alto a pender, naturalmente, sobre “Someone That Cannot Love” mas onde também se destacou o novo single “The 80’s”, foi um vê-se-te-avias de temas chatos, que aborreceram uma audiência que estava ali para ouvir... “Someone That Cannot Love”… e pouco mais. Além disso, David Fonseca apresentou duas versões para temas dos Pixies e The Cars num palco que ele bem conhece. Foi ali que os Silence 4 atingiram um dos seus maiores momentos rumo aos mais de 200 000 discos vendidos.
Apesar de tudo isto, a actuação do ponto de vista técnico foi consistente, mostrando um bom rol de músicos de suporte onde se destaca Rita Pereira (ex-Atomic Bees) ao piano. A escolha e ordenação do alinhamento permitiu um encadeamento bem trabalhado e consequentemente uma estrutura de concerto (do ponto de vista dos picos energéticos) mais ou menos conseguida, mesmo que pouco ambiciosa. TG

Beth Orton "Desculpem lá, mas o álcool está-me a descer à alma"
A noite estava estranha. Arrefecera e tudo à minha volta era nevoeiro e faces desfocadas. Porém, a de Beth Orton estava bem acessível aos meus sentidos. Figura franzina, meio maria-rapaz de voz única e guitarra em punho, Beth movimenta-se no palco de forma impressionante. Por trás, a acompanhá-la, alguns amigos tocam cordas (um contrabaixo, um violino, um violoncelo e uma guitarra) e uma bateria, procurando engrandecer os simples e singelos temas da cantautora folk britânica.
Coube, assim, a Beth Orton a difícil tarefa de enfrentar um público que mal a conhecia, a meio do cartaz de uma noite que pedia movimento e cor. Podia ter descambado o acto quando, depois de executar um tema, lançou um efusivo «gracias» à assistência. Pediu desculpa e explicou que estava um bocado confusa. A cerveja consumida durante a prestação terá contribuído certamente para este pequeno equívoco. O momento infeliz foi, de imediato, esquecido. Afinal as coisas não lhe estavam a correr nada mal. Cada vez mais público ia abanando a anca e entoando os refrões dos temas mais emblemáticos da carreira da cantora como o descontraído «She Cries Your name», o derradeiro e mágico «Central Reservation» ou o magnífico «Stolen Car». No entanto, terá sido «Mount Washington» - do último álbum, Daybreaker - o momento mais poderoso e intenso da actuação, quando Beth e companhia, em delírio, arriscaram terminar o tema em distorção rock. Momentos menos interessantes também os houve. A música de Beth Orton não é para todos e nem sempre funciona da melhor forma. «Galaxy Of Emptiness » soou algo enfadonha, é certo, mas, apercebendo-se de que esta não era a direcção acertada para aquele momento e espaço, Beth atacou os temas mais descontraídos de Central Reservation. Pena que pérolas como «Stars All Seem To Weep» e «This One’s Gonna Bruise» não tenham tido espaço ali. Algo seria diferente. Possivelmente uma Aula Magna lhes desse espaço e tempo para respirarem.
Assim sendo, e apesar daquele palco ser demasiado grande para Beth, a progressão da actuação fez constatar que, paulatinamente, o público se foi deixando levar, descontraidamente, pelos sons balsâmicos vindos do palco. No final também Orton estaria mais solta. Foi, no entanto, apenas um concerto simpático. TC

Morcheeba Competentes mas não descarados
Os Morcheeba foram os segundos Jamiroquai, na medida que tinham o público já conquistado, conhecedor do repertório e ansioso por entoar os sucessos da banda. Sem surpreenderem (em Paredes de Coura estiveram a melhor nível), mostraram-se uma banda profissional, bem rodada, seguríssima, com Skye Edwards mostrando toda a sua sensualidade e simpatia. Cada vez mais próximo do universo pop, a actuação primou mais pela empatia com o público do que propriamente pela qualidade musical. Houve tempo para uma versão de Neil Young, e também houve o inevitável “Rome Wasn’t Build In a Day”, já em encore. Um triunfo, mesmo num concerto programado ao milímetro e sem qualquer risco. MM

Skin Besta de palco em performance enraivecida
Faltava ainda libertar o touro em forma de mulher para encerrar mais uma noite de actuações no palco principal. Skin ocupou a arena do Sudoeste para uma apresentação carregada de testosterona em doses mais substanciais do que de estrogénio. Exercício redundante será afirmar que a antiga voz dos Skunk Anansie encheu todos os cantos que havia para ocupar naquele palco, chegando a assediar um assistente que por lá se encontrava. Em pleno direito, revisitou momentos importantes daquela formação como ‘Hedonism’, ‘Brazen’ e ‘You’ll Follow Me Down’, dedicando o resto da performance ao alinhamento da sua estreia em nome próprio “Fleshwounds”. Como se não bastassem a melomania da sua prestação a solo e a fúria que se desprende do corpo e da voz. Que não deixam indiferentes apoiantes nem delatores. Foi uma actuação muito forte, ainda que soe, no conjunto e à distância de uma semana, um pouco a mais do mesmo. HG

Chicks on Speed Electroclash do dia seguinte
O trio feminino alimenta-se da negação do rock pela antítese estilística e desconstrucionista, mas aproxima-se do género sem guitarras mas com atitude. O tema ‘We Don’t Play Guitars’ serve de base de sustentação a um manifesto multimédia contra o conservadorismo da pop de cifrões. A imagem é quase tudo. Contra a tela colocada por detrás delas eram disparadas imagens caseiras ou videogravadas com alegorias visuais que centrifugavam tudo, desde o mundo da moda à nota de dólar americano. Registavam também aparições em nome próprio e de Peaches, espécie de matriarca do electroclash transcontinental. De resto, era atentar nos adereços que serviam de vestuário, nos instrumentos de cartão, na combinação de veludo e plástico, na imagética vaginal. E deglutir a marcha sónica e os ensurdecedores espectros de voz. Fulgurante a prestação das Chicks on Speed no pequeno palco Planeta Sudoeste. HG

· 07 Ago 2003 · 08:00 ·

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