Festival Sudoeste 2003
Zambujeira do Mar
7-10 Ago 2003

08/08

Toranja Gomos a menos
A difícil tarefa de quem, como os Toranja, abre as hostilidades do palco principal com os últimos feixes de luz solar ainda a cair sobre a Herdade da Casa Branca deve ser tida em conta como sinal de brio. Como se sabe, com um público ainda a meio gás e sem o aproveitamento das potencialidades dos jogos de luz, um concerto não tem a mesma capacidade de adesão da audiência. Mesmo assim, as pessoas aderiram, ainda que em pequena escala.
Com um início algo atribulado (o som exterior estava cortado e só se ouviam - bastante mal, diga-se de passagem - as colunas de palco), os Toranja conseguiram demonstrar, ainda que não numa dose categórica, porque são considerados uma das promessas da música cantada em Português e devedora dos cantautores nacionais. É verdade que continuam para muitos presos ao fantasma Jorge Palma, mas, convenhamos, Tiago Bettencourt mostra uma boa capacidade na feitura de canções com letras que são certeiras no que dizem.
O concerto foi extremamente pequeno (não chegou aos trinta minutos), com os maiores picos energéticos a penderem sobre o single de avanço “Cenário” e também sobre o tema que finalizou, “Bola de Futebol”. Pelo meio, o momento mais intimista ocorreu quando Bettencourt se sentou ao piano para, quase sozinho, cantar “Carta”. TG

Blind Zero "Com Palma e talento chegamos lá"
Surpreendente para muitos daqueles que, ao início da noite, já ocupavam o seu lugar fronte ao palco, o concerto dos portugueses Blind Zero revelou-se indubitavelmente como o concerto rock’n’roll desta edição do festival do Sudoeste (se tomarmos em conta que os Primal Scream não são apenas feitos de rock). Com uma noção certeira de espectáculo e de efervescência musical, Miguel Guedes e companhia mostraram, ali, que um concerto – na sua perspectivada significação – pode ser uma perfeita combinação entre teatro, entretenimento e energia rock inesgotável. Durante a quase hora que o espectáculo permaneceu em pé, a banda portuense soube conquistar um público que teria certas dúvidas sobre o estado actual dos Blind Zero, precisamente por os ter deixado por alturas de Trigger, álbum que hoje já pouco diz do que a banda é em álbum e ao vivo. A Way To Bleed Your Lover parece ter colocado os Blind Zero numa posição cobiçável no parco panorama rock de origem nacional e isso reflecte-se, claramente, em cima do palco. Miguel Guedes é hoje um dos melhores performers (nacionalmente falando) a par de Adolfo Luxúria Canibal e Manuela Azevedo. E quem esteve presente perceberá facilmente do que falo. Por sua vez, Miguel Ferreira – também dos Clã – veio trazer ao universo dos Blind Zero, por meio dos seus teclados, ambientes alucinantes que permitiram imprimir novas sensações aos temas já por si ásperos dos Blind Zero. Resumindo, a adolescência passou-se-lhes para trás das costas.
Sangue, punk e cólera, em motim rock, percorreram uma actuação fugaz mas histórica na vida do Sudoeste. O momento mais alto terá sido, porventura, a subida ao palco de Jorge Palma – aplaudido carinhosamente pelo público - para, com a banda, interpretar «The Down Set Is Tonight», um raro momento calmo dentro de uma actuação com escassas pausas, e o seu «Bairro do Amor», ali transformado num rock amargo e cru, território já parente à banda de Miguel Guedes. Engane-se, no entanto, quem ousou pensar que o espectáculo ficou-se por estes dois momentos mágicos. Temas como «Trashing The Beauty», «Wish Tonight», «About Now» ou os mais expostos «Big Brother», «You Owe Us Blood» e «Another One» trouxeram àquele espaço de tempo quilos imensos de energia e rendição e colocaram, de forma invejável, corpos em chamas. O que, aliás, jamais poderá ser coisa má. TC

Suede A obsessiva obsessão pelo passado
Longe vão os tempos em que os Suede eram peça fundamental na galáxia pop europeia e em que espalhavam glamour por onde passavam. Em 2003, a banda de Brett Anderson é meramente uma extensão pouco ousada do seu (digno) passado. Deste modo, a segunda passagem dos Suede pelo palco do Festival Sudoeste [na primeira edição foram cabeça-de-cartaz de uma das noites] feita de muito glam rock, suor e passado veio apenas provar esta infeliz situação.
Não foi de modo inocente que a banda optou por apresentar um alinhamento pouco arriscado, centrado essencialmente nos singles que elevaram o seu estatuto em meados da década de 90 e, em menor número, nos singles dos últimos dois álbuns que passaram, aliás, ao lado da crítica e do público. Os Suede propuseram-se, assim, a agarrar um público que maioritariamente não era o seu e venceram, mesmo que sem grandes alaridos. Como solução para uma possível inércia relativamente à actual fase, a banda encontrou a transposição para palco de um best of da sua carreira. Ironicamente, A New Morning, o último álbum, passou de rajada naquele palco.
Anderson - energético e comunicativo q.b. - e companhia não quiseram incomodar muito e, de facto, cumpriram. A energia pairou pelo ar em explosivos hinos rock como os mais velhinhos «Animal Nitrate», «Filmstar», «Trash» e «Beautiful Ones» - estes dois últimos cantados em delírio colectivo - ou no novo «I Love The Way You Love Me». Os mais recentes «Can’t Get Enough», «Obsessions» e «Electricity» (este raramente tocado em Portugal) também comunicaram bem com os milhares de corpos que os ouviram e lhes reagiram. As coisas acalmaram – fisicamente - em baladas saturadas como «Positivity», «She’s In Fashion», «Everything Will Flow» ou a derradeira «Saturday Night». No final, ficou a sensação de que este seria um excelente concerto algures em 1996. O que é um facto é que estamos em 2003 e muito pouco mudou no interior criativo dos Suede. TC

Jamiroquai Teste: Até onde vai a tua paciência?
Algumas horas antes da sua entrada em palco, Jay Kay já circulava, de boca em boca, um pouco por todo o lado. Ele era Jamiro na praia, no campismo, nos chuveiros, nos restaurantes... Na noite mais concorrida de todo o festival, uma multidão assombrosa e dissemelhante esperava, com grandes expectativas, o novo rei do funk. Mesmo quem estava de pé atrás, debruçava-se para ver o que se iria suceder em palco quando Jay Kay e os Jamiroquai o pisassem. Prometia-se festim.
O concerto começou do melhor modo imaginável. "Canned Heat" e "Cosmic Girl" serviram de mote às primeiras danças e ondas de pó. As temperaturas tinham indubitavelmente subido. Aparentemente a noite estava ganha. Pelo menos para muitos esteve. Para outros como eu, a partir deste momento o espectáculo foi-se perdendo em excessivas e repetitivas extensões de alguns temas do senhor de "Virtual Insanity", o qual, para decepção de muitos, não foi tocado. Seria tudo diferente se as longas interpretações fossem dotadas de insanos improvisos ou desvarios mas o que tivemos oportunidade de assistir foi a uma mera repetição inconsequente da linha-base de cada tema tocado. A paciência começava a ser testada.
A banda esteve competente e Jay Kay - vestido de branco - não esteve mal nas suas danças e intervenções (brilhante a tirada da auto-aclamação de bom rapaz que leva todas as noites leite com chocolate à mãe e que nunca fumou um charro), mas faltou alguma loucura. Os "high times" que se esperavam ficaram-se pelo caminho e, apesar do profissionalismo demonstrado, Jay Kay sabia que podia fazer melhor. Ainda esboçou pedaços de loucura no final mas a festa ficou-se por aí, por um "Deeper Underground" muito rock groovesco e selvagem que soube a pouco. Pelo meio "Love Foolosophy", "Alright" e mais meia dúzia de alguns dos temas mais obscuros da sua carreira encheram as medidas a uma maioria rendida aos encantos do baixinho-gigante do funk. Outros como eu esperavam algo mais. A palavra semi-desilusão nunca se aplicou tão bem. TC

Primal Scream Vivos e em forma...
Aos Primal Scream coube a árdua tarefa de actuar após a maior enchente do festival. E perante uma debandada considerável do público optaram por um inicio menos arrojado, numa toada coesa, em que a electrónica foi esquecida por momentos, como que tentando fixar um público.
Talvez tenha sido "Shoot Speed/Kill Light", que manteve muita da audiência para o resto do concerto, mas foi a partir daí que tudo aqueceu… Em "Autobahn 66", do último Evil Heat, os atributos dos Primal Scream encantaram. Os excessos, a dança, o rock e as distorções marcaram o início de uma série arrasadora de músicas - "Rocks", "Medication" e "City", entre outras - nas quais já foi visível a procura do disforme e de vários caminhos por cada elemento do grupo, quase que tocando independentemente, para depois surgir a coesão.
Um concerto em que a excentricidade, a potência e a criatividade marcaram presença, acabando por ser um dos momentos mais altos do festival. Contrariam o início do concerto ("I Wanna Die"). Estão vivos! MM

2 Many Dj's Com um pé na dança, outro no rock e outro no whatever
Estavam os Primal Scream a animar «os resistentes» no palco principal com «Miss Lucifer» quando me dirigi ao Planeta Sudoeste. Dentro e para além deste, milhares de festivaleiros esperavam celebração mesmo depois de um suado exercício de ginástica que a comparência num concerto dos Jamiroquai exige. Parece ser esta a tendência do futuro do Sudoeste: cada vez mais e melhores alternativas ao palco principal. A actuação dos 2 Many DJ’s neste espaço alternativo é prova cabal desta nova realidade.
A julgar pela longa duração do set, pelas danças em modo «non stop» e pela cada vez maior afluência ao espaço, a prestação dos 2 Many DJ’s terá constituído, para os que a presenciaram, um dos momentos mais entusiásticos de todo o festival, muito provavelmente porque a fórmula encontrada pela dupla - os irmãos David and Stephen Dewaele - para atrair públicos de campos tão diferentes como o r’n’b, o hip hop, o electro, o techno, o rock, o house ou funk esteja próxima da composição da demência colectiva. Ou porque nos encontramos, hoje, mais próximos de um eclectismo há poucos anos inconcebível. Ter direito a pedaços de delírio, dança e alienação numa arena repleta de corpos ultramóveis só pode ser um senhor privilégio ou uma dádiva. Não é todos os dias (noites ou madrugadas) que temos acesso a endiabradas misturas de um qualquer tema de Nirvana, Chemical Brothers, Beastie Boys, Beyoncé, Garbage, Royksöpp, The White Stripes ou Blur, jamais embrulhadas entre si e entre muitas outras deambulações tecno, house ou electro. E o nosso corpo, mesmo exausto, só pode mesmo agradecer...
Os sorrisos na cara, no durante e no pós-set, são esclarecedores de que a vida com as «músicas emprestadas» dos 2 Many DJ’s seria bem menos cinzenta. TC

· 07 Ago 2003 · 08:00 ·

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