DISCOS
Minor Threat
Complete Discography
· 16 Mai 2004 · 08:00 ·
Minor Threat
Complete Discography
1988
Dischord


Sítios oficiais:
- Dischord
Minor Threat
Complete Discography
1988
Dischord


Sítios oficiais:
- Dischord
Um jovem de cabeça rapada fita-nos. O suor escorre-lhe pela cara. A boca vocifera, o dedo acusa, o tronco está ora erecto, ora curvado para que o jovem grite ao ouvido de alguém. Um palco exíguo quase ao nível do solo. Estamos em Washington, D.C., no ano de 1984. O jovem de que falamos é Ian Mackaye. A banda, Minor Threat.

Na música com o mesmo nome, Mackaye pede ao guitarrista Lyle Preslar "play it faster". A banda segue-os. Mackaye berra mais à frente "we're just a minor threat". "Ameaça menor". Uma declaração em jeito de grito de uma subcultura juvenil em febre criativa. Os Minor Threat são umas das dezenas de bandas que nasciam como cogumelos nos terrenos férteis de Washington no início dos anos 80, sob a alçada da Dischord, editora propriedade de Mackaye e de Jeff Nelson (o baterista dos Threat). O grito é também uma afirmação de um estilo de vida, o Straight Edge, no seu melhor, um apelo à libertação e auto-afirmação; no seu pior, uma cartilha de comportamentos em jeito de dogma. Ian Mackaye demarcar-se-ia anos mais tarde do Straight Edge, enquanto adopção literal e dogmática do "don't smoke don't drink don't fuck" escrito por ele para "Out of Step". Os seguidores do Straight Edge esqueciam-se do "at least i can fucking think" que dava sentido à frase.

"Complete Discography" reúne todas as gravações da banda. Este é antes de mais um documento ideológico e cultural. Um disco com significado idêntico a Never Mind the Bollocks, uma colecção de canções que valem mais do que o seu significado musical. Os Minor Threat tocavam um hardcore punk simples, de tempos rapidíssimos, guitarras afiadas - um furacão anti-melódico. Receita simples e mimetizada por milhares de bandas. Os Minor Threat eram, porém, musicalmente superiores a quase todo o punk subsequente.

Dos 26 temas da compilação, apenas dois ultrapassam a marca dos três minutos. A primeira metade do disco reúne as canções da fase em que a banda tinha apenas uma guitarra e que produziu os maiores clássicos ("Straight Edge", "Screaming at a Wall", "In My Eyes"). Musicalmente, os temas não diferem muito uns dos outros, como é costume entre punks. A bateria de Nelson raramente cessa, salvo para voltar à carga, tempestuosa. Mackaye berra e aponta o dedo a todos, cena hardcore incluída, adultos, falsos amigos, sociedade, alienados em geral. Ouça-se "Out of Step", um minuto e dezoito segundos de violência, para compreender a essência dos Threat e do que devia ser o hardcore, se o talento fosse distribuído de forma justa pela jurisprudência divina.

Com a entrada de Steve Hangsen para segunda guitarra e a passagem de Brian Baker para o baixo, o grupo pôde experimentar mais, perdendo parte da intensidade. Versões bem humoradas de clássicos dos anos 60, "Steppin' Stone" dos Monkees e "Good Guys Don't Wear White", explicam isso mesmo, mas "Betray" e "It Follows" são aquilo que esperávamos da banda. "Think Again" tem o dedo acusador de Mackaye apontado aos adolescentes eunucos. "Cashing In" é uma rockalhada a gozar com os mecanismos capitalistas da indústria do rock, com direito a solos cheesy e coros no refrão. A fechar o disco, o último single da banda, "Salad Days", mostra um Mackaye desiludido: "on to greener pastures the core has gotten soft look at us today we've gotten soft and fat waiting for the moment it's just not coming back". Mackaye, um dos pais do género, desiludido, fala do seu "filho": "baby has grown older, it's no longer cute".

O hardcore não foi inventado pelos Minor Threat. Os Bad Brains são tidos por muitos como os pais do género. Porém, nunca o hardcore fora simultaneamente tão rápido, incisivo, orgulhoso, politicamente empenhado ("the personal is political"). Nunca o hardcore tinha sido tão hardcore, intenso, fixado e consciente. A influência dos Minor Threat não se esgota na própria banda: das suas fileiras saíram os pioneiros do emocore Embrace e os deuses indie Fugazi, ainda hoje um caso único de convicção e de criatividade.
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com
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