DISCOS
Fiona Apple
Fetch The Bolt Cutters
· 12 Mai 2020 · 22:09 ·
Fiona Apple
Fetch The Bolt Cutters
2020
Epic Records


Sítios oficiais:
- Epic Records
Fiona Apple
Fetch The Bolt Cutters
2020
Epic Records


Sítios oficiais:
- Epic Records
Eu e Fiona.
Sou como sou. Gostem ou não. Tenho as minhas manias, e não peço desculpa. Perco horas a ouvir música, a escrever, a ler – e a beber cerveja em qualquer tasco que me apareça. Gosto. E faço o que gosto. Vivo bem assim, na minha sacra simplicidade. Não sou extraordinário mas tenho a minha visão do mundo. Não sou um solitário, um recluso, um eremita, mas gosto de estar sozinho, sozinho com os meus pensamentos.

Tenho uma visão cínica do mundo; um mundo que gosta da dor – explora-a para o entretenimento de outros. Não? Liguem a TV, é ver as notícias. Enquadramento quase cinematográfico, musiquinha de lacrimejar, jornalistas a prosarem banalidades, achando-se Florbelas. Quanto mais gente morta, melhor; pessoas a chorarem – drama, entretenimento! Não é nada connosco. É lá longe. E é na TV, como um filme. Eu processo, sinto. Sou humano, mas odeio melodrama – talvez seja o melodrama que me faça cínico…

Fiona impressiona-me porque (mais ou menos – menos que mais!) a entendo. Nunca fui violado. Não sei a dor; tal monstruosidade que marca para sempre: o nojo de alguém se impor sexualmente sobre outro. Mas sei que há dores que nunca desaparecem. Uma relação, que julgávamos venturosa, eclipsa-se de um dia para o outro. Amigos que morrem. Familiares que queríamos ao nosso lado para sempre – morrermos juntos, no mesmo dia, à mesma hora, no mesmo minuto; só para ninguém lidar com a perda. Mas o dia-a-dia não é assim. As pessoas, mercadoria barata do Universo, vão e vêem – para lado nenhum.

A dor marca a arte. Faz o artista. Os génios têm uma visão singular do mundo – amiúde cínica. Vêem o que os outros não vêem. Especiais? Verdadeiros. Quem está em negação são os outros, que assobiam para o lado, imbuídos em fingido positivismo. Há coisas que vão correr mal. Acreditar-se que, pensando bonito, o mal se espanta? Merda vai esborraçar-se no vosso luminoso sorriso!

Cada vez mais digo o que quero; em casa ou no trabalho. Sem medo. Ofender as florzinhas de estufa; os politicamente correctos, os higienizadores que ninguém encomendou? Cada vez mais há gente que não gosta de mim. Sou demasiado peremptório? Já me chamaram pessimista. Respondo: realista. Até o niilismo tem um lado bom – partir do fim da esperança para chegar a melhor lado.

Fetch the Bolt Cutters liga perfeitamente com a minha personalidade. Amo cada instante de composição. Amo os silêncios. Amo a ocasional cacofonia. Amo as melodias ponderadas. Amo a garra. Amo as fragilidades. Amo os murros na mesa. Amo os desabafos. Amo o amor, a verdade por trás de cada letra – Fiona dizer o que pensa, o que sente; a incrível dedicação à sua maneira de estar. É ela e a sua verdade. Não egoísta. Ela ser ela. Genuinidade.

É uma reclusa que sai de casa de vez em quando para passear o cão, ou cadela – e tanto faz o número de caninos que já abraçou. É uma mulher, mulher!, longe da miudinha irreverente que foi; hoje consciente das vicissitudes, das rasteiras do Universo. Kick me under the table all you want, I won’t shut up, I won’t shut up. Insubjugável! I would beg to disagree, But begging disagrees with me. Subtileza, dura, poesia. Realismo.

A franqueza é, francamente, exacerbante – mas no bom aspecto. Crueza – felizmente. Mexeu comigo – simplesmente. Fiona é simples – nunca simplista. Tem a suas singularidades – mas nunca freak, desligada. Fetch the Bolt Cutters tem tudo o que gosto. Eu que gosto de estar sozinho, tal não significando estar desligado. Sou como sou. E sei que há mais como eu – mas que se fingem sociáveis, porque se não o forem, acham que morrerão de solidão. Há companhias que não interessam a ninguém, amigos!

Há coisas bonitas na vida, efémeras. A desgraça é constante. Não façam de conta que não. Liguem a TV, é ver as notícias. Irrealismo, ilusão, boaventura, marcam a ficção floreada. De pés no chão, o mundo é cruel, devorador. Sobrevivemos, adaptamo-nos. É, não digam que não. Eu e a Fiona. Almas gémeas não somos. Gostamos de estar à nossa maneira a ver o mundo. Atentar minudências que a carneirada ignora. Não sou melhor que ninguém. Nem ela. Mas também não me impressiono com qualquer merda, ímpetos imbecis; ilusões. Nem ela!
Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
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