DISCOS
Jorge Moniz
Deambula√ß√Ķes
· 14 Jan 2010 · 01:45 ·
Jorge Moniz
Deambula√ß√Ķes
2010
Ed. de autor
Jorge Moniz
Deambula√ß√Ķes
2010
Ed. de autor
Em boas companhias, o baterista Jorge Moniz procura o seu "swing" ao sol.
Jorge Moniz ser√° ainda uma figura pouco conhecida no jazz portugu√™s, mas vem desempenhando um importante papel na fun√ß√£o de pedagogo ‚Äď como professor e director pedag√≥gico da Escola de Jazz do Barreiro, da qual √© um dos fundadores. Moniz vem tamb√©m mantendo em paralelo uma interessante carreira de baterista, mas at√© agora este seu lado estava um pouco escondido, fruto do pouco investimento na sua pr√≥pria m√ļsica. At√© agora, que chegou finalmente a hora de Moniz mostrar os seus dotes musicais, chegou a hora de deixar o seu lugar √† sombra, de procurar o seu lugar ao sol. Com este disco de estreia, Deambula√ß√Ķes, Moniz mostra um irrepreens√≠vel bom gosto: no desenho dos temas, nos arranjos, na precis√£o das interven√ß√Ķes, na escolha dos parceiros musicais.

Neste seu cart√£o de apresenta√ß√£o Moniz faz-se acompanhar por um alguns dos melhores m√ļsicos da actual cena do jazz portugu√™s. O piano fica por conta do pianista J√ļlio Resende, que com o discos Da Alma e Assim Falava Jazzatustra passou de promessa a confirma√ß√£o definitiva. A guitarra fica com o veterano M√°rio Delgado (j√° gravava qualquer coisa nova, que o excelente ‚ÄúFilactera‚ÄĚ deixou saudades). E o contrabaixo fica com Jo√£o Cust√≥dio, que j√° √© uma certeza do jazz em Portugal. O disco conta ainda com dois convidados mais que especiais: Hugo Alves (trompete e fliscorne) e Carlos Barretto (contrabaixo) trazem a sua magia extra.

O disco abre com um pastor a chamar o gado, ou melhor, os ovinos e caprinos. √Č uma recolha de Michel Giacometti, a partir da qual Moniz agarrou a base e sabiamente transformou, fazendo de uma tradi√ß√£o oral popular um sofisticado tema jazz√≠stico. Tirando este trabalho de re-composi√ß√£o e um arranjo para o tema ‚ÄúLa Fuente y la Campana‚ÄĚ, do compositor catal√£o Federico Mompou, os restantes temas s√£o todos originais de Moniz. Al√©m de instrumentista exemplar - met√≥dico, preciso, s√≥lido, seguro - Moniz mostra-se tamb√©m um compositor de bom n√≠vel.

Individualmente, √© imposs√≠vel n√£o destacar neste disco a presen√ßa da guitarra de Delgado que, apesar de s√≥bria, √© sempre reconhec√≠vel nos seus deliciosos efeitos. Hugo Alves tamb√©m brilha a grande altura, quer no segundo tema (belo trompete em ‚ÄúAr√°bico‚ÄĚ), quer na √ļltima faixa, desta vez com o fliscorne, com o seu som cheio e redondo a brilhar e a fazer soar bem um tema que tem como t√≠tulo ‚ÄúAlburrica‚ÄĚ. O piano de Resende opta aqui por uma postura discreta, eficaz e sem exibicionismos, e Cust√≥dio agarra o lugar com for√ßa. O veterano Moniz tem aqui o exemplo de que nunca √© tarde para arrancar para uma carreira que, a partir de agora, s√≥ pode trazer coisas boas. O jazz portugu√™s acaba de ganhar um bom baterista e compositor.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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