Super Bock Super Rock 2016
Lisboa
14-16 Jul 2016
Uma onda de calor toma conta do país inteiro, meros dias após uma onda de amor verde e vermelho ter tomado conta do mundo via Paris. O Super Bock Super Rock Ergue-se uma vez mais no Parque das Nações, finda que está a aposta no Meco, na poeira, nas filas de trânsito e naquilo a que os festivaleiros gostam de chamar "contacto com a natureza". Mas sabem que mais? Mil vezes o conforto do betão e de uma cama fofa em casa do que o arranhar das costas numa tenda mal erguida. O que faz um festival é a música... e, na sua edição de 2016, as propostas apresentadas pelo SBSR não foram um passo em falso.

Dia Um

Cabe a Surma as honras de abrir o festival, a menina que tem andado a crescer e a angariar loas de tudo quando é sítio - dizem-nos, em conversa informal, que lá fora se diz que Débora Umbelino é aquilo que Renato Sanches é na Selecção Nacional. Há quem lhe erga cartazes ressalvando a sua beleza, enquanto os sons delicados de uma harpa ecoam o mais que podem pelo palco EDP, antes de entrar em cena uma electrónica mutante e anti-pop aliada a vocais Björkianos. Estamos a ver Surma no Super Bock Super Rock, mas poderíamos perfeitamente estar a vê-la no Out.Fest. "Maasai", o único single presente no Bandcamp, fez mexer algumas ancas e corações; mas, no geral, esteve tudo perfeito. Do outro lado, Alek Rein dava um concerto eléctrico, de tons psicadélicos, sob um bafo fervente que obrigou os presentes a procurar o lugar mais perto possível da sombra, havendo ainda uns quantos resistentes sentadinhos nos degraus da MEO Arena... (Paulo André Cecílio)

O palco EDP ficou instalado debaixo da famosa pala do Pavilhão de Portugal, o que permitiu que quem tenha sacado convites e acreditações tenha podido dizer "vim ver concertos à pala" (desculpem, era difícil de resistir). Foi debaixo dessa pala que vimos os Villagers, a banda de Conor O'Brien que encheu aquele palco de folk sentimental, plena de emoções. A configuração instrumental da banda é atípica mas eficiente: como base há uma guitarra acústica, harpa, teclados, contrabaixo e bateria. Combinaram aquela dose certa de doçura sentimental com eficácia pop e foram conquistando o público, funcionando como warm-up para a descarga emocional que haveria de chegar pela noite adentro.

Após encher o bucho, lá regressámos ao palco EDP, agora para assistir a uma das actuações mais aguardadas do festival. Kurt Vile levou ao festival do Parque das Nações o seu rock de travo americano bem desenhado (é exagerado encontrar paternidade directa em Neil Young?). A banda mostrou-se enérgica, a setlist equilibrada. E não faltou a viciante "Pretty Pimpin", cantada por quase toda a gente. A fidelidade do público, essa, não se confirmou: quando se aproximou a hora de início da actuação dos The National assistiu-se a uma debandada generalizada.

Já no palco Super Bock, AKA Meo Arena, ex-Pavilhão Atlântico, chegou a vez dos The National. Anunciando a entrada da banda em palco, ouviu-se The Smiths: "Please, Please, Please Let Me Get What I Want". E eles deram mesmo aquilo que nós queríamos, apesar de terem abusado dos temas mais recentes. O frontman Matt Berninger tem agora cabelo comprido, mas continua a fazer aquilo que sempre fez: é o pastor evangelizador de canções de rock adulto emoções à flor da pele. É verdade que eles trabalham no assunto há mais tempo, mas a nossa relação tem cerca de dez anos, desde Alligator, e apesar de algum afastamento nos dois últimos dois álbuns, não esquecemos a avalanche emocional que foi sobretudo aquela maravilha chamada "Boxer".

Houve "Fake Empire" e, sobretudo, a "Slow Show", a providenciar o arrepio: you know I dreamed about you for 29 years, before I saw you. Mas também as mais recentes – como "I Should Live In Salt" (logo ao início) e "Pink Rabbits" – mostram que eles continuam a saber fazer grandiosos hinos a partir do pequeno sentimento pessoal. O público, globalmente atento, respeitador e conhecedor, ia respondendo com entusiasmo. Com "Mr. November" chegou o pico emotivo, explosão total. A banda tocou depois mais dois temas, despedindo-se de forma morna.

Apesar da sobreposição dos horários (um dos grandes flagelos do mundo moderno), ainda deu para espreitar a parte final da actuação de Samuel Úria no palco Antena 3. Assistimos aos dez minutos finais e tivemos pena de não termos visto mais daquela boa energia rock. Já não se conseguiu ouvir material do recente (e óptimo) Carga de Ombro, mas deu tempo para se escutar um clássico Uriano, "Tigre Dentes de Sabre", antes do aplauso final. (Nuno Catarino)

Após a fúria emocional dos National ainda houve tempo para Disclosure, tendo a dupla britânica composto a MEO Arena q.b. para mais uma sessão de música house destinada àquelas pessoas que raramente ouvem música house (a não ser que a rádio do carro sintonize a Orbital e mesmo assim...). Com "White Noise" começa a fazer-se a festa, até que à segunda canção apenas o som vai abaixo (Korn, o que é que vocês fizeram?) e regressa pouco tempo depois, após os coros de um público que acusou o Grande Éder de os ter fodido. Até final houve espaço para trazer ao palco Kwabs e Brendan Reilly e para aquele malhão intitulado "When The Fire Starts To Burn" mas, infelizmente, não havendo novidades em relação ao ano passado - quando assinaram um espectáculo fenomenal no NOS Alive - muito não houve a retirar daqui. (PAC)
· 20 Jul 2016 · 23:38 ·

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