Festival Sudoeste 2005
Zambujeira do Mar
04-07 Ago 2005

Reportagem Eugénia Azevedo, Rodrigo Nogueira e Tiago Gonçalves
Fotografias Luís Bento

Todos os anos é a mesma coisa, mas neste foi diferente. Perto da Zambujeira do Mar, na Herdade da Casa Branca, milhares de nómadas, inconformados, loucos, bêbedos, excêntricos e uma ou outra pessoa normal dançaram, cantaram, beberam e fumaram. O Sudoeste não é bem um festival, é mais um país: República Independente do Sudoeste, como disse um dia Álvaro Costa. Porque, mal se entra no recinto, o ambiente altera por completo: tudo é liberto e permitido, mas nada descamba em confusão ou problemas. Coisa difícil de não acontecer, no ano em que mais pessoas pisaram o chão do recinto. Pouco importa as vestes, a sujidade na roupa, o facto de se estar deitado e mocado mesmo em frente ao palco, com centenas a saltar ao lado. Fenómeno curioso e a estudar: só se apercebe da sujidade do carro quando se chega a casa. Mas também houve a música (complemento ou substância?). O óvni que foi Domingos António, o rock eléctrico dos International Noise Conspiracy, a pop perfeita do Josh Rouse e muitos, muitos outros. A dada altura, a meio do recinto, olha-se em volta: ninguém está indiferente, todos dançam, riem e cantam. É a universalidade da “Maria Albertina” que os Humanos estão a tocar no palco principal. Isto é que é tabaco. T.G.

Palco Planeta Sudoeste
Gato Fedorento · Ladytron
Palco TMN
Junior · Domingos António · Expensive Soul · Orquestra Imperial · Sean Paul


O primeiro dia do Festival Sudoeste TMN 2005 tinha como nomes fortes Emir Kusturica & the No Smoking Band, Fischerspooner, Ladytron e Sean Paul. Os dois primeiros nomes cancelaram as suas actuações. Isto em termos de música, obviamente, porque no palco Planeta Sudoeste fez-se algo que nunca tinha sido feito em festivais em Portugal: pôs-se um espectáculo de comédia, com o Gato Fedorento. Quer nos tenhamos fartado das piadas repetidas ad infinitum por aqui e por ali, ou achemos que aquilo já não são piadas, são como canções para todos recitar, já não há estímulo nenhum para a audiência senão aquilo que já é totalmente conhecido ou não, é inegável que é um marco. R.N.

Palco TMN

Junior
Vencer um passatempo do patrocinador principal do festival (TMN Garage Sessions) possibilita isto: abrir quatro dias de muita música e algum barulho enjoativo nos palcos da Herdade da Casa Branca. O recinto verde estava longe de ter muitos pés ou corpos a alterarem-lhe a cor - a crer pelos agradecimentos feitos, meio atabalhoadamente, quando a luz faltou, à frente estavam essencialmente a família e os amigos mais chegados -, mas foi presenteado com um animado, nem sempre feliz, hip-hop para várias vozes e T-shirts brancas. As letras ganhavam em ritmo e métrica o que perdiam em substância de conteúdo. Algum flow, mas pouco interesse. T.G.

Domingos António
É preciso levar as mãos à cabeça, revirar e mexer o cabelo, desorientar e tornar os neurónios um tanto lunáticos para justificar a entrada de um pianista e do seu piano na vastidão que é o palco principal do evento. Nem sequer se discute a qualidade técnica do artista que percorreu meio mundo em busca de uma carreira, a destreza manual era evidente naquelas assíncronas partituras. E como tudo o que pode correr mal, corre (assim postulam as leis de Murphy), o som que chegou ao público tinha qualidade deficiente: estava muito abafado e um pouco distorcido. Aquele concerto de piano precisava desesperadamente de um espaço próprio com som à altura. Domingos António saiu do palco num rompante, com ar de quem sabe não ser aquele o espaço apropriado para as músicas que ali levou. T.G.

Expensive Soul

Parecem ser os sucessores dos Da Weasel (e até Virgul cantou), pelo menos a crer pela quantidade de público que ali estava. É banda teenager com ritmo, hip-hop e soul suficientes para que quem nem sequer os conheça possa balançar um pouco. Acompanhados pela Jaguar Band, Demo e New Max aqueceram quem antes tinha ficado indiferente perante Domingos António. “Eu Não Sei” foi o primeiro coro geral do festival e é talvez aí que está o mérito da actuação. Revelam já algum entrosamento, mas não é isso que faz boas canções. Passível de descartar. T.G.

Orquestra Imperial
A Orquestra Imperial responde, por vezes, à questão-pesadelo "e se a Banda Eva fosse uma orquestra?". Bons músicos, nem sempre ao serviço do bom gosto. Fischerspooner foi cancelado e Patrice gostou de agradar às jovens com o seu reggae-que-não-é-reggae-que-passa-pelo-funk-e-pela-pop. R.N.

Sean Paul
Entre rappers entroncados, bailarinas exóticas e fitas jamaicanas, o r&b mesclado com hip-hop num todo que a convenção apelida ragga foi pretexto para alguma animação no recinto, mas mais por vontade festivaleira de festa do que pela qualidade musical que emanava do palco principal, não descontando o esforço da banda em puxar pelas pessoas. Sean Paul e os seus acompanhantes fizeram por repetir o seu nome até à exaustação, numa manifestação que se afigurava mais egocêntrica do que espectacular. O sangue português, que disse ter, animou alguns, e os êxitos de Dutty Rock serviram para o resto. Tratou-se contudo de um concerto abatido, tímido e pouco entusiasmante. A dada altura a vontade já era deitarmo-nos algures no recinto e olharmos para o céu. Dizia alguém: “Aquela ali é a Ursa Maior ou a Cassiopeia?”. T.G.

Sean Paul

Palco Planeta Sudoeste

Gato Fedorento
Tal como os seus heróis e antecessores Monty Python, os tipos do Gato Fedorento estão reduzidos a aplausos pela repetição de piadas e sketches sobejamente conhecidos, sem qualquer espaço para improviso e criatividade. Ainda assim, aguentam-se à bronca. O palco Planeta Sudoeste é um palco onde ver concertos é extremamente difícil. R.N.

Gato Fedorento

Ladytron
Estão seis pessoas em palco, quatro sintetizadores, um baixo, uma bateria e duas vozes femininas que não são nada de especial. Os sintetizadores têm nomes de mulheres escritos, e deles sai um electropop que não é só inofensivo com “Playgirl” (ou “Playguy”, que era mais o que parecia na altura) e “Seventeen”, os únicos dois êxitos algo sacarinos do conjunto. Há momentos barulhentos, em que o ritmo apressa, tudo em divertimento sem malícia e sem muitas consequências.
Os Ladytron trazem quatro pessoas nos sintetizadores, um baixista e um baterista. Electropop que nem sempre faz sentido, devaneios instrumentais e muita dança à mistura, em menos de uma hora de concerto, ou seja, evitando muita monotonia. Duas vozes femininas, quase sempre desafinadas, mas onde isso não é importante. As pessoas dançam, aplaudem os momentos mais barulhentos em que o ritmo vai acelerando e cantam alto os únicos dois êxitos do grupo, "Playgirl" (aqui "playguy" ou algo parecido) e "Seventeen". Divertimento sem malícia e sem consequências. Os sintetizadores tinham nomes de mulheres lá escritos. R.N.

· 04 Ago 2005 · 08:00 ·

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