Festival Sudoeste 2005
Zambujeira do Mar
04-07 Ago 2005

Palco Planeta Sudoeste
Boitezuleika · Devendra Banhart · Maxïmo Park · DFA Records Showcase · LCD Soundsystem · Black Dice · The Juan Maclean · Hot Chip · Delia & Gavin · DJ Sets
Palco TMN
Oasis · Kasabian


Palco TMN

Oasis
Decorridos cinco anos após a calamitosa presença da banda neste mesmo festival (com a formação a abandonar o palco devido ao arremesso insistente de garrafas por parte do público), os Oasis apresentaram-se na edição deste ano como cabeças de cartaz e com novo álbum na bagagem. Já não são propriamente amados nem odiados, mas ainda despertam a nostalgia de quantos associam às composições dos irmãos Gallagher os melhores anos das suas vidas. Talvez por isso, os momentos altos da sua prestação tenham correspondido às incursões pelo já longínquo álbum de 1995 (What's the Story) Morning Glory, do qual revisitaram o tema-título e os singles "Champagne Supernova", "Don't Look Back in Anger" mais a previsível "Wonderwall". Do novo álbum Don't Believe the Truth, "Lyla" surge logo em segundo lugar no alinhamento, não conseguindo ainda por esta altura cativar em grande escala a multidão presente no recinto. Contudo, a passagem pela Zambujeira do Mar neste ano traduziu-se numa prestação competente. Mas a verdade é que, longe da cobertura mediática de outrora, os Oasis foram perdendo o rótulo de banda-espectáculo. Não admira que eles não queiram que nós acreditemos na verdade... E.A.

Kasabian
Após a prestação relativamente discreta dos seus conterrâneos com quem têm partilhado os palcos nos últimos tempos (como banda de suporte da digressão que promove Don't Believe the Truth), coube à formação de Leicester o encerramento da segunda noite do festival. E poucos se terão sentido defraudados nas suas expectativas. Descargas de electrónica e indie-rock a pautarem a actuação mais convincente do palco principal naquela noite e a ilustrarem porque são considerados uma das mais interessantes bandas do panorama britânico actual. O mote para a presença neste festival é dado pelo lançamento do primeiro álbum homónimo que reúne composições cuja sonoridade remete para bandas como Primal Scream, Happy Mondays ou Stone Roses. No palco TMN não deixaram os seus créditos por mãos alheias e cumpriram, não obstante o repertório limitado. "Club Foot" presenteia, na recta final, um público satisfeito com a formação de Tom Meighan, mas ainda aturdido pela humilde prestação dos seus antecessores. E.A.

Kasabian

Palco Planeta Sudoeste

Boitezuleika
Foi muita a gente que se concentrou na tarde de sexta-feira no palco Planeta Sudoeste para a actuação dos Boitezuleika, a que não será alheia a difusão de que foram alvo por parte da Antena 3 decorrente do primeiro lugar no concurso Quinta dos Portugueses. “Cão Muito Mau” é o novo hino para quase todos os que ali estavam, ou pelo menos assim pareceu. O resto é uma galhofa pegada, rock e neo-jazz ora frenéticos, ora contidos, onde Francisco Almeida cria e recria letras que parecem assentar demasiado bem naquele conjunto de cabaré fumarento e malparecido. Espantou pela qualidade o percursionista-xilofonista, o saxofonista e o sorriso simpático da corista, numa banda que sabe o que é que está a tocar. “Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto”, de Vitorino e com letra de António Lobo Antunes foi outro dos momentos altos da tarde, o resto foi mais morno que arrebatador, mas mesmo assim de bater o pé. Os primeiros portugueses que vingaram no festival. T.G.

Devendra Banhart
Está um tipo de cabelo comprido, encaracolado, com cara de quem toma poucos banhos, em palco. Acompanhando-o estão os seus amigos, também eles hippies dos tempos modernos, gente cuja palavra favorita deve ser “Woodstock”. A contrastar está lá atrás um puto indie na bateria. O hippie principal é Devendra Banhart, a superestrela do freak folk e alguém que um dia vimos sair do Parque Eduardo VII em direcção ao Marquês de Pombal. Episódio curioso, não por causa do Parque Eduardo VII (era por altura da Feira do Livro), mas sim por haver um conjunto de hippies (eram os Vetiver) com penas de índio na cabeça a meio de uma tarde de calor abrasador em Lisboa. Tem vinte e poucos anos, lançou no ano passado dois discos, Rejoicing in the Hands e Niño Rojo, para deleite do público e da crítica. Os seus detractores são rápidos a acusar: Devendra não sabe cantar e não sabe tocar guitarra. Mas o twist aparece aqui: Devendra sabe cantar e sabe tocar guitarra. Esses dois discos, duas pérolas da escrita de canções, mostram um Devendra e uma guitarra, com alguns músicos a acompanhar. Ao vivo, bem como em Cripple Crow, disco a sair em Setembro que já pode ser ouvido gratuitamente (e legalmente) na Internet, Devendra soa como o líder duma banda e não um tipo com músicos convidados.
O tipo tem um brinco de pirata, está de tronco nu ou com vestimentos friques. Blues, folk, Beatles e outra pop dos anos 60, bem como rock'n'roll dos anos 90 (se não fosse pela vestimenta, o seu guitarrista seria dos Led Zeppelin), está tudo por lá. Devendra tem um dom. Escreve excelentes canções e interpreta-as como ninguém, e consegue domar os mais ferozes improvisadores barulhentos. Assim foi com membros dos Jackie-O Motherfucker, quando esteve em Santa Maria da Feira (dizem-nos que Cripple Crow, o novo disco a editar este ano, comprova que esta terra o marcou), e assim foi no Sudoeste, com Pedro Gomes, guitarrista do trio de free-rock lisboeta CAVEIRA (e editor duma webzine concorrente). O problema é que, por muito bem que toque, não se ouvia a sua guitarra. Ele e o baterista jovem eram o contraste urbano para os hippies da floresta que era toda a banda, que incluía Andy Cabic dos Vetiver.
Devendra apresentou a banda como Oasis. Pode ser ironia, mas muitas das novas canções de Devendra apontam para uma direcção mais beatlesca. Ao contrário dos Oasis, contudo, Devendra não se contenta com uns Beatles estagnados, enquanto tem duas ou três canções verdadeiramente boas, sendo o resto apenas aceitável, não, tem todas as canções possíveis. Devendra quis mesmo, depois do concerto, conhecer os Oasis, e para o efeito levou a banda toda até ao camarim dos ingleses, acabando por serem expulsos por dois britânicos enormes. Foi pena não se terem encontrado para discutir como "Paul McCartney and Ringo Starr are the only Beatles in the world".
O público bate palmas ao ritmo do maestro louco, do grande hippie, e a banda vai tocando. Para alguém que começou a escrever canções para ele próprio, não querendo que ninguém as ouvisse, Devendra possui muito carisma de palco. Devendra agradece com "obrigados", chama ao palco um qualquer songwriter, levando ao extremo a interacção com o público. Depois de uma canção mais ou menos, congratula o tipo do público que foi lá cantar uma composição sua, sem medos, e basicamente é assim. Há barulhos de animais no fim, um cover de Lauryn Hill com Charles Manson à mistura, cheio de divertimento, há uma festa hippie que não teria ficado mal em Woodstock ou assim. Mas, porra, lembramo-nos, é 2005 e muito de bom virá daquelas mãos. R.N.

Devendra Banhart

Maxïmo Park
Ao ver Paul Smith em palco a liderar uns Maxïmo Park no limiar da adolescência ou do período pós-estudantil, temos a impressão de estar perante um Jarvis Cocker dos tempos modernos. A linguagem corporal tornou-se visivelmente um campo de batalha para o quinteto de Newcastle, mas a atenção permaneceu concentrada no álbum de estreia, A Certain Trigger. A formação a cinco elementos (guitarra, baixo, bateria, teclados e voz) apresentou-se no Palco Planeta Sudoeste com toda a pompa e circunstância que os coloca na senda do rock, mas denuncia a efemeridade do género, fazendo cair a sua actuação num esquecimento precoce (não fosse Devendra Banhart ter captado todas as atenções). E.A.

DFA Records Showcase
Não, não é bem aquele revivalismo pós-punk que tem vindo a aparecer um pouco por todos os tops, e até apareceu no festival pelas mãos dos Maxïmo Park. Este é um pós-punk novo, que, apesar das referências antigas (por ali idolatra-se The Fall, Bowie, Eno e a no wave, para mandar agora uns nomes para o ar), faz algo de novo, algo de próprio, algo cheio de identidade. A DFA (Death from Above) foi fundada há uns anos por James Murphy e Tim Goldsworthy, ambos produtores que um dia perceberam que aquela idiotice do punk não gostar do disco não passava disso, duma idiotice. Agora que James Murphy e os seus LCD Soundsystem foram catapultados para o superestrelato, cá está um showcase de uma das mais importantes editoras nova-iorquinas. O típico som DFA envolve batidas irrestíveis, baixos pulsantes e quase punk, falsetes e até cowbells, mas é muito, muito mais do que isso. É o som duma cidade, Nova Iorque, e o som dum movimento que não quer ser um movimento, que quer apenas ser. R.N.

LCD Soundsystem
Os LCD Soundsystem arrancaram o showcase, após horas de soundcheck, com James Murphy, eterno perfeccionista, a tentar tirar dos instrumentos o melhor som possível. Nem sempre isso foi possível, com problemas no baixo e na distorção da guitarra, que estava sofrível. Retirando isso, em nada diferiu dos concertos dados na Casa da Música ou no Lux em Junho.
Muitas batidas, com toda a gente a dançar, um "Yeah" que é inegavelmente uma das melhores experiências musicais que alguém pode ter ao vivo, e é basicamente isso. Há algo de divertido (ou preocupante) em ver pessoas a dançar ignorando que se está numa sessão de "namedropping", como em "Losing My Edge", ou sem compreender a crítica à estrutura de canção pop (verso-verso-ponte-refrão-verso-ponte-refrão-solo-refrão-refrão). As batidas são universais, nem só para os gordos que cantam de T-shirt.
"Daft Punk is Playing at My House" teve uma versão sofrível, um pouco diferente da já diferente da original que ouvíramos em Junho, donde só se safava o inescapável solo de cowbell. Desta feita nem isso, James Murphy tentou alcançar os dois cowbell específicos, não conseguiu, teve de recorrer a dois outros que no início nem estavam amplificados. Um homem do público tentou subir ao palco, sendo expulso pelo segurança e por membros da banda.
R.N.

LCD Soundystem

Black Dice
Os Black Dice nunca são uma só coisa. Mudam sempre, mas mantêm sempre a busca de beleza num mundo fodido. Uma guitarra fortemente processada, máquinas como pads, batidas fora do tempo, repetição, sons belos, sons agrestes, comboios, dub/reggae, tudo, tudo. Metade das pessoas que lá estavam para os LCD Soundsystem foram-se embora e dos resistentes, só dois ou três bateram palmas. James Murphy estava visivelmente a gostar do concerto, gritando e aplaudindo, mas quase mais ninguém estava a gostar. É preciso tomates para aquilo. A música, essa, começou morna e depois aqueceu. Com altos e baixos, os Black Dice são uma experiência física, mental e audivelmente inesquecível e imperdível. No seu melhor, têm duas vozes, uma a gritar "whoa-whoa" e a dançar como se de uma discoteca se tratasse, e outra a assobiar. E depois lixam o som todo. É como se estivessem a violar os seus instrumentos, mas dentro da violação procurassem uma beleza peculiar. R.N.

The Juan Maclean
Os The Juan Maclean trazem três membros. Um deles toca bateria, os outros dois uma variedade de máquinas e cantam com vozes processadas por vocoder ou outros efeitos. Um deles toca ainda, para além de teclados e programações, alguma espécie de theremin, donde saem sons belíssimos. Estilisticamente, não saem do pum-pum-pum inconsequente que serve para dançar e pouco mais, mas o que serve para dançar é extremamente eficiente e divertido. R.N.

Hot Chip
Os Hot Chip dizem que tentam pertencer mas não pertencem. Com efeito, nunca foram vistos a confraternizar no lado do palco com a grande família da DFA que assistia religiosamente a todos os concertos dos seus membros. Rapazes simpáticos, peculiares, britânicos e com óculos de sol, quase todos os 5 ou 6 membros tocam sintetizador, há falsetes, há falsa soul, falso r'n'b, há tudo. R.N.

Delia & Gaviun
Delia & Gavin são os artistas mais pesados, em termos de dança, do catálogo da editora nova-iorquina. Muitos sintetizadores, uma massa amorfa de som, agrada a pastilhados e pouco mais. R.N.

DJ Sets
Entre os concertos, houve DJ sets de Tim Sweeney (que remisturou o terceiro CD da Compilation #2 da DFA) ou do próprio James Murphy, cuja selecção musical podia ir de "Lose Control" de Missy Elliott a "Planet Rock" de Afrika Bambaataa, para descambar em "Around the World" dos Daft Punk. Faz tudo isso enquanto dança o robô. Os gordos também sabem dançar, e este é só um gordo numa T-shirt a fazer toda a passagem de música. Bem, toda não, mas fica melhor assim para citar "Movement". Então não foi este o tipo que jurou ter sido o primeiro a tocar Daft Punk aos putos do rock? Diz que lhe disseram que era louco na altura, mas nós hoje em dia não lhe dizemos isso. R.N.

Depois da música, um estrangeiro que andava por aí a assaltar pessoas foi brutalmente espancado pelos seguranças, estando estendido no chão do parque de campismo. R.N.

· 04 Ago 2005 · 08:00 ·

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