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Festival Sudoeste 2005
Zambujeira do Mar
04-07/08/2005


Reportagem Eugénia Azevedo, Rodrigo Nogueira e Tiago Gonçalves
Fotografias Luís Bento

Todos os anos é a mesma coisa, mas neste foi diferente. Perto da Zambujeira do Mar, na Herdade da Casa Branca, milhares de nómadas, inconformados, loucos, bêbedos, excêntricos e uma ou outra pessoa normal dançaram, cantaram, beberam e fumaram. O Sudoeste não é bem um festival, é mais um país: República Independente do Sudoeste, como disse um dia Álvaro Costa. Porque, mal se entra no recinto, o ambiente altera por completo: tudo é liberto e permitido, mas nada descamba em confusão ou problemas. Coisa difícil de não acontecer, no ano em que mais pessoas pisaram o chão do recinto. Pouco importa as vestes, a sujidade na roupa, o facto de se estar deitado e mocado mesmo em frente ao palco, com centenas a saltar ao lado. Fenómeno curioso e a estudar: só se apercebe da sujidade do carro quando se chega a casa. Mas também houve a música (complemento ou substância?). O óvni que foi Domingos António, o rock eléctrico dos International Noise Conspiracy, a pop perfeita do Josh Rouse e muitos, muitos outros. A dada altura, a meio do recinto, olha-se em volta: ninguém está indiferente, todos dançam, riem e cantam. É a universalidade da “Maria Albertina” que os Humanos estão a tocar no palco principal. Isto é que é tabaco. T.G.

Palco Planeta Sudoeste
Gato Fedorento · Ladytron
Palco TMN
Junior · Domingos António · Expensive Soul · Orquestra Imperial · Sean Paul


O primeiro dia do Festival Sudoeste TMN 2005 tinha como nomes fortes Emir Kusturica & the No Smoking Band, Fischerspooner, Ladytron e Sean Paul. Os dois primeiros nomes cancelaram as suas actuações. Isto em termos de música, obviamente, porque no palco Planeta Sudoeste fez-se algo que nunca tinha sido feito em festivais em Portugal: pôs-se um espectáculo de comédia, com o Gato Fedorento. Quer nos tenhamos fartado das piadas repetidas ad infinitum por aqui e por ali, ou achemos que aquilo já não são piadas, são como canções para todos recitar, já não há estímulo nenhum para a audiência senão aquilo que já é totalmente conhecido ou não, é inegável que é um marco. R.N.

Palco TMN

Junior
Vencer um passatempo do patrocinador principal do festival (TMN Garage Sessions) possibilita isto: abrir quatro dias de muita música e algum barulho enjoativo nos palcos da Herdade da Casa Branca. O recinto verde estava longe de ter muitos pés ou corpos a alterarem-lhe a cor - a crer pelos agradecimentos feitos, meio atabalhoadamente, quando a luz faltou, à frente estavam essencialmente a família e os amigos mais chegados -, mas foi presenteado com um animado, nem sempre feliz, hip-hop para várias vozes e T-shirts brancas. As letras ganhavam em ritmo e métrica o que perdiam em substância de conteúdo. Algum flow, mas pouco interesse. T.G.

Domingos António
É preciso levar as mãos à cabeça, revirar e mexer o cabelo, desorientar e tornar os neurónios um tanto lunáticos para justificar a entrada de um pianista e do seu piano na vastidão que é o palco principal do evento. Nem sequer se discute a qualidade técnica do artista que percorreu meio mundo em busca de uma carreira, a destreza manual era evidente naquelas assíncronas partituras. E como tudo o que pode correr mal, corre (assim postulam as leis de Murphy), o som que chegou ao público tinha qualidade deficiente: estava muito abafado e um pouco distorcido. Aquele concerto de piano precisava desesperadamente de um espaço próprio com som à altura. Domingos António saiu do palco num rompante, com ar de quem sabe não ser aquele o espaço apropriado para as músicas que ali levou. T.G.

Expensive Soul

Parecem ser os sucessores dos Da Weasel (e até Virgul cantou), pelo menos a crer pela quantidade de público que ali estava. É banda teenager com ritmo, hip-hop e soul suficientes para que quem nem sequer os conheça possa balançar um pouco. Acompanhados pela Jaguar Band, Demo e New Max aqueceram quem antes tinha ficado indiferente perante Domingos António. “Eu Não Sei” foi o primeiro coro geral do festival e é talvez aí que está o mérito da actuação. Revelam já algum entrosamento, mas não é isso que faz boas canções. Passível de descartar. T.G.

Orquestra Imperial
A Orquestra Imperial responde, por vezes, à questão-pesadelo "e se a Banda Eva fosse uma orquestra?". Bons músicos, nem sempre ao serviço do bom gosto. Fischerspooner foi cancelado e Patrice gostou de agradar às jovens com o seu reggae-que-não-é-reggae-que-passa-pelo-funk-e-pela-pop. R.N.

Sean Paul
Entre rappers entroncados, bailarinas exóticas e fitas jamaicanas, o r&b mesclado com hip-hop num todo que a convenção apelida ragga foi pretexto para alguma animação no recinto, mas mais por vontade festivaleira de festa do que pela qualidade musical que emanava do palco principal, não descontando o esforço da banda em puxar pelas pessoas. Sean Paul e os seus acompanhantes fizeram por repetir o seu nome até à exaustação, numa manifestação que se afigurava mais egocêntrica do que espectacular. O sangue português, que disse ter, animou alguns, e os êxitos de Dutty Rock serviram para o resto. Tratou-se contudo de um concerto abatido, tímido e pouco entusiasmante. A dada altura a vontade já era deitarmo-nos algures no recinto e olharmos para o céu. Dizia alguém: “Aquela ali é a Ursa Maior ou a Cassiopeia?”. T.G.

Sean Paul

Palco Planeta Sudoeste

Gato Fedorento
Tal como os seus heróis e antecessores Monty Python, os tipos do Gato Fedorento estão reduzidos a aplausos pela repetição de piadas e sketches sobejamente conhecidos, sem qualquer espaço para improviso e criatividade. Ainda assim, aguentam-se à bronca. O palco Planeta Sudoeste é um palco onde ver concertos é extremamente difícil. R.N.

Gato Fedorento

Ladytron
Estão seis pessoas em palco, quatro sintetizadores, um baixo, uma bateria e duas vozes femininas que não são nada de especial. Os sintetizadores têm nomes de mulheres escritos, e deles sai um electropop que não é só inofensivo com “Playgirl” (ou “Playguy”, que era mais o que parecia na altura) e “Seventeen”, os únicos dois êxitos algo sacarinos do conjunto. Há momentos barulhentos, em que o ritmo apressa, tudo em divertimento sem malícia e sem muitas consequências.
Os Ladytron trazem quatro pessoas nos sintetizadores, um baixista e um baterista. Electropop que nem sempre faz sentido, devaneios instrumentais e muita dança à mistura, em menos de uma hora de concerto, ou seja, evitando muita monotonia. Duas vozes femininas, quase sempre desafinadas, mas onde isso não é importante. As pessoas dançam, aplaudem os momentos mais barulhentos em que o ritmo vai acelerando e cantam alto os únicos dois êxitos do grupo, "Playgirl" (aqui "playguy" ou algo parecido) e "Seventeen". Divertimento sem malícia e sem consequências. Os sintetizadores tinham nomes de mulheres lá escritos. R.N.

Palco Planeta Sudoeste
Boitezuleika · Devendra Banhart · Maxïmo Park · DFA Records Showcase · LCD Soundsystem · Black Dice · The Juan Maclean · Hot Chip · Delia & Gavin · DJ Sets
Palco TMN
Oasis · Kasabian


Palco TMN

Oasis
Decorridos cinco anos após a calamitosa presença da banda neste mesmo festival (com a formação a abandonar o palco devido ao arremesso insistente de garrafas por parte do público), os Oasis apresentaram-se na edição deste ano como cabeças de cartaz e com novo álbum na bagagem. Já não são propriamente amados nem odiados, mas ainda despertam a nostalgia de quantos associam às composições dos irmãos Gallagher os melhores anos das suas vidas. Talvez por isso, os momentos altos da sua prestação tenham correspondido às incursões pelo já longínquo álbum de 1995 (What's the Story) Morning Glory, do qual revisitaram o tema-título e os singles "Champagne Supernova", "Don't Look Back in Anger" mais a previsível "Wonderwall". Do novo álbum Don't Believe the Truth, "Lyla" surge logo em segundo lugar no alinhamento, não conseguindo ainda por esta altura cativar em grande escala a multidão presente no recinto. Contudo, a passagem pela Zambujeira do Mar neste ano traduziu-se numa prestação competente. Mas a verdade é que, longe da cobertura mediática de outrora, os Oasis foram perdendo o rótulo de banda-espectáculo. Não admira que eles não queiram que nós acreditemos na verdade... E.A.

Kasabian
Após a prestação relativamente discreta dos seus conterrâneos com quem têm partilhado os palcos nos últimos tempos (como banda de suporte da digressão que promove Don't Believe the Truth), coube à formação de Leicester o encerramento da segunda noite do festival. E poucos se terão sentido defraudados nas suas expectativas. Descargas de electrónica e indie-rock a pautarem a actuação mais convincente do palco principal naquela noite e a ilustrarem porque são considerados uma das mais interessantes bandas do panorama britânico actual. O mote para a presença neste festival é dado pelo lançamento do primeiro álbum homónimo que reúne composições cuja sonoridade remete para bandas como Primal Scream, Happy Mondays ou Stone Roses. No palco TMN não deixaram os seus créditos por mãos alheias e cumpriram, não obstante o repertório limitado. "Club Foot" presenteia, na recta final, um público satisfeito com a formação de Tom Meighan, mas ainda aturdido pela humilde prestação dos seus antecessores. E.A.

Kasabian

Palco Planeta Sudoeste

Boitezuleika
Foi muita a gente que se concentrou na tarde de sexta-feira no palco Planeta Sudoeste para a actuação dos Boitezuleika, a que não será alheia a difusão de que foram alvo por parte da Antena 3 decorrente do primeiro lugar no concurso Quinta dos Portugueses. “Cão Muito Mau” é o novo hino para quase todos os que ali estavam, ou pelo menos assim pareceu. O resto é uma galhofa pegada, rock e neo-jazz ora frenéticos, ora contidos, onde Francisco Almeida cria e recria letras que parecem assentar demasiado bem naquele conjunto de cabaré fumarento e malparecido. Espantou pela qualidade o percursionista-xilofonista, o saxofonista e o sorriso simpático da corista, numa banda que sabe o que é que está a tocar. “Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto”, de Vitorino e com letra de António Lobo Antunes foi outro dos momentos altos da tarde, o resto foi mais morno que arrebatador, mas mesmo assim de bater o pé. Os primeiros portugueses que vingaram no festival. T.G.

Devendra Banhart
Está um tipo de cabelo comprido, encaracolado, com cara de quem toma poucos banhos, em palco. Acompanhando-o estão os seus amigos, também eles hippies dos tempos modernos, gente cuja palavra favorita deve ser “Woodstock”. A contrastar está lá atrás um puto indie na bateria. O hippie principal é Devendra Banhart, a superestrela do freak folk e alguém que um dia vimos sair do Parque Eduardo VII em direcção ao Marquês de Pombal. Episódio curioso, não por causa do Parque Eduardo VII (era por altura da Feira do Livro), mas sim por haver um conjunto de hippies (eram os Vetiver) com penas de índio na cabeça a meio de uma tarde de calor abrasador em Lisboa. Tem vinte e poucos anos, lançou no ano passado dois discos, Rejoicing in the Hands e Niño Rojo, para deleite do público e da crítica. Os seus detractores são rápidos a acusar: Devendra não sabe cantar e não sabe tocar guitarra. Mas o twist aparece aqui: Devendra sabe cantar e sabe tocar guitarra. Esses dois discos, duas pérolas da escrita de canções, mostram um Devendra e uma guitarra, com alguns músicos a acompanhar. Ao vivo, bem como em Cripple Crow, disco a sair em Setembro que já pode ser ouvido gratuitamente (e legalmente) na Internet, Devendra soa como o líder duma banda e não um tipo com músicos convidados.
O tipo tem um brinco de pirata, está de tronco nu ou com vestimentos friques. Blues, folk, Beatles e outra pop dos anos 60, bem como rock'n'roll dos anos 90 (se não fosse pela vestimenta, o seu guitarrista seria dos Led Zeppelin), está tudo por lá. Devendra tem um dom. Escreve excelentes canções e interpreta-as como ninguém, e consegue domar os mais ferozes improvisadores barulhentos. Assim foi com membros dos Jackie-O Motherfucker, quando esteve em Santa Maria da Feira (dizem-nos que Cripple Crow, o novo disco a editar este ano, comprova que esta terra o marcou), e assim foi no Sudoeste, com Pedro Gomes, guitarrista do trio de free-rock lisboeta CAVEIRA (e editor duma webzine concorrente). O problema é que, por muito bem que toque, não se ouvia a sua guitarra. Ele e o baterista jovem eram o contraste urbano para os hippies da floresta que era toda a banda, que incluía Andy Cabic dos Vetiver.
Devendra apresentou a banda como Oasis. Pode ser ironia, mas muitas das novas canções de Devendra apontam para uma direcção mais beatlesca. Ao contrário dos Oasis, contudo, Devendra não se contenta com uns Beatles estagnados, enquanto tem duas ou três canções verdadeiramente boas, sendo o resto apenas aceitável, não, tem todas as canções possíveis. Devendra quis mesmo, depois do concerto, conhecer os Oasis, e para o efeito levou a banda toda até ao camarim dos ingleses, acabando por serem expulsos por dois britânicos enormes. Foi pena não se terem encontrado para discutir como "Paul McCartney and Ringo Starr are the only Beatles in the world".
O público bate palmas ao ritmo do maestro louco, do grande hippie, e a banda vai tocando. Para alguém que começou a escrever canções para ele próprio, não querendo que ninguém as ouvisse, Devendra possui muito carisma de palco. Devendra agradece com "obrigados", chama ao palco um qualquer songwriter, levando ao extremo a interacção com o público. Depois de uma canção mais ou menos, congratula o tipo do público que foi lá cantar uma composição sua, sem medos, e basicamente é assim. Há barulhos de animais no fim, um cover de Lauryn Hill com Charles Manson à mistura, cheio de divertimento, há uma festa hippie que não teria ficado mal em Woodstock ou assim. Mas, porra, lembramo-nos, é 2005 e muito de bom virá daquelas mãos. R.N.

Devendra Banhart

Maxïmo Park
Ao ver Paul Smith em palco a liderar uns Maxïmo Park no limiar da adolescência ou do período pós-estudantil, temos a impressão de estar perante um Jarvis Cocker dos tempos modernos. A linguagem corporal tornou-se visivelmente um campo de batalha para o quinteto de Newcastle, mas a atenção permaneceu concentrada no álbum de estreia, A Certain Trigger. A formação a cinco elementos (guitarra, baixo, bateria, teclados e voz) apresentou-se no Palco Planeta Sudoeste com toda a pompa e circunstância que os coloca na senda do rock, mas denuncia a efemeridade do género, fazendo cair a sua actuação num esquecimento precoce (não fosse Devendra Banhart ter captado todas as atenções). E.A.

DFA Records Showcase
Não, não é bem aquele revivalismo pós-punk que tem vindo a aparecer um pouco por todos os tops, e até apareceu no festival pelas mãos dos Maxïmo Park. Este é um pós-punk novo, que, apesar das referências antigas (por ali idolatra-se The Fall, Bowie, Eno e a no wave, para mandar agora uns nomes para o ar), faz algo de novo, algo de próprio, algo cheio de identidade. A DFA (Death from Above) foi fundada há uns anos por James Murphy e Tim Goldsworthy, ambos produtores que um dia perceberam que aquela idiotice do punk não gostar do disco não passava disso, duma idiotice. Agora que James Murphy e os seus LCD Soundsystem foram catapultados para o superestrelato, cá está um showcase de uma das mais importantes editoras nova-iorquinas. O típico som DFA envolve batidas irrestíveis, baixos pulsantes e quase punk, falsetes e até cowbells, mas é muito, muito mais do que isso. É o som duma cidade, Nova Iorque, e o som dum movimento que não quer ser um movimento, que quer apenas ser. R.N.

LCD Soundsystem
Os LCD Soundsystem arrancaram o showcase, após horas de soundcheck, com James Murphy, eterno perfeccionista, a tentar tirar dos instrumentos o melhor som possível. Nem sempre isso foi possível, com problemas no baixo e na distorção da guitarra, que estava sofrível. Retirando isso, em nada diferiu dos concertos dados na Casa da Música ou no Lux em Junho.
Muitas batidas, com toda a gente a dançar, um "Yeah" que é inegavelmente uma das melhores experiências musicais que alguém pode ter ao vivo, e é basicamente isso. Há algo de divertido (ou preocupante) em ver pessoas a dançar ignorando que se está numa sessão de "namedropping", como em "Losing My Edge", ou sem compreender a crítica à estrutura de canção pop (verso-verso-ponte-refrão-verso-ponte-refrão-solo-refrão-refrão). As batidas são universais, nem só para os gordos que cantam de T-shirt.
"Daft Punk is Playing at My House" teve uma versão sofrível, um pouco diferente da já diferente da original que ouvíramos em Junho, donde só se safava o inescapável solo de cowbell. Desta feita nem isso, James Murphy tentou alcançar os dois cowbell específicos, não conseguiu, teve de recorrer a dois outros que no início nem estavam amplificados. Um homem do público tentou subir ao palco, sendo expulso pelo segurança e por membros da banda.
R.N.

LCD Soundystem

Black Dice
Os Black Dice nunca são uma só coisa. Mudam sempre, mas mantêm sempre a busca de beleza num mundo fodido. Uma guitarra fortemente processada, máquinas como pads, batidas fora do tempo, repetição, sons belos, sons agrestes, comboios, dub/reggae, tudo, tudo. Metade das pessoas que lá estavam para os LCD Soundsystem foram-se embora e dos resistentes, só dois ou três bateram palmas. James Murphy estava visivelmente a gostar do concerto, gritando e aplaudindo, mas quase mais ninguém estava a gostar. É preciso tomates para aquilo. A música, essa, começou morna e depois aqueceu. Com altos e baixos, os Black Dice são uma experiência física, mental e audivelmente inesquecível e imperdível. No seu melhor, têm duas vozes, uma a gritar "whoa-whoa" e a dançar como se de uma discoteca se tratasse, e outra a assobiar. E depois lixam o som todo. É como se estivessem a violar os seus instrumentos, mas dentro da violação procurassem uma beleza peculiar. R.N.

The Juan Maclean
Os The Juan Maclean trazem três membros. Um deles toca bateria, os outros dois uma variedade de máquinas e cantam com vozes processadas por vocoder ou outros efeitos. Um deles toca ainda, para além de teclados e programações, alguma espécie de theremin, donde saem sons belíssimos. Estilisticamente, não saem do pum-pum-pum inconsequente que serve para dançar e pouco mais, mas o que serve para dançar é extremamente eficiente e divertido. R.N.

Hot Chip
Os Hot Chip dizem que tentam pertencer mas não pertencem. Com efeito, nunca foram vistos a confraternizar no lado do palco com a grande família da DFA que assistia religiosamente a todos os concertos dos seus membros. Rapazes simpáticos, peculiares, britânicos e com óculos de sol, quase todos os 5 ou 6 membros tocam sintetizador, há falsetes, há falsa soul, falso r'n'b, há tudo. R.N.

Delia & Gaviun
Delia & Gavin são os artistas mais pesados, em termos de dança, do catálogo da editora nova-iorquina. Muitos sintetizadores, uma massa amorfa de som, agrada a pastilhados e pouco mais. R.N.

DJ Sets
Entre os concertos, houve DJ sets de Tim Sweeney (que remisturou o terceiro CD da Compilation #2 da DFA) ou do próprio James Murphy, cuja selecção musical podia ir de "Lose Control" de Missy Elliott a "Planet Rock" de Afrika Bambaataa, para descambar em "Around the World" dos Daft Punk. Faz tudo isso enquanto dança o robô. Os gordos também sabem dançar, e este é só um gordo numa T-shirt a fazer toda a passagem de música. Bem, toda não, mas fica melhor assim para citar "Movement". Então não foi este o tipo que jurou ter sido o primeiro a tocar Daft Punk aos putos do rock? Diz que lhe disseram que era louco na altura, mas nós hoje em dia não lhe dizemos isso. R.N.

Depois da música, um estrangeiro que andava por aí a assaltar pessoas foi brutalmente espancado pelos seguranças, estando estendido no chão do parque de campismo. R.N.

Palco Planeta Sudoeste
Factor Activo · Sagas feat. DJ Nel'Assassin · Hipnótica · Josh Rouse · Louise Rhodes · Mylo · Peaches
Palco TMN
The Thrills · Humanos · Underworld · Fatboy Slim


É uma e meia da tarde no parque de campismo da Herdade da Casa da Branca. No canal, os festivaleiros
aproveitam para se refrescar e passar o tempo com actividades promovidas pela organização do festival, com apresentadores brasileiros. R.N.

Palco TMN


The Thirlls
Na estreia em palcos nacionais, ficou provado que os Thrills têm um country-rock estupidamente alegre, que faz apetecer balançar o corpo e cantar aqueles refrães embrulhados em melodias orelhudas. É candura e melancolia em toda a força, numa banda irlandesa que parece habitar nalgum sítio com mais sol (daí que milhares e milhares de vezes os tenham situado na Califórnia, não só pela música). Algumas canções foram abençoados pelos deuses da criação musical (“Big Sur”, “Say it Ain’t So”) e isso ficou demonstrado pela reacção do público. Encetaram a mais forte abertura do palco TMN, e até a luz que ainda estava longe de desaparecer não estragou o espectáculo – pelo contrário, os cinco de Dublin moldaram o efeito crepuscular ao que tocaram. Foram 40 min divididos pelos álbuns So Much for the City e Let's Bottle Bohemia, no final ficou a vontade de os ver em palco próprio. T.G.

The Thrills

Humanos
Pó. Poeira. Gente a saltar ao som de "Maria Albertina", pó a levantar. Em palco está um supergrupo, uma das melhores coisas a ter acontecido à música pop portuguesa nos últimos anos. É, aparentemente, o seu último concerto, depois de se terem juntado para gravar os inéditos de António Variações e para três concertos nos coliseus de Lisboa e do Porto. Não há aqui erros de casting, o que há são excelentes músicos, três óptimos cantores, encarnando todos o espírito de Variações à sua maneira.
Uma banda que só dá quatro concertos devia estagnar, não evoluir. Tocar, receber o dinheiro, voltar para casa e ficar a coçar a barriga no sofá a ver a MTV. Mas não, dos coliseus para o Sudoeste, algo mudou. Introduções novas, novos arranjos, não tantos assim, mas ainda...e há cowbell a rodos.
Davide Fonseca é o puto do rock. A sua voz está melhor quando canta em português e quando não tem nada a ver com o que está a cantar. Como aqui ou em Irmão do Meio de Sérgio Godinho. É o que mais salta, o que mais dança, o que mais se abana em palco, com ou sem a guitarra. Manuela Azevedo põe-se no seu melhor jeito "Ó Rosa Arredonda a Saia", vai cantando, saltando, gritando tocando piano e cavaquinho. Camané é o fadista e o cantor cuja voz mais se aproxima da de Variações. É, contudo, mais refinado e mal se mexe em palco.
Ouvimos aquelas vozes e o jogo de guitarras angulares e nervosas, com batidas que nada devem aos Devo, mas sempre com o seu quê de portugalidade, algo como aquilo que Variações sempre disse que a sua música devia ser: "algo entre a Sé Braga e Nova Iorque". E há, sobretudo, aquelas canções. Óptimas canções, orelhudas, óptimos singles, que só não são sucessos maiores porque a rádio em Portugal é uma vergonha brutal.
O concerto arranca com "António", que é um original dos Humanos e um tributo a um dos maiores génios da música pop portuguesa. Durante a próxima hora e tal, ouviremos todos os êxitos do disco, mais covers de Sparks ("Sepáques? Quem são os Sepáques?", foi dito por muita gente dentro da plateia) e de outros temas de António Variações.
No encore, "Amor de Conserva" é precedido por Manuela Azevedo a dizer "Conservem isso que este é o nosso último espectáculo". E, no fim, "Maria Albertina" é repetido e transforma-se em "É p'ra Amanhã", um dos maiores clássicos de Variações. É o final dum concerto onde os artistas se divertem tanto quanto o público. É o final duma banda. E, quanto ao público, este é o mesmo público que ouve a RFM, a Rádio Comercial, a Best Rock FM, as rádios que se recusam a passar os Humanos. R.N.

Humanos

Underworld
Em nenhum espectáculo anterior os pés que saltaram no chão junto ao palco principal da Herdade da Casa Branca tinham feito tanto pó pairar no ar (nem a relva valeu de algo), e o concerto não fez por desiludir. Quase despidos de artifícios maquinais mas com efeitos visuais que o pó propagou, animaram e muito a noite de sábado (a que Fatboy Slim, logo a seguir, quebrou o ritmo). No palco, apenas uma mesa controlada pelas mãos de Karl Hyde (vocalista também) e Rick Smith de onde saíram os beats de house ou techno que animaram a multidão. Desfilaram alguns êxitos que ecoaram nas discotecas durante os anos 90, suficientes para animar quem estava ali para saltar, mas com sabor a passado. A música de dança pode estar já noutra frequência, mas ninguém quis saber disso. Afinal de contas, o Sudoeste é uma pista de discoteca. T.G.

Fatboy Slim
Há na teleologia algo que se relaciona com a música, com a de dança em particular: explica-se, estabelece-se e faz-se em função de uma finalidade. O problema, especialmente neste set que fechou a noite de sábado e se prolongou até à luz vinda de nascente, é que a finalidade que o DJ e os ouvintes procuram não é exactamente igual. Não é a mesma finalidade, na mesma ocasião. Ou estagna muito ou “bomba” (termo com afinidade ao estilo) quando devia parar para limpeza do suor... O mesmo diria um determinado escritor sobre a relação homem-mulher. Normam Cook, aka Fatboy Slim, começou mal e acabou melhor. Começou mal, porque deixou duas vezes seguidas os pratos irem abaixo, o som era sofrível e o ritmo demasiado descompensado. Amadorismo, para dizer pouco. Acabou melhor, por volta das 6 h, com um recinto que se tinha rendido e que só fez coincidir o abrandamento da dança com o final do concerto. No meio do público, no fim de um corredor que começava no palco e ficava a meio caminho da plataforma de controlo de som, Fatboy Slim teve pelo menos o mérito de trazer ali a banda que faltou ao cardápio dos festivais deste ano: os The White Stripes. Rezam as crónicas que a presença há dois anos no Super Bock Super Rock foi bem melhor. T.G.

Palco Planeta Sudoeste

Factor Activo
Os Factor Activo são da Covilhã e, nas suas próprias palavras, são "vendidos" como um colectivo de hip-hop sem "yo" e "hey" (eles próprios dizem). Começam com aproximações ao dub e ao reggae, com uma voz disparada, com linhas de baixo pungentes, teclados vintage. Uma banda de hip-hop que homenageia Eugénio de Andrade é algo raro, um colectivo de 14 anos que procura novos sons através dos teclados e sequenciadores que param de funcionar a meio do concerto, que toca para audiências mornas e a quem falta algo, mais alma. Há um trompete com surdina, aqui e ali, há rimas medíocres, há rimas sofríveis, há alguns bons momentos, mas esta interiorização do hip-hop não consegue ter muita vida. R.N.

Sagas Feat. Dj Nel'Assassin
Sagas, um dos MCs dos Micro, lançou um disco a solo este ano. Para celebrar isso, decidiu apresentá-lo ao vivo acompanhado pelo DJ Nel'Assassin, também dos Micro e também com disco a solo para apresentar/vender. Rimas e batidas a granel, todas de alto nível, Sagas canta e rappa com força, e Nel'Assassin é um óptimo DJ, tecnicamente falando. As batidas é que por vezes são pouco criativas, muito coladas aos cânones do hip-hop. Sagas traz primos dos Montecara e dos Mundo Complexo para ajudar à festa. Pediu uma atitude positiva a todos, quanto à vida e quanto ao concerto. R.N.

Hipnótica
Os Hipnótica são uma das melhores bandas portuguesas. Isto é, se lhes retirarmos o vocalista. Com uma base jazzy, programações, bateria, baixo/contrabaixo, harpa, trompete e Fender Rhodes, criam uma música que é, à falta de melhor palavra, cinemática. Toda a gente estava sentada no chão da tenda que envolve o palco Planeta Sudoeste, com beatas e sujidade à mistura... R.N.

Josh Rouse
Os Humanos, à mesma hora no palco principal, deixaram para Josh Rouse na tenda à entrada do recinto apenas os fãs mais declarados: à frente ouvi-se muita e muita gente a entoar todas as letras. A guitarra acústica foi posta de lado (ao contrário de outros concertos recentes em solo português) e o norte-americano, residente em Espanha, tocou, mais a sua banda, temas de 1972 e do último Nashville, num vê-se-te-avias de canções de uma magnificência melódica que não é habitual. Há quem diga que Josh Rouse concentra em si a soul de Memphis, o soft rock da década de 70, a pop barroca de 60 e ainda uma outra pop posterior mais dançável, e foi mesmo isso que desfilou naquela noite. Dança, move-se com estilo, cuida bem da roupa que leva, penteia-se de forma cool e impressionou quase toda a gente. A dada altura cantou “When I was a little baby, / A mamma's boy, / no one could save me / from those kids at school” e nós percebemos que o passado está bem longe. Come back, Josh. T.G.

Josh Rouse

Louise Rhodes
Toda a gente a conhecerá como a metade feminina dos Lamb, daí que as sonoridades mais acústicas por que enveredou na carreira a solo soem à partida um tanto estranhas. Apresentou o álbum Beloved One, com data de lançamento marcada para Outubro, feito de música descontraída no limiar da folk mais proverbial, com acompanhamento não-eléctrico: guitarras, contrabaixo, violino e percussão. A tenda estava meio vazia (tratava-se de um palco que acolheu bandas de cariz mais eléctrico e electrónico), longe da histeria que os concertos de Lamb provocaram em terras lusas. Mesmo assim, muitos fãs da banda em que Lou fazia duo com Andy Barlow (que esteve em Vilar de Mouros) cantaram “Gabriel” até ao limite das forças. É caso para perguntar: a música ainda não cansa? T.G.

Mylo
Destruir o rock'n'roll é a missão de Mylo, o escocês de 20 e tal anos que incendiou pistas de dança com “Drop the Pressure”. A pressão não baixou, mas houve problemas na bateria e no som, e no dia antes tiveramos The Juan Maclean, por isso não houve grande surpresa. Divertido, ainda assim. R.N.

Mylo

Peaches
A canadiana Peaches não sabe cantar. Não sabe tocar guitarra. Entra em palco após funk de favela carioca, para protagonizar um cabaré pornográfico, com lapdances, bandeiras em triângulo a dizer "XXX" e trepando às paredes do palco. Projecta vídeos de lésbicas com barba e strap-ons e Iggy Pop, com quem faz um dueto virtual. Nada de extraordinário, é tudo disparado, uma ou outra guitarra tocada (especialmente uma Flying V), um solo de teclado manhoso de brincar, ou berros e falsetes por cima de power chords. Divertido, mas musicalmente pouco relevante. R.N.

Palco Planeta Sudoeste
The Vicious 5 · Mata tu, Patrón! · d3ö · Wraygunn · The (International) Noise Conspiracy · The Kills
Palco TMN
Doves · Dinosaur Jr. · Basement Jaxx


Palco TMN

Doves
Depois de um concerto morno, mas simpático, por parte dos também britânicos Athlete, a “tradição” de Manchester voltou ao palco principal (onde já tinham passado os Oasis). Jimi Goodwin tem um visual entre o Kurt Cobain e o Badly Drawn Boy e uma presença de palco que não compromete, mas que ficou conotada com a alegria de estar em... “Spain”. Ainda corrigiu antes de terminar a frase, mas os assobios foram imediatos.
Em disco são uma banda com boas canções, mas parecem perder muita da sua vitalidade quando as tocam ao vivo. As músicas de Last Broadcast entediam naquele palco, talvez por falta de ambiente: tiveram uma plateia reduzida e poucas palmas. Na recta final melhorou um pouco, e concluíram com um público bem mais satisfeito que durante grande parte do concerto. T.G.

Dinosaur Jr.
Os Dinosaur Jr. chegam. J. Mascis está estupidamente velho, com cabelo branco comprido e com uma barriga indesculpável. Veste um casaco Adidas roxo. A sua voz envelheceu extremamente mal, os seus solos de guitarra só raramente é que têm o vigor e o poder de antigamente. As malhas, as verdadeiras malhas, são poucas durante a hora em que eles tocam. É uma reunião que acaba numa desilusão, onde o péssimo som não estraga tudo, a banda trata de estragar. Apenas Lou Barlow se safa, o baixista que voltou a juntar-se a J. Mascis depois de anos de zanga. A sua voz sempre foi claramente superior à de J. Mascis, mas quando se põe a cantar hoje em dia ganha-lhe por KO absoluto. É o único que aproxima o concerto dum espectáculo, agradece a toda a gente por esperar pelos Korn por eles. Talvez tivesse sido melhor terem ficado quietos, para aquilo ficávamos em casa a ouvir os discos e o mito nunca teria sido desfeito. Pelo menos não começaram à porrada, se bem que isso teria dado um espectáculo mil vezes melhor. R.N.

Dinosaur Jr.

Basement Jaxx
Alguém entre o público dizia que um concerto de Korn é um pouco como uma crise económica: uma merda que nunca mais acaba. Não foi pois de espantar que muita gente, depois de quatro dias de muito cansaço, abandonasse o recinto sem esperar pelo concerto de encerramento. Foi então com pouco público (mesmo assim, a zona envolvente ao palco estava cheia) mas com muito fervor que os Basement Jaxx assomaram na Herdade da Casa Branca com um dos melhores concertos no palco principal. Com vários vocalistas, que muito se esforçaram para puxar as pessoas, uma panóplia de instrumentos que enriqueceram a actuação (os sopros, principalmente) e efeitos de luzes que também contribuíram para o espectáculo cénico e espantaram quem pelo nome não os conhecia. Foi quase deixado de fora o último Kish Kash para dar prioridade aos álbuns de 1999 e 2001, Remedy e Rooty. “Red Alert”, um dos singles principais do primeiro disco e a música mais conhecida da banda, foi o momento alto da noite. T.G.

Palco Planeta Sudoeste

The Vicius 5
Os The Vicious Five venderam-se. Assinaram pela Loop, uma editora de hip-hop. Mas, em vez de irem pelo caminho fácil das putas e do bling bling, apenas tornaram a sua sonoridade menos hardcore e mais rock’n’roll. Há agora falsetes e solos de guitarra. Continuam, contudo, com a mesma pose, com os mesmos riffs monumentais, o mesmo jogo de guitarras e o carisma de Joaquim Albergaria, o vocalista.
“A festa acabou” é o que se declara no início. A próxima hora será dos The Vicious Five. Temos um vocalista com uma T-shirt de Joy Division que vai dançando nervosamente, se bem que duma forma bem mais hedonista que Ian Curtis, vai saltando, vai trepando o poste, vai saltando à corda com o microfone, vai fazendo um jogo de pés invejável, tem espasmos incontroláveis, sabe-se lá mais o quê. Vai, sobretudo, dando um grande espectáculo, que só sofreu por ter sido às 5 da tarde e o público não estar ainda aquecido. Por isso e pelo mau som do baixo, bem como os problemas com as guitarras. Grita-se “We want to rape you back” no tema “The Smile on Those Daggers”, faz croché de palco, desenrolando-se os cabos do microfone e da guitarra, há um cowbell em “Suicide Club”, tema sobre estar vivo e mostrar que se está vivo, há um espectáculo que rocka pra caraças. E só há expectativa para ouvir Up on the Walls, que sai em Setembro pela tal editora de hip-hop (que é independente, logo o “venderam-se” do início é a brincar). R.N.

The Vicious 5 © Rui Velindro/A Cabra

Mata Tu, Patrón!
Os Mata Tu, Patrón são a nova banda do baterista Kinörm dos Ornatos Violeta e de Rui Gon dos Zen. Praticam um rock desinteressante, com aproximações ao grunge ou lá o que é, dizem coisas como “É uma questão de tempo, isto um gajo um dia mata-os todos” ou “Façam barulho, caralho! Então, caralho, ‘tão a dormir?” Nada de especial, ou seja, uma verdadeira desilusão, vindo de quem vem. R.N.

Mata tu, Patrón!

d3ö
Apesar de serem a menos interessante das bandas que nasceram das cinzas dos Tédio Boys no activo, os d3ö são uma banda rockante para caraças. São rápidos, curtos e pungentes, mesmo que o seu concerto dure um pouco demasiado tempo. Tony Fortuna é um excelente frontman, com loucura, carisma, e cheio de pinta, foi membro dos M’As Foice e tem a escola toda. “Viemos de Coimbra só pra vocês, fizemos uma viagem maravilhosa”. A música é básica, primitiva, grita-se “Hey hey” e bate-se o pé ao som de “Ice Cream”, um tema para o verão. O princípio é bom, o meio é mais ou menos, mas o fim... no fim Tony pede a tudo para tirar a T-shirt, para andar com ela à roda, como um sinal de libertação. A música arranca e pára, pede-se braços no ar e ancas a mexer. Tony trepa ao poste, abraça tudo e todos, deixa-se cair para trás e é basicamente isto. Mas é muito bom. R.N.

Wraygunn
“Soul” é a palavra chave. E não é só por estar escrita no peito de Paulo Furtado. Depois dos d3ö, mais uma das bandas a sair das cinzas dos Tédio Boys. Supomos que, para quem nunca viu os Tédio Boys ao vivo durante a sua existência, isto deve ser o mais perto do suor e rock’n’roll e do exorcismo canibal dos míticos rockabillys de Coimbra. No entanto, para quem, como nós, já viu Parkinsons, d3ö, Bunnyranch e Wraygunn, estes últimos são os claros vencedores. Paulo Furtado é uma das maiores rockstars portuguesas, Raquel Ralha é uma das melhores vozes rock’n’roll portuguesas, um contraste doce para a sujidade rock’n’roll da banda e a banda é, toda ela, excelente. Um concerto dos Wraygunn é sempre um acontecimento inesquecível e imperdível, onde a banda dá o máximo para dar um bom espectáculo. Mas algo correu estupidamente bem naquela noite, não sabemos o quê, uma perfeita simbiose entre banda e público, toda a gente sabia as letras, toda a gente dançava, a banda estava em grande. Paulo Furtado saltava e dançava, chegou mesmo a ir para o meio do público ou a trepar o poste, Raquel Ralha cantava e encantava, a outra rapariga belíssima negra que canta com eles também, os músicos no seu melhor. Até Tony Fortuna é chamado ao palco, para uma brutal versão de “My Generation” dos The Who. É sempre bom ver ex-Tédio Boys a juntarem-se no mesmo palco.
É fácil ver, ao vivo, como os franceses andam a abrir os olhos para os Wraygunn. Já venderam 5000 discos num só mês por lá, receberam óptimas críticas, tudo. Quem não se rende ao gospel rock da banda é, sem dúvida, parvo. Qualquer banda que tenha duas mulheres perfeitas em palco, com vozes belíssimas, fazendo dois contrastes, um entre elas e a banda, doçura/dureza e outro entre elas as duas, preto/branco, merece o mundo. Especialmente se uma delas tocar cowbell. R.N.

Wraygunn

The (International) Noise Conspiracy
Afinal o rock é vermelho, como a roupa dos (International) Noise Conspiracy. Ou o punk, se na base deste está a contraposição ao capitalismo crescente: o concerto foi pejado de referências e discursos de combate, principalmente contra imperialismo e a indústria discográfica. Tocaram “Power To the People” e a pequena multidão que estava na tenda dançou com tantas forças quanto as que teve. Foi eléctrico, demasiado eléctrico: sem interrupções entre os temas (a não ser para uma ou outra palavra de ordem), sempre aos saltos de um lado para o outro. E, não por acaso, das poucas bandas do palco Planeta Sudoeste com direito a encore.
Problemas de ordem técnica afastaram o concerto de 2002 no Festival Carviçais, mas foi desta que se estrearam em Portugal. É caso para dizer que não podíamos esperar mais tempo: nenhuma expectativa saiu defraudada. Das colunas emanou tanto garage rock como soul, memoraram os Hives, esbarraram nos Stooges, evocaram o apelo sexual de James Brown e o conteúdo político das bandas que fizeram revoluções. Parecerá Portugal um país oprimido e afundado em capitalismo? Dennis Lyxzén, frontman da banda sueca, disse que em digressão já viajaram pelo mundo e que aqui percebeu exactamente que o público apreendia a sua mensagem. Ele lá saberá, mas ficámos sem perceber o que queria dizer. Só podia sair da boca dele as palavras “The perfect rock outfit would be a combination of Elvis and Che Guevara.”. T.G.

The (International) Noise Conspiracy

The Kills
Era uma das bandas mais esperadas no Sudoeste, também porque o ano passado em Paredes de Coura demasiados problemas técnicos marcaram a actuação. O epíteto de “dupla sexy” difundiu-se muito e por isso a curiosidade aguçava a vontade de ver o concerto. Ao vivo não deixam de ser só VV e Hotel, mas estão acompanhados por batidas de fundo. Não soa tão rock, mas mais chatinho, daí que as músicas em disco possuam uma chama que nunca foi atingida. Como agravante, as vozes estavam demasiado baixas em relação à guitarra e era difícil ouvir o que diziam, quanto mais compreender. Nunca cativaram completamente quem ali estava, não despertando mais do que um disfarçado entusiasmo. Têm um dos melhores álbuns rock do ano (No Wow) mas não foi isso que trespassou. Houve ainda uma certa dramatização rock’n’roll: a encenação foi prato forte, mas nem por isso acresceu interesse à noite. Raramente interagiram com o público, a não ser para agradecer os aplausos. Desafiaram-se um ao outro com o olhar, contracenaram em conjunto ou cada um para o seu lado, mas esqueceram-se que havia pessoas a assistir. T.G.

Foram quatro dias de música, de loucura, do que quer que fosse. Tudo num festival onde o parque de campismo não era um verdadeiro parque de campismo, onde havia barulho até às 9 da manhã, fosse dos djambés dos friques ou da música da MTV (nada de concertos), onde o sol começava a tornar o descanso insuportável dentro das tendas a partir das 8, onde era impossível dormir-se. Era ver gente a divertir-se no sujo canal, era ver corcundas nus a passear junto às mesas onde as pessoas comiam, era ver ladrões espancados por seguranças com tatuagens das SS, ladrões espancados por amigos, calções de banho roubados, sabe-se lá mais o quê. O Sudoeste foi um festival onde muitas bandas compreenderam a utilidade e necessidade do cowbell. Não sabemos quem começou primeiro a pegar nos sinos das vacas para fazer música, mas quem o fez deve ser canonizado. Como dizia Christopher Walken num famoso sketch de Saturday Night Live onde se parodiava os Blue Oyster Cult, “I’ve got a fever and the only prescription is more cowbell”. Sábias palavras, Christopher, sábias palavras. R.N.