Super Bock Super Rock
Parque do Tejo, Lisboa
28-30 Mai 2005
Ao terceiro dia as coisas tornaram-se mais pesadas. Só malta da pesada. Juventude com a cara pintada porque era o dia Dele. O tipo polémico (mas extremamente ridículo e no fundo inofensivo), que fala sobre aquelas coisas difíceis dos problemas dos jovens e tal, ‘tás a ver? É mesmo assim, ele não vê o mundo como um sítio bonito e fala dos problemas. Sim, era o dia do execrável Marilyn Manson. Só se viam mansonites pelo recinto. Que bocejo. Era também o dia dos Mastodon e dos Slayer. Os primeiros fazem do mais interessante metal da actualidade, os segundos são verdadeiras instituições do trash. Rápidos e barulhentos, é fácil ver porque é que fizeram o barbas do Rick Rubin esquecer o hip-hop por uns momentos para produzir Reign in Blood. RN

WEDNESDAY 13
Wednesday 13 é o gajo dos Murderdolls, o vocalista. Há que dizer que Murderdolls é um projecto com membros dos Slipknot e dos Static-X, ou seja, nada de interessante vem dali.
No palco há gajos pintados, com cabelo comprido e guitarras do metal, microfones com caveiras e o caraças. No dia anterior tínhamos tido os Turbonegro, também pintados, com o seu quê de diabólico, mas os Turbonegro não se levam a sério, nem os fãs os levam a sério. Wednesday 13 é um gajo que se leva a sério e cujos fãs levam a sério. Ora isto não pode ser, é uma caricatura do metal, é algo extremamente nojento e extremamente parolo. Ser parolo é muito bom, dá fãs e dá para entreter os putos até vir o Marilyn Manson. RN

MORE THAN A THOUSAND
Os More Than a Thousand são uma banda portuguesa de metalcore, ou seja, aliam riffs e tapping do metal à brutalidade do hardcore. São competentes, nada mais. Sabem, acima de tudo, dar um concerto. Não que se perceba alguma coisa do que dizem, mas isso não interessa nada. Está tudo bem até que abrem a boca e percebemos o que dizem. "Obrigado, pessoal". O uso da expressão "pessoal" não fica bem em bandas de metalcore. Já tinha acontecido no primeiro dia do festival com os Black Sunrise, e volta agora a acontecer. Assim não dá. Duas ou três pessoas mostram-se interessadas e vibram com o concerto. Nada mais que isso. RN

MASTODON
Os Mastodon são uma banda que devia ser instrumental. Seria uma ideia boa, a do instrumetal. Vão buscar brincadeiras ao rock progressivo, sempre com a brutalidade extrema do metal. É nos trechos instrumentais, nas guitarras e afins que se nota a sua qualidade. O vocalista que também é guitarrista grunhe coisas incompreensíveis, mas não é necessário aqui.
Claro que se pode argumentar que todo o metal devia ser assim, tirar aquelas vozes guturais que nem letras têm... mas a maior parte do metal não tem metade do interesse que os Mastodon têm.
Apesar de bons, há apenas 20 pessoas com os braços no ar a gostar, enquanto as outras ficam atrás paradas ou andam a passear as suas roupas dos System of a Down, Rammstein, Slayer ou Marilyn Manson. RN

RAMP
Os Ramp são portugueses e brutais. São do metal, e sendo do metal podem abrir para os Slayer que ninguém se chateia. O vocalista parece António Freitas, radialista e apresentador do programa Hyper Tensão da SIC Radical. Não há nada de novo ali, só algum poder. RN

SLAYER
Quando entram os Slayer em palco, o som e a brutalidade sobem até níveis inéditos neste festival. Têm muitos anos de carreira, bem como muitos fãs, e o mosh pit que já se adivinhava em Mastodon toma proporções incontroláveis. É só brutalidade, quase que há feridos e mortos. Dave Lombardo mostra que é um dos melhores bateristas da actualidade e parte tudo, tudo, tudo. Os momentos em que está sozinho são as melhores parte do concerto. RN

BUNNYRANCH
Os Bunnyranch tocam rock'n'roll puro e duro. São mais uma das bandas que saíram das cinzas dos Tédio Boys. Aqui o baterista é vocalista e os teclados são reis. Um set competente, com covers, para abrir para os Stooges. RN

THE STOOGES
Outrora revolucionários e um murro no estômago de qualquer apreciador de música, os ensinamentos dos Stooges já estão velhinhos. Mais de 30 anos já passaram, e entretanto também passou a revolução do punk. Hoje em dia muito do caminho que desbravaram é normal, banal, trivial.
Iggy e os seus Stooges pedem música e não espectáculo. Já velhinhos, sobreviventes de muitas e muitas drogas, talvez demasiadas, o seu tempo basicamente já foi. Dizem que o rock'n'roll está consumido pela indústria. Iggy, filho, detesto ter de ser eu a dizer, mas... err... tu fazes parte dessa indústria. Estás num festival da indústria.
Para além dos irmãos Asheton na guitarra e na bateria, Iggy traz um baixista novo - o grande Mike Watt, dos Minutemen, dos Porno for Pyros, dos fIREHOSE e dos Dos, bem como colaborador dos Sonic Youth - quem consegue esquecer o seu telefonema no tema "Providence" de Daydream Nation? - e Steve MacKaye, um saxofonista free que tem uma óptima relação com Portugal. O saxofone que apareceu em Fun House traz umas linhas giras à cena. É estranho que o melhor que sai do palco venha dos dois membros extra-Stooges, do baixo de Watt e do saxofone de MacKaye. Mas há coisas assim...
Do alinhamento não constou nada de Raw Power. Iggy Pop, velho, contorce-se em palco, salta de um lado para o outro, faz amor com o amplificador e diz que quer ser o nosso cão.
Não há muitos fãs a sério que estejam lá só pelos Stooges, tirando umas dezenas irritantes que gritam e gritam cada canção, cada grito e irritam tudo e todos. Mas é assim quando se trata duma banda antiga de culto. Já no dia anterior, nos New Order, estava uma tipa com um cartaz a dizer "Ian Curtis, I am here in Heaven with you and NEW ORDER". Punha sempre o cartaz em frente das pessoas que queriam ver o concerto. Chata, chata, chata. Há fãs destes, fãs irritantes, estúpidos, que só sabem chatear. Alguns desses fãs são chamados ao palco, e quando os seguranças não os deixam subir, Iggy chama-lhes nazis.
Falta ali qualquer coisa, uma qualquer chama que existia há 30 anos e agora se apagou. Contudo, há um concerto competente, teatral dizendo que não quer sê-lo, e rock’n’roll. RN

WRAYGUNN
Logo depois vieram os Wraygunn, que são uma das melhores bandas portuguesas. São a melhor banda de rock'n'roll portuguesa, isso sim. Paulo Furtado é um grande, grande frontman, Raquel Ralha uma grande cantora e, acima de tudo, uma grande mulher. Bonita, com espírito e garra em palco, com uma voz linda, um deleite, um regalo. Ainda por cima também toca cow-bell, que é talvez o melhor instrumento de todo o sempre. Alguém devia dedicar-lhe um poema. Um soneto de amor. Ainda por cima tinha um vestido bonito. Para além deles há um baterista, um percussionista, um DJ, um baixista, um teclista e ainda uma rapariga negra muito bonita e com uma voz também bonita, cheia de soul, que às vezes canta. Faz o que tem a fazer e vai-se embora do palco. Podia ficar em palco, e o DJ podia ir-se embora, já que não faz absolutamente nada a não ser um scratch manhoso de vez em quando e fica lá atrás o tempo todo. A rapariga, pelo contrário, tem uma bela voz e é uma presença em palco que devia ser mais bem aproveitada.
Rock'n'roll, poder, tudo. Não há nada a dizer, partem tudo. Em apenas três caracteres: \m/. RN

AUDIOSLAVE
Os Audioslave são os Rage Against the Machine com o vocalista dos Soundgarden. E soam exactamente assim. Chris Cornell é mais cantor - e sobretudo tem mais a mania que é cantor - do que Zack de La Rocha. Por isso, ao interpretar clássicos dos RATM, que a banda tem tocado durante a sua tournée, há sempre aí qualquer coisa que não funciona. Mas acabam por ser as partes mais interessantes dos concertos, já que os originais dos Audioslave não são nada de especial. Até porque às vezes, mas só mesmo às vezes, como em "Killing in the Name Of", se fecharmos os olhos, parece que é mesmo Zack de La Rocha. Mas são só momentos, breves momentos, que se acabam logo e percebemos que não. São meras versões, covers, já que os músicos não têm metade da pujança que tinham na banda original. O mesmo se passa com os temas de Soundgarden, quando Cornell pega na guitarra acústica e canta "Black Hole Sun". O domínio dele da guitarra acústica deixa muito a desejar, mas o público adora. Isqueiros no ar e mãos de um lado para o outro a abanar. Há, quase de certeza, quem chore durante aquilo. Meras versões. A organização da Música no Coração dizia: "Vês? Pagámos uma banda e tivémos três." Mas isso não era verdade. Pagaram uma banda e tiveram versões de duas. Parece que Chris Cornell está lá apenas a contrato (e está), para substituir Zack de La Rocha. É a dicotomia cantor/vocalista. Aquilo não dá com um cantor ali.
Para além disso, os solos intermináveis de Tom Morello estão cada vez mais insuportáveis. Nos RATM a banda era uma boa banda, nos Audioslave irrita. Falta sal à coisa, vida, cor, luz. RN

BLIND ZERO
Os Blind Zero não são uma banda boa. Mas também não são uma banda má. São medíocres. Longe vão os tempos em que eram uma imitação dos Pearl Jam. Hoje em dia (já) não são. Têm um som mais ou menos próprio.
Pena que, para além dos originais, tenham vontade de fazer um cover de Jesus & Mary Chain. Há um velho provérbio chinês (acabado de inventar por uma amiga) que diz: "Se não és os Pixies, não mexas dos Jesus & Mary Chain". E é verdade. RN

MARILYN MANSON
Marilyn Manson é um chato. É, para além disso, a pior criação musical de Trent Reznor, o cérebro por detrás (esperemos que não haja brincadeiras com esta expressão e o facto de Manson ter um aspecto andrógino) dos Nine Inch Nails. Era um menino bem comportado dos subúrbios que um dia ouviu Alice Cooper e pensou que seria uma boa maneira de sacar dinheiro aos putos. Entretanto deixou uma ou outra canção, um ou outro álbum, mas tudo com cheiro a farsa e a teatro. Os dólares começaram a entrar e a polémica também. Mas encaremos os factos: Marilyn Manson é tão inofensivo quanto a playlist do Rádio Clube Português.
Sabe é dar aos putos o que querem. Dá um bom espectáculo, para eles, começando calminho e depois entrando naquelas cenas foleiras que os fãs adoram. Tem dois ou três covers que seriam interessantes se não conhecêssemos as versões originais, tipo “Tainted Love”, “Personal Jesus” ou “Sweet Dreams”.
Acaba com “Suicide is Painless”, da série M*A*S*H. O suicídio pode ser indolor, mas ver Marilyn Manson ao vivo não o é certamente. RN

· 28 Mai 2005 · 08:00 ·

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