Super Bock Super Rock
Parque do Tejo, Lisboa
28-30 Mai 2005
Supostamente, o segundo dia ia ser o dia musicalmente mais interessante. E foi. Era a estreia tanto dos Turbonegro como dos New Order em palcos portugueses. Anos e anos de idolatração por muitos fãs, que infelizmente não se traduziram numa verdadeira enchente. Havia só meia dúzia de membros da Turbojugend, caralho! Quase ninguém pintou os olhos. Ora, isto é totalmente inadmissível. Era também o dia mais propício à vinda de frequentadores de discotecas com música manhosa que passam férias no Algarve, já que os Black Eyed Peas actuavam.

BLEND
É demasiado fácil fazer o trocadilho: Blend e bland. Os Blend são bland, ou seja, não são nada. Há 20 pessoas a saltar para cima e para baixo, excitadas com as guitarras azeiteiras e o vocalista com ar de ter um tuning ou pelo menos de estar a poupar para um. São ou menores de idade ou já têm cabelos brancos. Sim, são da família dos músicos. Ganharam o concurso SBSR Preload para actuar no festival. Uma banda destas só ganharia um concurso se o júri fosse 1) da família de alguém da banda (provável) 2) surdo 3) absolutamente idiota.
O vocalista, que se apresenta com o nome Ricardo, dedica um tema "a alguém muito especial". Tem muitos "yeah", "yeah", "yeaaaaaaaaaaaaah", como, aliás, têm todos os temas deles. Pede "pessoal, agora vocês!", mas toda a gente se mantém calada. O guitarrista, de punho cerrado, incita a multidão, que clama por mais. Ou não, não clama por nada. É impossível clamar por algo que não misericórdia perante tal boçalidade e inutilidade. RN

BOSS AC
Ficou notória, por razões negativas, a apresentação ao vivo de Ritmo, Palavras & Amor, o novo disco de Boss AC. O novo governo tinha subido ao poder apenas uma semana antes e, quando AC, o auto-intitulado manda-chuva, disse "Vocês não estão fartos deste governo?" é suposto a risada ter sido geral. No Super Bock Super Rock o MC evita isto, dizendo "Não estão fartos destes governos? Destes cabrões do caralho?". Queria falar de coisas sérias, e passa para o rap-rock de "Fartos", logo depois de "Hip-Hop (sou eu e és tu)", o primeiro single do novo disco.
Vem com uma banda: baixo, guitarra funky, bateria, DJ e outro MC. O outro MC pergunta se o som está bom. Um vintão com uma t-shirt de Rammstein, gel no cabelo, óculos, alguém sem espelho em casa, diz: "Não, devia estar no zero.".
Não há nada de errado na música de Boss AC. Há bons beats, por vezes há boas rimas, mas muitas vezes não há. É isso que lhe tira muita da piada. Os maiores êxitos de Boss AC, como o já citado "Hip-hop (sou eu e és tu)" e "Baza Baza", dão às fãs menores o que elas querem. Mostram, só para agradar, parece, descontentamento com o novo governo ou assim. RN

Selecção Portuguesa de Esperanças vs. Selecção Escandinava
FLIPSYDE/EASYWAY/TURBONEGRO/FONZIE/THE HIVES

O Parque Tejo recebeu no passado Sábado, 28 de Abril, uma esperadíssima final de Super Rock. Após registar substanciais melhorias - a nível de organização e de facilidades ao dispor dos adeptos – face à edição anterior, o espaço ribeirinho serviu de tabuleiro ao confronto entre duas equipas de peso: a Selecção Portuguesa de Esperanças – representado pelos Easyway e Fonzie – e a Selecção Escandinava – composta por nomes sonantes como Turbonegro e The Hives. Apesar de condições climatéricas ligeiramente adversas, tocou-se rock espectáculo em ambos os palcos: Quinta dos Portugueses e o principal.

Foram os Easyway a dar o pontapé de saída. Inflamados pela alta rotação de Forever in a Day por paragens alemãs e gaulesas, os Easyway cumprem sem rodeios a tarefa a que o seu punk-rock melódico se compromete: proporcionar um pôr-do-sol reconfortante a todos os que vivem assombrados por dilemas relacionados com namoradas e par de ténis a usar na próxima festa de aniversário. Praticam o seu som de forma directa, arrancam uns aplausos ao público quando os solicitam e fitam alguma saturação através de uma mão cheia de sucessos cada vez mais reconhecíveis. O carisma do ponta-de-lança Tiago abre o marcador. Não será de estranhar que o disco sucessor carimbe o passaporte destes praticantes para aventuras além Europa.

Os Flipsyde - banda que antecedeu aos Turbonegro no palco Super Bock – deviam ter pago o seu peso em ouro para usufruírem do direito de pisar o mesmo palco que a ameaça vinda da Noruega. Sim, os Turbonegro deram a volta ao resultado em apenas duas músicas. É de tal forma demolidora a prestação dos estreantes em palcos portugueses, que alguns dos presentes na plateia certamente ponderaram abandonar a carreira desportiva logo após o recital de rock que os Turbonegro deram assistir a um público que se foi rendendo aos poucos, para, no final, agraciar os artistas com uma ovação de pé.

Quando Portugal julgava conhecer todas as formas de preparar bacalhau, eis que os noruegueses Turbonegro surgem com a milionésima segunda receita para o tão apreciado peixe que une as duas nações. Os autores do novíssimo Party Animals (que já conta com crítica nesta casa) entram com tudo: vestimentas que invocam o Holocausto e as conquistas bárbaras, um rock contagiosamente catchy e todo um circo rock assente na gloriosa exposição da decadência e deboche. A prestação corre de forma ideal a um dos mais calibrados colectivos rock actualmente no activo: os falhanços extraídos a um semi-decepcionante Party Animals transformam-se em vistosos golos e o titânico Apocalypse Dudes vale à formação o antecipado hat-trick (“Back to Dungaree High”, “Get it on” e “Prince of the Rodeo” são torpedos prenhes de uma alma que os torna infalíveis). A noite estava ganha. Os cultos em torno de uma banda começam muitas vezes assim. Voltem sempre, voltem depressa.

O único senão da prestação avassaladora dos craques noruegueses é criar à sua volta uma cratera praticamente impossível de transpor. Coube aos Fonzie combaterem os momentos de anti-climax e fazerem os possíveis para reduzirem a diferença no placar. Eu que até sou um infame apreciador do futebol dos Fonzie (eles que, goste-se ou não, continuam a aperfeiçoar uma fórmula em que foram pioneiros a nível nacional), não arranjo palavras capazes de suavizar o débil desempenho que os susceptibilizou perante um Parque Tejo cada vez mais composto. Presume-se que a táctica estudada talvez não tenha sido a mais certeira: um alinhamento assente no inferior Wake up call e a excessiva impaciência em alcançar as balizas do refrão tamanho familiar (é o próprio baixista que apela ao espírito de família). Cartão amarelo para os piores Fonzie desde há muito tempo. O curto período de tempo de que dispuseram vale-lhes, pelo menos, a hipótese de despenalização. Estava-se tão bem na Copa da Ásia.

Recordo-me de uns Hives a aquecer o banco da Burning Heart: preenchiam o espaço reservado às últimas faixas das compilações da editora e já nesses tempos sobressaíam rumo a um futuro risonho. Optaram por uma indumentária consonante (composta por fato branco e negro e laçarote catita) e activaram um mecanismo promocional infalível. Tais medidas valeram-lhes uma transferência galáctica para a Interscope e há coisa de duas épocas brilharam efusivamente na liga norte-americana. No segundo dia do Super Bock, soam datados e colhem os reveses do retro como quem colhe prejuízos a um passado condenado pelo momento crucial em que se optou pela prostituição. Sim, os Hives contam com excelentes malhas (“Walk Idiot Walk”, “Missing Link” e “Main Offender” acertam na mouche) e nenhum dos discos lançados até hoje falhou redondamente, mas revelam-se predominantemente impotentes na forma como camuflam as notórias incapacidades vocais do artilheiro Pelle Almqvist com todo um imenso show-off e contorcionismo altamente pretensioso (todavia engraçado). Acaba a exibição dos Hives por soar ligeiramente a farsa, a interrogatório (entre a 60 e 80 questões disparadas, digo eu) mais do que a concerto.

O desafio terminou com vitória esmagadora da formação escandinava, mas ficam duas ideias a reter: o contingente lusitano mostrou-se possuidor de talento capaz de o conduzir a outros campeonatos da especialidade e a equipa vencedora dependeu demasiado de uma exibição de luxo dos Turbonegro. Enquanto o êxtase não se dissipa, assentam memórias de um dos mais inesquecíveis concertos rock a que tive a oportunidade de assistir nos últimos anos. MIGUEL ARSÉNIO

EXPENSIVE SOUL
Os Expensive Soul são aqueles gajos que se chegam ao pé dum grupo de pessoas e, sem dizerem mais nada, perguntam logo: "Quem é que se descose?". Gostam do funk, acham que o Funk é mem'bom (como os cool Hipnoise), é pena é que o funk não goste deles. RN

BLACK EYED PEAS
Os Black Eyed Peas têm sucesso ninguém sabe porquê. Não têm, do ponto de vista técnico, qualquer mais-valia. Não são bons rappers, a tipa é jeitosinha mas não sabe cantar, não têm canções, só têm refrões meio manhosos. São como que a Banda Eva do hip-hop. Muito maus mas com a escola toda. Em Be Cool, o filme, pegam num senil Sérgio Mendes e estragam toda a beleza da música dele. Ao vivo, no meio de um medley de Kelis e Maroon 5, assassinam um clássico de Jorge Ben Jor.
Ora isto não pode ser. Há um encore e voltam com mesas e cadeiras, bem ao estilo Stomp. É mau, muito mau, de fugir. Hip-hop do piorio, sem qualquer tipo de qualidade. Mas o povo compra e gosta. Caem que nem patinhos, "Let's Get it Started" é um grande hino. Originalmente era "Let's Get Retarted", mas isso era um bocado demasiado puxado para uma banda paz-e-amor, já para não dizer ofensivo. Urge dizer que "Where is the Love" é capaz de ser o single mais irritante dos últimos... esqueçam, "Dragostea Din Tei" saiu o ano passado... mas se não tivesse saído...ai... RN

LOTO
Antes dos New Order tocaram os Loto. Alguém percebe a ironia? Os Loto são uma imitação rasca dos New Order. São os New Order sem canções e sem melodias interessantes, para além de serem de Alcobaça e quererem fazer de Alcobaça Madbaça. Estavam alcoolizados, ou seja, eram também de Álcoolbaça. Estes maus trocadilhos com o nome da cidade ilustram o quão bom foi o concerto deles. Tocaram durante meia-hora êxitos como "Celebration" ou "Back to Discos", que têm refrões minimamente aceitáveis mas ficam logo estragados com o que eles dizem entre os temas. "Obrigado às 20 mil pessoas que vieram ver os Loto".
Sofreram por abrirem para os seus ídolos. São uma banda muito máscula. Quase tão máscula quanto um musical de Barbra Streisand, só que sem aquele nariz nojento. Para mostrar o quão másculos são, puseram umas raparigas bonitas a dançar no final do seu set, em "Back to Discos". Agradecemos isso aos Loto. RN

NEW ORDER
O segundo dia do Super Rock é sobretudo Dia D para os amantes da tradição de Manchester. Emoções ao rubro é o que se sente na aguardada estreia dos New Order em palcos lusos. Chegada a hora do revivalismo, não faltaram as saudosas “Bizarre Love Triangle”, “True Faith” ou “Regret” disparadas num estilo recatado que David Blot havia descrito como "effective anti star system". Bernard Sumner é a personificação dessa atitude ao passo que Peter Hook, no seu estilo inconfundível, chama a si a tarefa de encher o palco e promover a aproximação ao público. Pela força do passado, os New Order cederam como habitualmente à herança dos Joy Division, e foi ao revisitar “Transmission”, “She's Lost Control”, “Love Will Tear Us Apart” e “Atmosphere” da mítica banda que proporcionaram os mais fulgurantes arrepios na espinha, com Sumner a evocar inclusivé a passagem dos 25 anos sobre a morte do inesquecível Ian Curtis. Para não defraudar expectativas, o encerramento a chave de ouro dá-se ao som de “Blue Monday”, apresentada com excertos de “Can't Get You Out of My Head” de Kylie Minogue à mistura. E, a julgar pelo êxtase dos presentes, é fácil perceber que, de facto, ninguém os conseguiu ainda tirar da cabeça... EUGÉNIA AZEVEDO

THE GIFT
Os The Gift são uma banda portuguesa cuja música roça a boçalidade. Moby é fã, mas também Moby não é autoridade nenhuma em coisa nenhuma. Ele próprio vive da boçalidade e é rico à custa dela. Apresentam-se em palco, tocam temas antigos e novos, todos já originalmente desinspirados e não são mesmo nada de especial.
Canções não existem, as letras são sofríveis e partem de um paupérrimo domínio da língua inglesa. Se uma banda não sabe falar em inglês, que não escreva em inglês, que não use essa língua para expressar-se. Para além disso, Sónia Tavares corre o risco de se tornar na nova Dulce Pontes. Vejamos: colaborou com Rodrigo Leão como cantora e é irritante para caraças. Só que é mais cheiinha e não tem um nariz tão parvo. Põe várias vezes a língua de fora, mas isso não estraga nada. É só mais algo mau num concerto de uma banda má. RN

MOBY

Moby é careca e ganha dinheiro a fingir que escreve canções quando 1) não sabe cantar 2) não sabe escrever um refrão minimamente interessante (os pontos interessantes das suas "canções" são quase sempre refrões samplados) 3) é chato. Toca covers de Johnny Cash, dos Joy Division e do Lou Reed (só porque ele e a sua banda são de Nova Iorque). "Tocar" é favor, já que pouco mais faz do que assassinar temas.
Tem dinheiro para pagar a músicos, mas todo o dinheiro do mundo não consegue evitar o aborrecimento e sofrimento que é assistir a um concerto de Moby. RN

· 28 Mai 2005 · 08:00 ·

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