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Girl Talk
Feed the Animals
· 31 Jul 2008 · 08:00 ·
Girl Talk
Feed the Animals
2008
Illegal Art


Sítios oficiais:
- Girl Talk
- Illegal Art
Girl Talk
Feed the Animals
2008
Illegal Art


Sítios oficiais:
- Girl Talk
- Illegal Art
O génio de Gregg Gillis, ou Girl Talk, reside em pegar em bocados de canções pop de outras pessoas e transformá-las em novos momentos transcendentais. Não devia ser assim, mas é. Uma declaração de amor a toda a música, à rádio, de um dos artistas definitivos dos anos 2000.
Um dos momentos favoritos da minha vida foi quando, em pleno festival da Pitchfork em Chicago em 2007, Gregg Gillis, ou Girl Talk, estava a meio do seu concerto (é ele, um laptop e samples de outras pessoas, mais nada) e, depois de um bocado de “Wat’cha Want?” dos Beastie Boys, passa para o mash-up que fez de “Knife” dos Grizzly Bear com “Wamp Wamp (What it Do)” dos Clipse (dois dos melhores singles de 2006). Com as duas bandas em cima do palco a fazer as partes delas.

É mentira: nunca saí da Europa e os Clipse não estavam lá em palco, apesar de terem ido ao festival (e um bocadinho de “Triumph”, dos Wu-Tang Clan, apareceu lá no meio). Mas os Grizzly Bear estavam e cantaram e dançaram com os Beach House e os Deerhunter (mesmo eles não conseguiram estragar o momento). E no fim passou-se para o beat de “Summer Love” de Justin Timberlake, uma das piores canções de FutureSex/LoveSounds. Mas não deixa de ser um momento incrível, que fica para a História.

Vi-o, sim, em 2007, mas em Barcelona, no Primavera Sound, depois dos Justice, num dos melhores concertos que alguma vez vi na vida. Aí, fazia-se a ponte entre Night Ripper, o disco que trouxe o nome Girl Talk às bocas do mundo e este Feed the Animals. Lembro-me, por exemplo, dos samples de “Whoomp (There it is)” dos Tag Team e de “Girlfriend” da Avril Lavigne que aparecem aqui, para além de “C.R.E.A.M.”, dos Wu-Tang Clan. Tudo óptimas canções, claro, e, mesmo que não se pense assim, o dom de Gillis assenta em tornar evidentes as partes boas e pôr-nos a gostar daquilo de que não gostamos.

O tempo que houve entre Night Ripper e Feed the Animals trouxe a Gillis uma barba e cabelo comprido, mas não o levou à Índia (até Night Ripper tinha "Indian Flute" de Timbaland & Magoo). Levou-o a um disco tão bom ou melhor, a uma parte dois de Night Ripper, longe dos começos abrasivos de Secret Diary, em que o sampling de canções pop servia como ponto de partida para colagens electrónicas e quase homenagens ao Merzbow e a outros nomes do noise, mas com alguns piscares de olhos à electrónica lúdica de Unstoppable. Tristemente, não há nada aqui que se aproxime da junção do piano (e depois do refrão) de "Tiny Dancer" do Elton John e da primeira estrofe nostálgica e sonhadora de "Juicy" do Notorious B.I.G., o ponto alto de Night Ripper e dos concertos (há vídeos disso ao vivo em festivais grandes e toda a gente, toda a gente, sabe a letra toda de cor e passa-se completamente, um momento belíssimo). Mas também não há no mundo duas canções assim que funcionem tão bem juntas. Se existissem, vivemos na certeza de que Gregg Gillis as conheceria e as poria aqui. É esse o seu talento.

Começar com um sample de “Int’l Players Anthem” dos UGK, o meu single favorito do ano passado, um posse cut à antiga, com quatro estrofes geniais de quatro rappers virtuosos, é de mestre. Mas ninguém se lembraria de começar e acabar com aquilo. No início há o fim dos versos de Andre 3000 dos OutKast, quando diz “play your part”, por cima de “Gimme Some Lovin’” dos Spencer Davis Group e depois um bocado da estrofe do infelizmente defunto Pimp C, que começa com “my bitch a choosey lover, never fuck without a rubber”. No fim há “keep your heart, Three Stacks, keep your heart, these girls are smart, Three Stacks, these girls are smart, play your part, play your part” por cima de “Faithfully”, a canção sobre manter uma família na estrada dos Journey que esteve a tocar durante a maior parte da faixa.

Pelo meio há uma festa intensa que é uma celebração de toda a música pop do mundo de sempre (anglo-saxónica), onde Jay-Z rima os versos de “Roc Boys” por cima de “Paranoid Android” dos Radiohead, onde “Lollipop” com o refrão de “Shorty wanna thug / bottles in the club” de Lil Wayne aparece por cima da guitarra de John Frusciante em “Under the Bridge” dos Red Hot Chili Peppers.

Muita, muita coisa, demasiada para enunciar. O solo de “Bohemian Rhapsody” dos Queen, a bateria de “Song #2” dos Blur (Gillis dá aqui, mais do que nunca, grande destaque às batidas e a forma como umas dão espaço a outras está óptima, com detalhes perfeitos), “Since U Been Gone” da Kelly Clarkson, “Jessie’s Girl” do Rick Springfield (que alterna com o “but I’d rather get some head” de “I’d Rather” dos Three 6 Mafia – e depois mostra a frase completa: "I said I love havin' sex but I'd rather get some head"), etc. A sequela perfeita da festa perfeita e uma carta de amor à música pop.
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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