DISCOS
Aires & Rui P. Andrade
Pânico-Ambiente
· 17 Abr 2015 · 14:23 ·
Aires & Rui P. Andrade
Pânico-Ambiente
2015
Colectivo Casa Amarela


Sítios oficiais:
- Colectivo Casa Amarela
Aires & Rui P. Andrade
Pânico-Ambiente
2015
Colectivo Casa Amarela


Sítios oficiais:
- Colectivo Casa Amarela
Noisescapismo.
Há um par de dias, escreveu-se aqui sobre o grande EP que os Sabre editaram recentemente, amiúde uma série de perspectivas sobre o medo que um reles tipo (ou um tipo reles) que escreve sobre música para algumas webzines sente ao abordar, ao ver-se obrigado a abordar, a obra de gente que conhece pessoalmente. Imparcialidade versus honestidade versus objectividade, dilemas eternos. Aqui, esse não é o caso, já que o escriba em questão (doravante referido neste texto como "eu", e pensado pelos leitores como "o idiota do Cecílio") não tem ainda o prazer de conhecer pessoalmente as mentes brilhantes por detrás do Colectivo Casa Amarela.

E no entanto o medo existe e move-se e a imparcialidade volta a ser colocada em causa, já que Pânico-Ambiente, o álbum de que aqui falo e que foi só agora editado após ter sido gravado entre 2012 e 2013, teve o seu título retirado de uma resenha que eu próprio fiz há uns tempos. Como se pode esperar, então, alguma noção de imparcialidade já que a enorme honra sentida em relação a tal impede que se diga mal do dito? Nem sequer vale a pena enveredar pelo óbvio, mencionado também no texto dos Sabre, que é o de se estar a discutir algo que não se sabe descrever - neste caso, o noise.

E não se sabe descrever o noise porque é um género físico, talvez o mais, aquele que se entranha no cérebro e estimula uma de três reacções por parte do corpo, a saber: uma sensação de desejo da violência, um relaxamento total dos músculos, ou, no caso de alguém não ser fã de noise, um repúdio ou repulsa dos sons que aqui se escutam. Traduzido para miúdos, ou se ama ou se odeia. Mas este facto é também a sua maior virtude - e a tábua de salvação, se é que a há, para este texto: não poderão acusá-lo de ser imparcial porque não há forma de exultar Pânico-Ambiente musicalmente falando, mas apenas sensorialmente. Que é como quem diz, se não gostavam de noise antes, não é por eu ir escrever bem sobre o disco que vão passar a gostar, e não é por eu escrever bem sobre o disco que me poderão acusar de ser imparcial. É noise, porra, como é que se pode ser parcial em relação a ele?

A meu ver não existem maus discos de noise porque tal é impossível; o ruído será sempre o ruído. Pode é acontecer que alguns sejam mais aborrecidos que outros, um pouco como estar em Alcântara à espera de ouvir os sons de um trânsito caótico amiúde máquinas em construção e ser ao invés brindado com uma calmaria pouco propícia ao estado de alma em que nos encontramos por acordar às oito da manhã. O noise, para quem gosta de noise, é um escapismo - a visceralidade do som contrastando com o estado geral das coisas do dia-a-dia. Há quem lá chegue porque ouviu demasiado black metal na adolescência e precisava de algo ainda mais extremo, e há quem lá pare porque ao ligar o rádio acha o ruído branco mais interessante que qualquer estação ou programa.

Posto isto, Pânico-Ambiente nunca poderia ser um disco aborrecido porque está lá tudo: ruído branco, explosões súbitas, algumas melodias sintetizadas e escondidas (especialmente em "Pânico", e o noise enquanto género também nos cai no goto porque contamos sempre encontrar alguma pepita de ouro no meio da montanha, ensejo que os My Bloody Valentine trouxeram para algum mainstream com a holocaust section de "You Made Me Realize", cuja génese está mais ou menos nesta ideia) e, sobretudo, uma forma de escaparmos a tudo: o som sobrepondo-se ao som, a música enquanto volume e não enquanto corpo - não querendo com isto dizer que noise é só volume, e remeto-vos para o disco homónimo dos Mesa Ritual, editado o ano passado, e para a sua própria resenha. Pânico-Ambiente é um grande disco (de noise) porque nos capta sobremaneira as atenções durante meia hora, durante a qual o mundo desaparece. E não é tão bom quando é assim?
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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