DISCOS
Kalenna / Dawn Richard
Chamber of Diaries / Armor On EP
· 29 Mar 2012 · 00:25 ·
Kalenna / Dawn Richard
Chamber of Diaries / Armor On EP
2012
Auto-edição / Our Dawn Entertainment
Kalenna / Dawn Richard
Chamber of Diaries / Armor On EP
2012
Auto-edição / Our Dawn Entertainment
A vida após as Dirty Money ou o R&B naquilo que tem de mais vital.
Apesar da figura tutelar do Diddy pairar sobre as ambições conceptuais do brilhante Last Train to Paris, foi a presença das Dirty Money que acabou por elevar o álbum a um estatuto superior e unificar as pontas soltas dessa demanda. Com as vozes da Dawn Richard e da Kalenna a surgirem como um necessário contraponto narrativo ao discurso do Diddy, Last Train to Paris e a sua sequela - LoveLove Vs. HateLove - reuniam todos os argumentos para que se adivinhasse um futuro para o duo. Apesar dos indícios de uma carreira a solo para a Dawn Richard, com a edição de A Tell Tale Heart, o carisma da entidade Dirty Money era tal que não faria muito sentido prever a dissolução do duo numa fase tão prematura. O que veio a acontecer. Sem tempo para chorar o fim ou especular sobre aquilo que poderiam ter sido enquanto Dirty Money, ambas as senhoras trilham agora o seu caminho a solo, fora da alçada da Bad Boy.

O que, tendo em conta aquilo que se pode ouvir em Chamber of Diaries e Armor On até poderá ter sido pelo melhor. Apesar de existir um apelo irresistível nas Dirty Money no modo como duas personalidades distintas se entrelançavam de modo a fazer dessa irrisão o meio para chegar a uma voz consensual e com uma estética plenamente delineada, a separação permite-lhes fazerem-se ouvir de modo mais vincado. Com espaço para solidificar as suas características, como se de um manifesto de intenções se tratasse, mas sem projectar uma persona arrancada a ferros no vácuo. Até porque se lhes reconhece identidade : em termos gerais, a Kalenna a assumir uma faceta mais agressiva perante a maior sensualidade da Dawn Richard.

E essa é uma das razões pelo qual nem sempre Chamber of Diaries dessa primeira habita o lado certo da mixtape-enquanto-cartão-de-visita. Não que precise de sobreviver às custas de investidas exageradas em torno das suas particularidades ou de melindres mal amanhados (lembrem-se da Keri Hilson) mas pontualmente, a tendência para exacerbar ligeiramente a sua vivência aggro acaba por escancarar aquilo que se quer envolto numa certa subtileza. Ou o modo como a Kalenna se atira um pouco a todo o lado, numa ambição vagaente over-the-top. O rap de “6000 Sistas” é o exemplo mais flagrante dessa tentativa, num momento irrisório que poderia muito bem ter-se ficado pelo leak invisível. O que também faz de “Put It in the Bag” uma canção algo falhada na sua obstinação pelo swag às costas de uma melodia tensa e baixos agrestes – apesar de uma referência esperta ao Macaulay Culkin como loser. “Love Rock” também é facilmente esquecida.

Como o são as presenças de rappers anónimos que vão aparecendo ao longo de Chamber of Diaries, como se fossem necessários para credibilizar a Kalenna enquanto artista, por comparação. Um mal menor, no entanto, até porque excluindo os momentos acima citados, existem canções mais do que suficientes para ombrear com os melhores momentos das Dirty Money. “Matte Black Truck” acima de todas, com a Kalenna a discorrer uma narrativa em que conduz bêbeda ao som de Wu-Tang Clan como catarse para a rejeição, sobre uma batida elástica e sintetizadores ácidos na sequência dos momentos mais club friendly de Last Train to Paris. “Pain & Alcohol” regressa a essa temática sob a forma de uma slow jam incandescente, com breaks de bateria maiores do que a vida a anunciar uma redenção inatingível.

No campo da contenção, “Party & Bullshit” assenta num sintetizador enevoado e bateria rarefeita com direito a interpelação da “Love in this Club” do Usher, enquanto “The Motto” é – novamente - reveladora de que os instrumentais do Drake têm apenas o propósito de servir outros que não ele – mesmo que seja um momento meramente lúdico da mixtape. Como contraponto, as duas primeiras canções - após a intro - atiram-se para a pista de dança envoltas em néon, sem forçar o crossover dance/r&b de modo ostensivo. Mais para o fim, “Morning After” serve-se dos mesmos truques para reflectir sobre o dia depois da festa de modo brilhante – como se celebrasse a desilusão.

Apesar de alguns tiros ao lado e de uma opção algo estranha pelo processamento abusivo da voz da Kalenna – o que se alguns casos se justifica pela coerência narrativa, outros há em que parecem um capricho de produção supérfluo - Chamber of Diaries segue na linha de mixtapes de estreia recentes – e de download gratuito - como Sailing Soul(s) da Jhené Aiko ou SpeakHer da Nikkiya, enquanto objecto artístico coerente e focado nas virtudes da persona que o encarna. Mais do que antecipar um futuro, projecta um presente.

Um primeiro passo que a sua ex-companheira na Dirty Money já tinha dado o ano passado com A Tell Tale Heart. Disco que, apesar de momentos sublimes como “Me, Myself and I” ou “Let Love In” sofria de alguma falta de cuidado na apresentação, e servia como indicador da grandiosidade que Armor On vem agora confirmar plenamente. Anunciado como um EP apesar dos seus 40 minutos de duração, Armor On vem evidenciar todo o potencial de estrela da Dawn Richard numa obra de produção imaculada e quase visionária no seu tratamento rítmico onde até a intro e a outro têm o seu devido lugar. “Call Of Hearts” a anunciar a chegada da já conhecida “Black Lipstick” com um kick subterrâneo insistente, que se vem a enredar na tarola quase-jungle que eleva esta última para além de quase toda a produção r&b recente – com excepção no Miguel e, talvez, no Fisticuffs. Sobre tudo isto, a voz da Dawn paira com a elegância necessária para assumir para si as atenções sem se descolar do tecido harmónico que a sustenta.

A segurança de quem sabe conduzir uma canção num equilíbrio perfeito entre o instrumental e o modo como este serve a sua voz. A tal questão de uma personalidade que – tendo em conta esta entrevista, por exemplo – confirma tudo aquilo que de bom se possa dizer sobre a ex-Danity Kane. “Bombs” é uma investida mais banger com o shout out de linhas como ”I go grenade / y'all go Granada / I'm going Newton on this niggas, cowabunga” a darem origem a uma ponte onde a sua voz toma uma candura que se vai repercutindo em camadas. Pelo refrão entram chicotadas de cordas, mas é a Dawn que está no comando. Tangencialmente, “Automatic” é uma afirmação de identidade onde o processamento vocal em ”Sorry if you think / If you think I'm automatic” procura desmentir essa linha, com a consciência clara dessa mesma contradição. Inteligência e wit digamos.

Também já conhecida, “Change” é um assomo de brilhantismo a todos os níveis : a melodia a projectar um tropicalismo difuso, com a Dawn a flutuar sobre um ritmo que se vai adensando de modo subtil sem nunca assumir um papel dominante. Há aqui qualquer coisa da crew Fade to Mind nos seus momentos mais hipnóticos, mas duvido seriamente que eles algum dia conseguissem criar uma canção assim. “Heaven” aproveita alguns desses resquícios rítmicos para assumir uma dimensão mais dançável mas igualmente apaziguadora, a ter revelação absoluta com a entrada de umas cordas que, mais do que elevar a canção para um plano épico, introduzem um novo pulso no fluxo, como se fosse a única conclusão possível.

Dança essa que tem em “Faith” o exemplo acabado daquilo que a Kelis e a Kelly Rowland tentaram com os seus últimos álbuns, sem sucesso. Num acumular de tensão constante sobre teclas house, “Faith” vai-se alimentado desse movimento até explodir a 40 segundos do fim. Sinceramente, ainda tenho algumas dúvidas em relação a esse momento de euforia, mas tendo em conta tudo aquilo que o precedeu deixo-o passar incólume. Após a celebração, um par de baladas : “Scripture” a exalar toda a sensualidade Sade – sem os tiques jazzy - numa produção aparentemente planante, apesar do arsenal harmónico denso; “SMFU” revista à sombra da nebulosidade intangível da profética “Drunk”. “The Battle” a fechar o círculo de um EP sublime, com uma daquelas melodias que poderia tocar ad infinitum.

Exemplar na criação, com um alinhamento perfeito no encadeamento dos temas, Armor On aparece como um trabalho plenamente delineado na forma e no conteúdo. Ressalva para o trabalho de produção incrível do Druski – conhecido pelo seu trabalho com a LaToya –, capaz de dar corpo à visão da Dawn Richard, numa simbiose perfeita dessa dualidade - produtor/intérprete. Magnífico a todos os níveis, Armor On é uma obra futurista sem querer ser o futuro de nada. Apenas a melhor coisa saída de qualquer campo musical no presente.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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