DISCOS
DJ Marfox | Photonz
Eu Sei Quem Sou | WEO / Chunk Hiss
· 17 Jan 2012 · 23:52 ·
DJ Marfox | Photonz
Eu Sei Quem Sou | WEO / Chunk Hiss
2012
Príncipe


Sítios oficiais:
- Príncipe
DJ Marfox | Photonz
Eu Sei Quem Sou | WEO / Chunk Hiss
2012
Príncipe


Sítios oficiais:
- Príncipe
Tag-team de luxo na estreia desta editora lisboeta.
Nascida muito recentemente em Lisboa da união de esforços entre gentes respeitáveis da promotora Filho Único e da Flur, a Príncipe é uma editora dedicada à documentação e divulgação daquilo que de mais urgente se vai passando na música de dança – seja ela techno, house, kuduro e demais miscigenações incatalogáveis – feita no burgo. Empreitada de respeito num campo de acção que, e apesar de esforços continuados de editoras como a Iberia ou (mais recentemente) a One Eyed Jacks, permanece ainda numa esfera algo insular para quem se encontra fora do epicentro dos acontecimentos. Capaz de açambarcar o gueto e o condomínio de luxo ao ritmo de um banger a Príncipe estreia-se hoje com duas edições respeitáveis que, lançando pistas para essa identidade multiforme, abrem as hostilidades com toda uma boa onda = bom gosto que urge ir acompanhando.

Quando, há uns anos atrás, “Yah” rebentou um pouco por todo o lado, seria natural especular que toda essa atenção derivasse num digging em torno do género para além das piadas fáceis de gente como o Hélder ou o Sebem. Manifestação mais visível de algo que fervilhava secretamente, os Buraka Som Sistema serviam como a constatação mais óbvia, se bem que pouco elucidativa e estupidamente limitada (havia ali um crossover algo plástico), de um período efusivo tanto aqui como nas urbes angolanas. Um pseudo-boom protagonizado aqui tão pertinho por nomes como os N´Gapas, Ritchaz & Keke e Kotalume (entretanto hibernados/desaparecidos) e a ter réplica nos bairros de Luanda através de gente como os Lambas, Vagalume ou DJ Znobia. Tudo parecia confluir nessa dança e estávamos todos muito mais felizes, mas passado algum tempo é inevitável constatar um torpor geral no género (a militância dos beefs enquanto palco primordial ou o sectarismo preponderante da “cena” são algumas das razões). Até porque, para além de um site de partilha como o (adormecido) Kuduromatic, a Akwaaba e alguns artigos esporádicos no Ghetto Palms pouco se tem debatido/pensado/difundido neste campo. E esta crítica não é o espaço indicado para isso.

Ainda assim, e porque estamos longe de ver a coisa morrer (apesar de algumas indicações em contrário, algo precipitadas), o kuduro continua ser palco para um contigente de produtores (e por arrasto óbvio, mc´s) revolverem os códigos genéticos da música africana. Nascido nesse epicentro de acção, o DJ Marfox tem-se desde sempre afirmado como um dos principais obreiros nos avanços formais, estilísticos e sociológicos do género, através de clássicos subterrâneos como “Mãe Gorda” ou “Funk em Kuduro” e em inúmeros mp3´s dispersos (ouça-se a compilação DJ´s Di Guetto para comprovar tudo isso). Uma escolha mais do que adequada para os quadros da Príncipe, de um nome que tem vindo a reescrever continuamente as regras do género com profunda identidade.

Enquanto manifesto de intenções, Eu Sei Quem Sou é revelação disso mesmo. Quatro malhas onde a batida é suprema, numa intricada rede de percussões para um impacto físico/anímico totalizante. “Eu Sei Quem Sou” a enfatizar todo o ambiente de festa improvisada, assentando arraiais nas matrizes do género e conduzindo esse grito por uma daquelas melodias infecciosas que associamos logo ao DJ santomense. “BIT Binary” dispensa os apetrechos melódicos para assumir a batida como peça fulcral, pecando talvez por essa obstinação quando observada numa luz que não a da pista de dança (aqui entenda-se qualquer espaço onde a festa aconteça).

Apesar de todo o valor intrísseco a essas duas malhas, é no lado B que se encontram os momentos mais fascinantes de Eu Sei Quem Sou. “Mitologia” adopta uma faceta quase hi-tech (mas não asséptica) no modo como se deixa levar para territórios mais alienantes. O reverb a aprofundar todo um sentimento ameaçador - que tem nos estalos de sintetizador que surgem em fundo o seu catalisador principal – num banger negro que sujeita a dança à paranóia num comprimento de onda simbólico com as produções mais galvanizadoras do Grime primordial ("Pow" obviamente, mas também coisas como "Raw 2 da Core" ou as primeiras produções do Skepta). “Pensamentos” é ainda mais surpreendente na progressão, com os resquícios do UK Garage numa via misteriosa que parecia perdida ali pelo primeiro álbum dos Horsepower Productions ou algumas remixes de Zed Bias circa 2002, e que acto contínuo carregam toda a imprevisibilidade das síncopes 2-step/soca das dub mixes de Bump & Flex dessa altura, numa visão kudurista.

Saltando para o segundo disco, não deixa de ser com ironia trágica que WEO / Chunk Hiss seja editado alguns dias depois da morte do grande António Cunha. Um dos principais propulsores da música de dança em Portugal através da mítica Kaos - ao qual aproveitamos para deixar um sentido R.I.P. - cujo legado assombra este disco de modo quase beatífico. Mais do que um acesso revisionista/reverente, o que estreia dos Photonz na recém-criada Príncipe propõe é uma interpretação profundamente personalizada e com todo o carinho possível desses tempos áureos da rave no início dos 90´s que os próprios nunca viveram, mas cuja paixão perdura subliminamente no aqui e agora que têm vindo a criar de forma fascinante. Depois dessa declaração de amor que foi a mix para a Fact portuguesa e uma tangente a todo esse dramatismo eufórico com “Xabregas”, estas duas malhas aprofundam essa mesma linhagem sem desvirtuar as propriedades do duo lisboeta.

Díptico colossal, tanto “WEO” como “Chunk Hiss” se estendem para a barreira dos 10 minutos num contínuo impoluto de refracções várias sobre o lado mais glorificante do techno : a batida electrizante do jack a sustentar a inundação de bleeps e efeitos, numa explosão iminente que se perpetua progressivamente no seu próprio movimento. Código genético partilhado que se diferencia nos seus propósitos, com “WEO” a soar mais espacial e extática por comparação. Os gritos enquanto chamamento galvanizador sobre uma torrente harmónica quase espectral no modo como parece vir de nenhum lado e chegar a todo o lado em simultâneo, com a devida noção de espaço que estas coisas pedem.

Tendo em conta a poeira cósmica que a precedeu, “Chunk Hiss” acaba por se assumir mais terrena, nem que fosse pelos sons de gaivotas e ondas que “assombram” a malha, como que a projectar alguma realidade num paraíso que não existe. Caleidoscópica no modo como vai sobrepondo diversas coordenadas melódicas e rítmicas num dilema psicotrópico, inventa toda uma nova noção de festa estival. Ou seja, mais um tomo majestoso de um work in progress sempre premente por parte dos Photonz.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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