ETC.
DVD
Sunshine For Shady People
Arab On Radar
13 Mai 2009 13:45
Sunshine For Shady People
Arab On Radar
2008
Three One G
Sunshine For Shady People
Arab On Radar
2008
Three One G
Memorial dos concertos de Arab On Radar, suposta instituição do underground norte-americano, é sombra de tudo o que foi e não volta a ser.
Os Arab On Radar são uma daquelas bandas que marcou muito mais aqueles que assistiram aos seus concertos do que aqueles que passaram ao lado (por opção/repúdio ou impossibilidade). Isso até não surpreende, se entendermos que as origens dos Arab On Radar residem na mesma cidade de Providence, que deu a conhecer ao mundo nomes “todos poderosos” como Lightning Bolt ou Black Dice, duas das instituições que maior infâmia garantiram à capital de Rhode Island. A epidemia que internacionalizou Providence fez-se essencialmente de concertos lendários, de um entusiasmo acelerado pelo boom da internet e também através de uma série impressionante de lançamentos a cargo da Load Records (que, em apenas três anos, revelou Lightning Bolt, Sightings e os Pink and Brown de John Dwyer). Sem que marcassem particularmente as sensibilidades musicais da Europa, os Arab On Radar, entretanto findados, ainda hoje vivem protegidos por uma facção norte-americana que acredita ter visto neles um dos expoentes do underground de viragem de século. Sunshine For Shady People, documentário de 30 minutos focado nos Arab On Radar, procura efectuar o ajuste de contas possível em relação à reputação dos “Devo radioactivos” como banda impressionante ao vivo.

Habitualmente badalada como bicho indescritível, a fórmula dos Arab On Radar não deixa de ser simples: baixo, guitarra e bateria sustêm um arcaboiço no wave, até que a doença e caos se imponham, com uma guinada de direcção, que empurra tudo para o canto do hardcore esquizofrénico. Apesar do seu autismo, a estética rende. O pior é mesmo quando os registos colhidos no Arkansas ou em Bakersfield parecem mais um sketch de Jackass do que um sólido souvenir de ruído que apetece trazer para casa. Conforme se verifica, o vocalista Eric Paul perde muito mais tempo a fazer poses patetas do que a chiar a sua voz de bruxa má. É claro que um dos propósitos principais dos Arab On Radar é também irritar e, com isso, alienar um grande público para fidelizar outro menor. De resto, as trivialidades que acompanham as entrevistas e os excertos de concertos cabem num rasgo Twitter: vómito nas paredes de um urinol, gatos que trepam chaminés, prados alemães filmados de modo “artístico”. Entulho.

Sabe-se à partida que esta cozinha árabe deve ser servida no seu ponto mais absurdo, seja através de um concerto num ringue de boxe ou com quatro bonecos suspensos por cima da banda, mas existe algum capricho desnecessário na distorção técnica de uma música que já nasce distorcida. Sunshine For Shady People sofre muito com essa saturação: força a estranheza e faz com que a música pareça a voz de um entrevistado anónimo no noticiário da TVI; cita o reportório dos Arab On Radar como um acervo bem mais repetitivo do que na realidade é. O melhor será desviar apetites para a reedição que une Queen Hygiene II e Rough Day At The Orifice num só disco, porque quem lá esteve sabe como foi. Os restantes podem apenas consultar fraca réplica em Sunshine For Shady People.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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