ENTREVISTAS
Matana Roberts
Dança Matana
25 Abr 2012 23:28
Matana Roberts nasceu em Chicago, terra de onde emergiram alguns dos maiores vendavais do jazz criativo, e é hoje em dia uma das vozes mais enérgicas da cena contemporânea. Num percurso que atravessou fronteiras de disciplinas, já colaborou com projectos como Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, Burnt Sugar, Godspeed You! Black Emperor ou TV on the Radio. Herdeira da tradição jazzística livre, já soube encontrar a sua própria voz e, além de se ter notabilizado ao longo dos últimos anos como notável instrumentista (no saxofone alto), tem liderado os seus próprios projectos, lançando discos com alguma notoriedade - destaque para The Chicago Project ou Live In London. O seu mais recente álbum, Coin Coin - Chapter One: Gens de couleur libres, revela Matana Roberts num pico de criatividade, combinando diferentes estilos e linguagens numa entrega quase espiritual. O disco recebeu o aplauso de todo o mundo (ou de quem o ouviu, pelo menos) e agora vamos ter oportunidade de ver Matana ao vivo. No dia 28 de Abril a saxofonista vai até à ZDB, em Lisboa, apresentar a sua música essencial, num concerto que contará com a primeira parte de Filipe Felizardo; no dia 29 Matana Roberts apresenta-se ao vivo no Porto, no Oporto Gallery Hostel.
Como começou por se interessar pela música? Houve alguma influência familiar?

Nem por isso. A minha família apreciava muito as artes, mas nunca me encorajaram para ser artista. Eles apenas me encorajaram para fazer o que eu quisesse e para nunca desistir. Os meus pais sempre ouviram muita música, nomeadamente música experimental. Por isso, eu cresci a ouvir muita música, mas nunca me incentivaram para seguir carreira na música. Os meus avós eram grandes fãs de ópera, teatro e ballet e costumavam levar-me frequentemente a esse tipo de eventos.

Porque escolheu o saxofone como instrumento?

Comecei por aprender clarinete, antes de tudo. Só mais tarde é que passei para o saxofone, por sugestão de um professor, que achava que eu devia experimentar o instrumento. Mas o meu objectivo inicial era tocar clarinete numa orquestra.

Quem são as suas influências no saxofone?

Não serão muitos saxofonistas. É claro que existiram pessoas como Fred Anderson, Lin Halliday, Von Freeman- saxofonistas de Chicago que foram muito marcantes. Mas confesso que sou muito mais inspirada por escritores, fotógrafos, poetas ou artistas visuais que contam histórias através dos seus trabalhos que me evocam sons. Um autor contemporâneo de quem eu gosto muito é o Paul Auster.

Qual foi a importância de ter nascido em Chicago e a influência da cena jazz local?

Como mencionei anteriormente, em parte fui influenciada pelos músicos mais velhos de Chicago. Mas algumas coisas da cena jazz simplesmente não me interessavam. Na altura em que estava a crescer e a desenvolver o meu gosto, havia muitas tipos de músicas a desenvolver-se e eu acabei por ser influenciada por muitas coisas diferentes. Chicago tem uma história maravilhosa e eu estou orgulhosa de fazer parte dela.

Porque motivo se mudou para Nova Iorque?

Primeiro mudei-me de Chicago para Boston, e depois é que fui para Nova Iorque. Inicialmente fui para Boston estudar, com uma bolsa de estudo simpática. Depois surgiu uma excelente oportunidade de ir para Nova Iorque e decidi arriscar.

Para si foi importante ter feito parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians)?


Nesta altura sei que a música me chamaria e que havia de seguir este caminho de qualquer modo, independentemente das variáveis. Mas gostei de sentir a gentileza que sempre me deram ao longo destes anos. Não sou, desde há bastante tempo, um membro activo da organização, mas agradeço imenso o carinho que muitos dos seus membros me têm demonstrado frequentemente.

Olhando em retrospectiva para o seu trabalho, como o enquadraria na tradição do jazz e da sua evolução?

Eu não colocaria o meu trabalho na tradição do jazz. Compreendo a importância da tradição e aprendi muitas coisas interessantes, mas não acredito que o meu trabalho se encaixe na "tradição". Mas será definitivamente influenciado por ela em algumas situações, naturalmente.

Um dos seus primeiros projectos foi o trio “Sticks and Stones”, com Josh Abrams e Chad Taylor. Qual foi a importância desta banda para a evolução da sua música?

Essa foi uma grande banda. Essa banda marcou o momento quando eu me comecei a sentir aceite pelos meus pares e senti que tinha espaço para crescer. Foi algo especial. Mas foi também algo muito diferente para cada um de nós e duvido que agora fossemos capazes de recriar essa ligação excepcional, uma vez que todos nós mudámos muito. O Josh e o Chad são músicos incríveis, estou muito contente de os conhecer e de ter trabalhado com eles.

Fora do universo do jazz tem colaborou com projectos musicais muito diferentes, como Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, Godspeed You! Black Emperor ou TV on the Radio. O que ganhou com estas parcerias?

Posso dizer que ganhei algumas das amizades mais significativas da minha vida.

Um dos seus grupos, “The Chicago Project” conta com a participação de músicos oriundos de projectos como Prefuse 73 ou Tortoise. Porque escolheu estes músicos vindos de áreas tão distintas?

Todos estes músicos são, antes de tudo, improvisadores. Eu cresci a tocar com estes músicos em Chicago e por isso quis registar esse período da minha vida em disco.

Embora seja genericamente chamado de “jazz”, o disco Coin Coin - Chapter One: Gens de couleur libres combina diferentes estilos e linguagens. Que mensagem pretende transmitir com este disco?

Para mim o Coin Coin não é jazz, é muito mais, mas acho que ainda não há um nome para isso... É uma exploração sonora do século XXI que tenta incorporar diferentes ideias, estilos e sons. A palavra “jazz”, que continua a ser para muita gente o melhor “guarda-chuva” para esta música, por isso aceito. Como principal mensagem este disco será um lembrete da excepcionalidade do espírito humano, da bondade humana e transcendência, independentemente de raça, classe, género ou credo. A minha querida mãe denominou o álbum como "um monumento musical à experiência humana”.


Como tem recebido as reacções sobre o disco Coin Coin - Chapter One: Gens de couleur libres? Ficou surpreendida por esta aclamação global?

Sinceramente não presto muita atenção a essa questão. A aclamação não é algo que eu tenha procurado, não pretendo qualquer espécie de aceitação deste trabalho. Apenas tenho tentado expressar as minhas ideias e pensamentos da forma mais honesta que consigo.

Quais são os planos para o próximo álbum da série Coin Coin?

Boa questão. Infelizmente, ainda não tenho uma resposta clara neste altura. Mantenham-se atentos!

Além deste projecto, quais são os seus planos para os próximos tempos?

Continuar a escrever música, a gravar e a editar discos. Tentar encontrar uma melhor forma de sobreviver. Nesta altura sinto que estou a chegar a uma altura de mudança, o que é bom. A mudança é sempre uma coisa boa.

Sente que é mais difícil sobreviver num mundo da música geralmente dominado por homens?

Penso que não. Julgo que seria igualmente difícil fazer aquilo que eu tento fazer se eu fosse um homem.

O que poderemos esperar dos seus concertos em Portugal? Vai tocar material do álbum Coin Coin?

Posso garantir que será uma experiência sonora muito sincera e honesta. Neste momento ainda não sei ao certo aquilo que irei tocar, mas posso dizer que será uma verdadeiro momento de amor. Eu adoro partilhar a minha música com as pessoas. Esta é, na verdade, a maior alegria da minha vida.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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