ENTREVISTAS
BnP
O triunfo da mediocridade
∑ 12 Abr 2012 ∑ 01:32 ∑
Existe um momento em que uma pessoa a todos os n√≠veis banal se pode tornar gigante aos olhos de outras: quando pega numa guitarra e solta a sua raiva c√° para fora. Independentemente da dist√Ęncia que possa existir, o sentimento de derrota, de revolta, de inabilidade para mudar o que existe de errado √© comum a todos aqueles que se apanharam no meio deste estabelecimento prisional a que chamaram sociedade contempor√Ęnea. Da√≠ que fa√ßa tanto sentido, ideologicamente - musicalmente, com a chegada da Internet, faz ainda mais - falar de uma pequena banda punk Neo-Zelandesa como se falaria das Portuguesas, Brit√Ęnicas, Norte-Americanas. Estes s√£o os BnP, de Christchurch, e est√£o t√£o fodidos com a vida como n√≥s. E isso resultou num grande disco. As maravilhas do correio electr√≥nico possibilitaram esta entrevista com Stephen Nouwens, vocalista. Entrevista que acabou por n√£o ser nada med√≠ocre.
Começo pela pergunta do costume: quem são os BnP e quando se formaram? Algum dos membros já tinha tocado nalguma banda?

Os BnP s√£o uma organiza√ß√£o formada em Christchurch, 2009. Foram criados exclusivamente para acabar com os comportamentos burgueses do p√ļblico Neo-Zeland√™s em geral. Enquanto estes v√£o caminhando atrav√©s de mentes salpicadas de p√≥zinhos brilhantes, trabalhando sob a ilus√£o do bom comportamento, n√≥s sentamo-nos para uma refei√ß√£o de auto-deprecia√ß√£o e esp√≠ritos sortidos. Quando eu conheci os membros dos BnP, eles tocavam numa banda local, os The Lonely Harris Club, que faziam covers dos Brian Jonestown Massacre.

Deveremos nós, pessoas medíocres, ser optimistas e tentar escapar a essa mediocridade, ou deveremos abraçá-la e estarmo-nos a cagar para o status quo?

Medíocre: de qualidade ordinária ou moderada; nem bom nem mau; quase adequada; indistinta; vulgar; pedestre; dia-a-dia; insignificante. Viver é resignares-te a este estado de alma. O optimismo é para os que estão iludidos. A maior parte passa as suas vidas a tentar sair do fosso. O fosso tudo engloba, consome-te, à tua hipoteca, aos teus filhos, aos teus três carros, à merda dos teus ténis, ao teu gato. Persegue-te aonde quer que vás, lembrando-te de que não existe saída. A insatisfação com o status quo é a negação do teu "eu".


Onde e quando foi gravado o Welcome To Mediocrity? Planearam disponibilizá-lo gratuitamente à partida ou decidiram fazê-lo mais tarde?

O Welcome To Mediocrity foi gravado na All Plastics, que √© uma f√°brica renovada de pl√°sticos onde o Stephen (voz), o John (guitarra) e o Rhett (bateria) vivem todos os dias. No que toca a ter disponibilizado o disco gratuitamente, encaro-o mais como um programa de consciencializa√ß√£o p√ļblica. Di√≥genes disse-o da melhor maneira: ¬ęOutros c√£es mordem os seus inimigos, eu mordo os meus amigos para os salvar¬Ľ.

Mesmo que esteja enraízado no punk, notam-se influências bastante diferentes. Como é o vosso processo criativo? Quantos whiskeys bebem antes de escrever uma canção?

A maior parte da escrita é feita por etapas. Normalmente faço um resumo das minhas análises a vários aspectos da sociedade (um exemplo é a "Meating People", uma analogia sobre como seremos tratados como comida da forma como nós a tratamos), e dou-o depois ao John Harris e ao Ben Dodd (baixo) que me ajudam a moldar o caos em ruído.

Este √© o vosso segundo disco: lan√ßaram o I¬īm In You no ano passado. Enquanto banda, delineiam algum plano ou seguem a onda e gravam o que querem quando querem?

O I¬īm In You era uma colec√ß√£o das primeiras can√ß√Ķes que escrevemos quando √©ramos s√≥ dois, o John Harris na guitarra e eu com um farfisa. √Ä medida que fomos adicionando e perdendo membros afin√°mo-nos progressivamente. Houve um enorme espa√ßo vazio ap√≥s termos gravado o I¬īm In You, em que n√£o demos nenhum concerto e sucumbimos √† estagna√ß√£o que nos rodeia a todos. Percebendo que n√£o existir uns BnP era prejudicial √† sociedade, escrevemos o Welcome To Mediocrity em semanas, depois grav√°mo-lo.

Tendo ouvido ambos graças ao Bandcamp, o Welcome To Mediocrity parece-me em geral um álbum mais negro. Houve alguma razão em particular para esta mudança subtil no som?

√Č mais uma representa√ß√£o honesta de uma opini√£o formada.

A "Meating People" √© uma das minhas can√ß√Ķes preferidas do Welcome To Mediocrity, tem esta cena meio tribal. Qual √© a melhor maneira de cozinhar uma perna humana?

Eu prefiro comê-la crua, agarrando o osso. Enquanto está viva. Sei que o Ben Dodd prefere em sopas e com alho-porro. O John Harris gosta delas ligeiramente fritas, em que ficam com um lado mais moreno por contraste com a poça de sangue. O Jamie Stratton (guitarra) não pode comer porque possui uma estrutura etérea. O Rhett Copland embrulha-as em alumínio, e depois assa-as para que a medula se entranhe na carne tenra.


Considerando que utilizam uma série de samples de filmes neste disco, para qual gostariam de escrever a banda-sonora?

Para o Gritos Mortais, de 1995. Se n√£o conheces, √© uma adapta√ß√£o para filme de um conto do Phillip K. Dick, "The Second Variety". Rob√īs criados por rob√īs que t√™m a forma de crian√ßas e que te querem matar, aos teus amigos, √† tua fam√≠lia. Tamb√©m h√° esferas com serras que se movem pelo solo (e que fazem um barulho parecido com gritos), e que saltam e te cortam os membros para que usem o teu material gen√©tico em f√°bricas subterr√Ęneas. A faixa de abertura seria intitulada "Mata e Come os Teus Amigos".

Considerando que, provavelmente, ninguém de Christchurch irá ler esta entrevista depois de eu a traduzir, qual é a primeira pessoa que abateriam enquanto circulassem por aí aos tiros a ouvir a "Cleanliness"?

O Rhett, o Grant Freeman. O John optava por um skinhead qualquer. O Jamie pelo Sam Miller. O Ben pelo Brian Feary. Eu era quem quer que visse primeiro.

Quem faz os vídeos que vocês colocam na vossa página do Facebook e qual é a cena com o Mythical Maidens? Já agora, se a Elizabeth Bathóry fosse viva, seria candidata ao título de Miss Universo?

Sou eu que fa√ßo os v√≠deos utilizando o que quer que me interesse na altura. Sim, o Mythical Maidens era um interesse predominante nos primeiros v√≠deos. Outros temas incluem damas-de-ferro, arder na fogueira, ratos, lesmas, mortos, New Wave francesa, espadas, ideias dist√≥picos, druidas, vudu e o Charlie Manson. Se a Elizabeth fosse viva hoje, n√£o precisaria de um t√≠tulo que a fizesse sentir v√°lida enquanto membro belo da ra√ßa humana. Tudo o que ela fez foi usar o seu poder e influ√™ncia para assassinar camponeses e banhar-se no seu sangue, enviando igualmente os seus serventes para a forca (mereceram-no). Poucas pessoas na vida t√™m o luxo do prazer imoral sem que sejam identificadas como dissidentes. Quando ela se erguer do t√ļmulo, pode muito bem ficar na minha casa.

Sei que est√£o prestes a partir em tour pela Nova Zel√Ęndia, √© a primeira enquanto BnP? H√° alguma hist√≥ria memor√°vel de concertos pr√©vios que queiram partilhar?

√Č a primeira tour dos BnP pela Nova Zel√Ęndia. Hmm, hist√≥rias memor√°veis... fomos convidados para substituir uma banda, os The Cribs, que n√£o vieram √† nossa cidade com medo dos plebeus. O espa√ßo era grande e as setenta pessoas que vieram s√≥ faziam sobressair o vazio. O John estava t√£o b√™bedo que n√£o conseguia p√īr a guitarra ao ombro sem ajuda, sem contar com o facto de que eu estava completamente mocado. Toc√°mos uma can√ß√£o, e depois, o John e eu concord√°mos que seria melhor se ele sa√≠sse do palco. Tent√°mos tocar mais uma enquanto o John nos insultava antes de ser expulso do espa√ßo. Tamb√©m foi o √ļltimo concerto do nosso ex-baixista no pa√≠s, connosco. Tamb√©m toc√°mos num festival de gastronomia quando est√°vamos a come√ßar. Pagaram-nos com uma tina cheia de √°lcool, mas odiaram todas as can√ß√Ķes que toc√°mos. Queriam Lenny Kravitz, demos-lhes can√ß√Ķes sobre incesto.


Existem mais bandas como vocês na cena punk Neo-Zelandesa ou devo acreditar no Andrew Barry e não me chatear a ouvir mais nada?

Nunca ouvi outros BnP. Eis algumas bandas que entendem a mediocridade: God Bows to Math, Pylon, Ralph, Palace of Wisdom, Small Claims Court.

Qual é o pub favorito do Harry em Christchurch?

O Shroeders. ¬ęA beber a cerveja de amanh√£, hoje¬Ľ.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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