ENTREVISTAS
Os Passos Em Volta
A Cafetra da Paixão
11 Fev 2012 17:02
Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade é a mesma que encontrou o punk e a cultura DIY quando jovem imberbe à procura de aventura sónica e um antídoto à apatia estudantil generalizada. Hoje tal como dantes, esse fascínio por aqueles que combatem os seus próprios fantasmas recorrendo à linguagem universal do riff e à terapia do ruído permanece. E é por isso que se gosta tanto da Cafetra. São jovens, abraçaram essa mesma cultura, ligaram os amplificadores e trouxeram uma dose enorme de boa disposição, barulho rock n´ roll e a eloquência de miúdos educados pela internet e pela street em doses iguais. Ora homenageiam Herberto Hélder ora elogiam Lil´ B sem elitismo que o valha. Os Passos Em Volta não são os salvadores do indie nacional, não são poster children do Do-It-Yourself e da messthetics, nem são putos que não tocam um caralho: são eles próprios. Para o bem e para o mal. Mas quando se é desta forma genuíno, só pode ser para o bem. Aqui fica a entrevista possível com João Marcelo, alias Éme.
Não acham má onda mandar o Sócrates para o caralho agora que ele praticamente já não se encontra entre nós?

Essa canção não tem tanto a ver com o Sócrates ou com alguma mensagem política. Foi uma coisa que se gritou nos Santos Populares de 2010 e a canção é sobre esses Santos Populares, ou seja, não estamos a mandá-lo para lado nenhum, só reproduzimos o que se passou.


O que têm achado das reacções ao disco, tanto da parte de quem tem adorado como da parte dos haters?

Nós temos todos opiniões diferentes sobre isso. Claro que não curtimos muito haters (embora achemos alguma graça ao hating), e não damos importância a isso. Do mesmo modo, também não damos muito cred a quem fala bem só por falar, embora seja fixe saber. Não fazemos isto a pensar nisso, e já estávamos à espera que as opiniões divergissem.

Há alguma história especial por detrás da “Petesar” que o mundo deva conhecer?

Não, tudo o que é verdade está na canção.

Até Morrer, pela sua sonoridade, funciona quase como um cruzamento entre o lado mais rock da Cafetra e o que está mais virado para a canção folk – ruidoso e calmo em quantidades semelhantes, capaz de conter num só CD canções como a “Acustiquinha” e a “De Repente…” sem soar estranho. A ideia era escrever um álbum que servisse como um conluio das diferentes vertentes musicais da editora? Um disco, digamos, mais puramente pop do que o que fazem nos restantes projectos?

Este disco tem temas que vêm de alturas diferentes e, como tal, não há nenhuma ideia por trás deste álbum, é só um conjunto de cenas que fomos juntando. Possivelmente acontece o inverso: como esta é uma das primeiras bandas (e uma das que engloba mais gente), as ideias foram-se ramificando para as outras bandas e projectos.

As cenas da Cafetra sempre me pareceram algo que, não o enfatizando, não se parece preocupar com o “erro”, mas o disco d´Os Passos Em Volta soa muito mais trabalhado e pensado do que o que já ouvi dos outros grupos. Foi uma forma de responder às críticas básicas de que «não sabem tocar», ou de que «não são a sério»...?

Não, claro que o erro não é importante, mas se fazemos um disco tentamos fazê-lo bem. Não foi preocupação nossa responder a nenhuma crítica, fizemos o álbum que queríamos e isso é o mais fixe. Quanto a essas críticas ainda as recebemos.

Os Passos foram a primeira banda da Cafetra, e são agora também a primeira a lançar um LP, depois de a editora ter “explodido” com os EPs de Pega Monstro, Éme, 100 Leio, etc.... sentem que é o zénite do trabalho que têm vindo a desenvolver? Que o primeiro LP da Cafetra não podia ser senão d´Os Passos?

Na verdade, a primeira banda foi Kimo Ameba. Os Passos em Volta apareceram pouco depois. O primeiro LP da Cafetra teria de ser de uma dessas bandas. Sendo que o de Passos ficou pronto primeiro, saiu primeiro.


Também se aliaram à Mbari, que passou a distribuir os vossos discos. Como surgiu esta ligação?

O João Santos (Mbari) ouviu por via do B Fachada e gostou.

O que transparece da forma como trabalham – e já o disseram nalgumas entrevistas - é que vocês não se importam muito que vos vejam e tratem como “putos”... É uma forma de descartarem qualquer tipo de responsabilidade, e assim poderem continuar a fazer o que vos apetece sem preocupações?

Não pensamos muito nisso. Não é nada bacano ser tratado como puto quando querem tirar partido disso para não nos levarem a sério, mas fora isso é mais fixe ser novo que velho.

Juntamente com os Kimo Ameba, vão dar o vosso próximo concerto em fevereiro. Visto que a noite é só vossa e num espaço como a ZdB, o que é que se pode esperar que não tenha acontecido noutros concertos? Acham “bizarro” irem lá tocar, como disse o Quintela?

É fixe ir tocar a um sitio onde estamos habituados a ver grandes concertos. Prognósticos, só no final do jogo, como diria o Diego Armés.


Que momentos destacam deste ano que passou, em que a Cafetra se deu a conhecer ao mundo?

Pega Monstro no Milhões de Festa, o fundraising da ´fetra no teatro da Barraca. E termos feito a primeira parte do R. Stevie Moore.

O que é que podemos esperar d´Os Passos, e da Cafetra em geral, para 2012?

Já saiu o [EP] de Go Suck a Fuck, em janeiro. Prevemos lançamentos de Kimo Ameba, Pega Monstro, Smiley Face, Éme, 100 Leio. E muitas outras coisas que se nos apareçam a frente. De resto, continuar a tocar, gravar e editar.

Qual é o vosso poema preferido do Herberto?

Isso é cada um o seu, todos d´Os Passos em Volta: Mary - "O Grito", Petesar - "Os Comboios Que Vão Para a Antuérpia", Junória - "Cães e Marinheiros", Jules - "A Teoria das Cores", Éme - "Estilo"
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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