ENTREVISTAS
P√£o
Fermento
∑ 13 Jun 2011 ∑ 23:50 ∑
Tiago Sousa, Pedro Sousa e Travassos formam os P√£o, um OVNI na cena musical portuguesa. O projecto est√° ainda fresquinho: apareceram no in√≠cio deste ano, mas j√° t√™m dado nas vistas. Foram revelados no Festival Rescaldo, j√° passaram por salas ic√≥nicas como a Casa da M√ļsica e a Galeria ZDB e at√© j√° actuaram num festival de jazz - o Jazz Ao Centro 2011. Juntam saxofone tenor, piano, harm√≥nio, electr√≥nica anal√≥gica e diversas percuss√Ķes; combinam a liberdade da improvisa√ß√£o, com sonoridades ambientais e a sujidade do "drone", numa am√°lgama inigual√°vel. Pedro Sousa, o saxofonista, revelou-nos o fermento de que √© feito este P√£o.
Como surgiu este projecto?

O projecto surgiu de um ensaio semi-falhado, com o Tiago Sousa e outra forma√ß√£o no Trem Azul. O Travassos estava a trabalhar at√© tarde e ouviu o ensaio todo. Na sequ√™ncia disso ele sugeriu um ensaio com n√≥s os dois. A parte peculiar disto foi n√£o termos falado sobre a m√ļsica que dali ia sair. O primeiro ensaio aconteceu e a empatia foi imediata. N√≥s agora estamos apenas a tentar refinar a "farinha".

Porquê este nome estranho, "Pão"? Quem o fermentou, qual é a explicação?

O nome foi o Travassos que sugeriu. Antes do aparecimento de P√£o no seu formato actual, eu e o Travassos j√° toc√°vamos juntos em contextos mais noise. Depois de os Flu terem acabado n√≥s ainda ensai√°mos umas vezes em duo e ainda cheg√°mos a tocar ao vivo mais ou menos neste formato. Eu tocava guitarra com electr√≥nicas na altura e a m√ļsica era essencialmente diferente mas cheg√°mos a fazer umas grava√ß√Ķes caseiras a que se deram o nome de P√£o. Mas depois acabou por ficar tudo em √°guas de bacalhau at√© √† chegada do Tiago Sousa quase um ano depois.

Como surgiu esta combina√ß√£o instrumental t√£o at√≠pica: saxofone tenor, piano, harm√≥nio, percuss√Ķes, electr√≥nica anal√≥gica?

Naturalmente que a combinação invulgar de instrumentos em pão provêem das nossas particularidades enquanto indivíduos que colaboram entre si. O Tiago por exemplo é um pianista "at heart" mas que se interessa por vários instrumentos diferentes, chegando a trazer flautas e uma guitarra para os ensaios. Eu próprio no início senti-me tentado em usar este projecto como uma desculpa para voltar a usar electrónicas, mas acabei por descartar a ideia para poder no processo aprender mais com o desafio de utilizar o saxofone neste tipo de formação e mesmo porque apesar das nossas óbvias diferenças esse trabalho já é feito pelo Travassos.


O vosso eixo é a improvisação total? Que regras definem previamente?

N√£o temos regras pr√©-definidas. N√£o criamos nem estabelecemos previamente uma estrutura. N√≥s apenas falamos do que gost√°mos ou n√£o a seguir a um ensaio ou concerto, e como nos damos com regularidade, falamos sobre tudo e mais alguma coisa, esse mais alguma coisa inclui m√ļsica. Por vezes ouvimos algumas faixas que possamos ter gravadas e assinalamos particularidades que achamos interessantes ou n√£o.

Como preferem que seja classificada a vossa m√ļsica?

N√£o fazemos a m√≠nima ideia de como a classificar para al√©m do facto de ser m√ļsica improvisada. Mas n√£o somo ing√©nuos, sabemos que tem caracter√≠sticas que podem ser associadas, por exemplo, a m√ļsica drone ou ambiental, mas acaba por serpentear os g√©neros. H√° momentos que me parece que estou a tocar rock psicad√©lico.

Ao vivo a vossa m√ļsica tem vivido uma tens√£o constante, mas quase sempre contida. √Č uma caracter√≠stica que pretendem manter?

De todo, n√≥s achamos que a tens√£o e a conten√ß√£o que se v√™ em P√£o acaba por servir prop√≥sitos diversos. Em parte o atractivo de esta est√©tica √© o transe e a sensa√ß√£o de transcend√™ncia que se assume em n√≥s quando tocamos. Mas somos o que tocamos (e o que comemos ouvi dizer), e tudo depende de uma enorme complexidade de viv√™ncias e sensa√ß√Ķes que se manifestam antes de tocarmos. Os √ļltimos ensaios por exemplo t√™m sido bastante agressivos. No plano geral √© como o rebentar de um onda que tinha vindo a crescer dentro do grupo, no plano mais individual tem partido das frustra√ß√Ķes que temos sentido no dia-a-dia, principalmente no plano pol√≠tico-social, que tanto nos azucrina a cabe√ßa. De qualquer das formas √© uma catarse e √© bem vinda, acabando por tamb√©m dinamizar a est√©tica do grupo.

Que referências musicais comuns se encontram nos três elementos de Pão?

O gosto pela m√ļsica: Todos n√≥s somos mel√≥manos na nossa singularidade. Apesar de nem todos amarmos as mesmas coisas (O Tiago por exemplo n√£o sente grande afinidade com IDM, enquanto eu sou um doente disso) todos temos referenciais √≥bvios, amamos os The Necks ou o Erik Satie, o Beethoven e o Mats Gustafsson, rematado por uma qualquer banda de noise. Acho que o elemento mais comum entre os tr√™s √© capaz mesmo de ser o jazz, mas mesmo por a√≠ √© d√≠spar e vago.

Quando ser√° editado um disco? J√° h√° ideias definidas neste sentido?

J√° est√° gravado um disco. Na realidade grav√°mo-lo mesmo no in√≠cio da forma√ß√£o de P√£o e a m√ļsica evoluiu bastante desde ent√£o. O nosso objectivo agora √© podermos lan√ßar este trabalho para podermos come√ßar a pensar j√° no seguinte. Quando ser√° editado √© no entanto, uma inc√≥gnita.


Entretanto j√° tocaram com o Filipe Felizardo. Est√£o abertos a colabora√ß√Ķes regulares com outros m√ļsicos?

Claro que sim, mas temos tido cuidado neste aspecto. Andamos a tomar um passo de cada vez e a experimentar com m√ļsicos e instrumentos diferentes e a compreender o que acontece √† m√ļsica do trio no processo. Temos j√° um pr√≥ximo concerto marcado em que consideramos fazer um convite a um outro m√ļsico.

Sentem que fazem parte de uma nova fornada da m√ļsica experimental nacional? Dos diversos projectos nacionais que se t√™m evidenciado, com quem sentem mais afinidades?

Bem, √© relativo. O Travassos, por exemplo, j√° est√° nisto h√° mais tempo do que eu. E o Tiago apesar de s√≥ agora se estar a familiarizar mais com o acto de tocar m√ļsica improvisada, j√° toca h√° largos anos e chegou a ter uma label que promovia em parte o mesmo. Portanto o mais rec√©m chegado aqui sou eu. Da minha idade espec√≠fica temos por exemplo o Pedro Lopes e o Gabriel Ferrandini, que al√©m de serem grandes amigos nossos, s√£o, a meu ver, m√ļsicos incrivelmente talentosos e aprecio na grande maioria os projectos em que eles se envolvem. Mas sentimos grande admira√ß√£o por v√°rios outros m√ļsicos da cena nacional, que se tem mostrado (deve ser da crise) fervilhante. Podemos enunciar v√°rios grupos, nomes ou entidades como as guitarras do Norberto Lobo, do Pedro Gomes, Filipe Felizardo, Guilherme Canh√£o (os Sunflare s√£o em si uma banda do cara√ßas) e o Peter Shuy. Ou o Sei Miguel e os m√ļsicos que o acompanham, e o trabalho de David Maranha e do Manuel Mota, Andr√© Gon√ßalves, os Osso, ou os Olive Troops SOS. Pessoalmente sinto tamb√©m falta de bandas como os Suchi Rukara, sinceramente acho que fazem falta no panorama nacional bandas com aquele tipo de energia pura e trashy. Enfim, a lista n√£o √© intermin√°vel mas √© extensa sem d√ļvida.

Quais s√£o os vossos planos para o futuro?

Aqueles clich√©s: gravar outro √°lbum assim que poss√≠vel e planear futuras colabora√ß√Ķes, que neste momento n√£o passam de ideias (mas daquelas engra√ßadas) no papel. Claro que uma tour seria ouro sobre azul, mas neste momento o mais importante √© se calhar concentrarmos-nos a editar o nosso primeiro trabalho e aproveitar a ocasi√£o para olear o grupo o mais poss√≠vel. De seguida pensa-se no resto.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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