ENTREVISTAS
Four Tet
Expectativas Estáticas
· 10 Abr 2005 · 08:00 ·
Kieran Hebden – conhecido por Four Tet - é o Peter Pan da electrónica actual. Conduz a sua fantasia por roteiros ora sugestivamente sinuosos ora mais directos, mas sempre demonstrativos da sua enorme facilidade em colorir o que é apenas alegórico. Four Tet pinta por números a sua matemática fragmentária. Everything Ecstatic promete atordoar preconceitos e detonar – a partir de dentro - as expectativas de quem espera deste disco uma sequela lógica para Rounds. O Bodyspace esteve à conversa com um criativo convicto e ficou a saber das suas impressões acerca de Everything Ecstatic, Animal Collective e pastelaria portuguesa.
Comecemos então pela questão da ordem. Everything Ecstatic será lançado em Maio. Que podemos esperar do disco?

Será mais selvagem que o disco anterior (Rounds). Envolve muito mais energia. Gravei-o muito rapidamente: em apenas dois meses. Procurei evidenciar uma faceta mais apaixonada e frenética, à imagem do que tenho vindo a fazer nos últimos espectáculos. (pausa para reflectir) Algumas pessoas afirmam que é o mais alegre dos meus discos, mas creio que, neste caso, a emoção seja bem complexa. Talvez não seja alegria, mas sim euforia. O tipo de euforia que as pessoas retiram de... Fui muito influenciado por música religiosa e espiritual. Não tanto pela religião por si só, mas pelo sentimento que proporciona. Quando alguém compõe nesses termos, quase parece que a música lhes permite falar com os deuses ou evadirem-se da dimensão planetária. Músicos como Sun Ra, Lee Perry, George Clinton. Queria explorar esse tipo de energia no meu disco.

Lee Perry é absolutamente espiritual.

Sim, muito.

Tal como grande parte da música Dub.

Sim.

Tal como referiu, a concepção do disco foi bem mais rápida que a dos anteriores.

Sim, talvez. A gravação em si foi muito rápida. Porém, a gestação de ideias a incluir no disco levou anos a acontecer. O processo de gravação foi rapidíssimo, talvez porque procurei fazer deste um disco desenfreado e não tão organizado. Parti em busca do caos.

Presumo que este seja bem mais caótico que Rounds e Pause, certo?

Encontra-se mais próximo do primeiro disco - Dialogue - nesse aspecto, mas os sons explorados são bem diferentes. Será perceptível uma maior influência do techno.

Talvez se esteja a referir ao techno de Detroit, não?

Sim, até certo ponto.

Desta vez, a que fontes de “sampling” recorreu?

Todos aqueles sons “folk” e todas aquelas guitarras acústicas desapareceram. Tendo escutado imensa música Gamelan - indonésia e javanesa. Ando muito interessado em sons de sinos. Comprei um Vibrafone assim que comecei a trabalhar no disco. Usei vários “samples” captados a partir de Vibrafones. Acabei por incluir muitos sinos.

Podemos associar a ausência de elementos acústicos a uma demarcação da folktronica - etiqueta que o persegue?

Sim, definitivamente. Estava a ficar cansado de tudo isso. As pessoas parecem apenas procurar marcas da influência da folk na minha música. Por mais que esse género me agrade, também estou ligado ao hip-hop, jazz, soul e tudo isso. Queria explorar uma maior variedade de géneros. Tentei evitar a folk, de forma a que as pessoas voltassem a ter uma percepção mais abrangente do que faço.

Tendo em conta que é constantemente associado à génese daquilo a que chamam de folktronica, espera chocar a imprensa com este novo disco?

(muito reticente) Sim... Gosto de pensar que as pessoas não julguem que vou lançar o mesmo disco duas vezes. Nunca o fiz. Parece-me que o público, atendendo ao tipo de artista que sou, espera de mim um disco diferente a cada novo lançamento.

Continua a usar o mesmo tipo de software? O Audiomulch e o Cool Edit Pro?

Sim, não me canso deles. Não mudei absolutamente nada. Sinto-me confortável com o meu método de trabalho.

Isso comprova a sua aversão a estúdios?

Não me parece adequado ao tipo de música que faço. Caso estivesse a trabalhar com uma banda, faria mais sentido. Neste caso, não serve de muito.

Ambos os telediscos “My Angel Rocks Back and Forth” e “No Mosquitoes” parecem incorporar elementos relativos ao Japão, tal como pontualmente acontece na sua música. Até que ponto se sente influenciado pelo Japão?

Isso acontece porque trabalhei com um realizador japonês (Woof Wan-Bau), que imediatamente incutiu isso nos teledisco (Kieran refere-se apenas ao autor do teledisco “My Angel”). Encontro imensa inspiração a cada vez que regresso ao Japão. Parece ser um lugar “superior” e magnificamente divino.

Presumo que seja um excelente lugar para comprar discos, não é verdade?

Claro. Existe um imenso interesse por todos os tipos de arte. Aprecio a forma como parecem estar sempre tão atentos ao detalhe. É um sítio que me inspira de facto, mas a razão que levou à inclusão dos tais elementos japoneses prende-se essencialmente ao facto de ter escolhido um realizador japonês.

Até que ponto isso se aplica à música?

Não me parece que tal aconteça. Esse impacto já se desvaneceu. Existe uma maior presença da música indiana. Sou meio-hindu. Creio que essa influência predomine sobre a da música japonesa. Mas gosto imenso de viajar. É muito importante para mim ter uma percepção do mundo e de tudo o que nele habita.

Acredito que seja tremendamente inspirador, certo?

Acho que porções de tudo o mundo encontram, de uma maneira ou de outra, encaixe na minha música.

Sei que vai colaborar com o lendário baterista Steve Reid (que chegou a colaborar com James Brown e Miles Davis, entre muitos outros) num par de espectáculos. Fale-nos disso.

Adoro aquele tipo jazz baseado no improviso de um duo. Sinto-me fascinado pelos discos que combinam a música de um baterista e de um saxofonista. Assisti a uma série de concertos desse tipo e aprecio essa forma de fazer música. Foi isso que me inspirou a tentar algo que combinasse apenas bateria e electrónica. Especialmente porque me atrai a ideia de manipular electrónica em tempo real e improvisar. Falei disso a um amigo, que trabalha numa loja de discos em França, e sugeri organizar um concerto nesses moldes. Ele entrou em contacto com o Steve Reid, que, desde logo, demonstrou entusiasmo. Encontrámo-nos e demo-nos bem. Os concertos estão marcados para daqui a umas semanas e é suposto serem baseados no improviso. Não faço ideia de qual será o resultado.

É óbvio que será diferente de um concerto habitual...

Vamos apenas dar dois concertos e ver como será. Estou entusiasmado, já que será algo completamente diferente.

Que recordações guarda dos cinco dias de digressão com os Radiohead em Portugal?

(algo surpreendido) Foi maravilhoso. Tive a oportunidade de visitar Portugal e Espanha. O tempo estava óptimo. A comida também. Tive direito a assistir aos Radiohead todas as noites. (risos) Adoro uns bolinhos de Portugal feitos à base de natas e açúcar.

(ciente de que se tratava do tradicional Pastel de Belém / nata) Tipo folhado, com as natas e ovos no meio?

Sim, isso mesmo. Comi centenas desses! Assistir aos Radiohead, comer peixe... Foi perfeito.

Eles estavam a promover Hail to the Thief.

Na verdade, creio que ainda estavam a trabalhar no disco. Foi muito interessante assistir a esses concertos, enquanto parte do processo de formação de Hail to the Thief.

O público quase endoideceu quando, no último concerto, tocaram o “Creep”.

(risos)

Não estive nesse concerto, mas fui ao primeiro e adorei. Rounds estava pronto nessa altura? As suas performances exerceram algum tipo de influência na feitura desse disco?

A influência dessas performances foi gigantesca, tendo em conta que Rounds estava a meio da sua conclusão. Foi por essa altura que me estava realmente a adaptar ao laptop usado nas prestações ao vivo, e foi aí que começaram a surgir imensas ideias. Foi nesses espectáculos que coloquei à prova algumas das ideias que tinha alinhadas para Rounds. Acabaram por se conjugar naquele ambiente. Reconheço a importância desses tempos.

Como decorreu a digressão com o Animal Collective? Sung Tongs foi eleito pelo Bodyspace como o melhor disco do ano passado. Qual a tua opinião em relação a esse disco?

Actualmente, o Animal Collective é uma das minhas bandas favoritas. O Sung Tongs é absolutamente incrível. É, sem sombra de dúvidas, um dos melhores discos do ano passado. A digressão conjunta ocorreu num período anterior ao lançamento de Sung Tongs. Nessa altura, conhecia apenas Here Comes the Indian e convidei-os para um digressão pelo Reino Unido. Eles aceitaram instantaneamente o convite. Ao longo dessa digressão, tocaram músicas de Sung Tongs, ao mesmo tempo que as trabalhavam. Foi uma excelente digressão. Fiquei com a impressão de que o público estranhou a associação. Apesar dos discos de ambos os projectos muito diferirem entre si, são capazes de formar um consenso quando inseridos num mesmo contexto. Chegado o momento, Sung Tongs foi lançado e correspondeu a tudo o que eu esperava do Animal Collective. É um disco brilhante. Eles começaram a gravar um novo álbum há uma semana.

A sério? Essa revelação deixará muitos dos nossos leitores expectantes. Estou certo de que irá gerar algumas expectativas, mas não creio que isso irá afectar o desempenho da banda. Esclareça-me acerca da versão de “Iron Man”, dos Black Sabbath...

Compus essa música há uns três anos.

Verdade?!

O lançamento dessa compilação (um tributo aos Black Sabbath em que também participam os Matmos, entre outros) foi tão moroso que só agora irá ser lançada. Consiste numa adaptação muito livre de “Iron Man”. Não tem nada a ver com o original, mas uso algumas das melodias.

Tal como acontece com grande parte das suas remisturas. Que influência exerceram os Sabbath no seu trabalho enquanto Four Tet e inserido nos Fridge?

Alguma, no caso de Fridge. É uma daquelas bandas que espevita o gosto pela música. Lembro-me de estar a aprender a tocar a guitarra e comprar discos de Black Sabbath, Led Zeppelin e Jimi Hendrix. Era a vertente psicadélica a que mais me interessava e a que encontrei em discos como Paranoid.

Ou o colossal Master of Reality...

Sim, por aí. Aprecio os mais “alucinados”.

Como encara - em retrospectiva - os anos Fridge?

Foram fantásticos. Começámos a tocar quando ainda frequentávamos a escola, tínhamos quinze anos e andávamos tão furiosos com tudo. Éramos tão novos... Ainda hoje continuamos a compor música em conjunto.

Estou certo de que os processos são completamente dispares...

Sim. É interessante dar conta da ingenuidade dos primeiros anos dedicados à música. Há um certo encanto ingénuo a que ninguém parece conseguir voltar após o primeiro disco. Fico satisfeito por saber que os primeiros anos dos Fridge estão bem documentados. Quem desejar, pode sempre apurar a sua noção da minha ingenuidade ao rever esse período.

Late Night Tales? Em que aspectos foi uma experiência enriquecedora? Tem noção de que o seu foi um dos mais apreciados capítulos da colecção?

Pediram-me que escolhesse uma série de discos da minha preferência e que me tivessem inspirado de alguma forma. Foi isso que fiz: misturei as faixas e pronto ficou.

Como conseguiu conjugar Manfred Mann e Gravediggaz? É inacreditável...

O meu gosto musical é muito eclético. Gosto de reunir diferentes tipos de música num mesmo objecto. Agrada-me que vários géneros se possam coadjuvar. Tinha a noção de que podia baralhar algumas pessoas, mas a minha intenção foi levar alguém que gostasse dos Gravediggaz a encontrar algum sentido em Manfred Mann, e o inverso. Gosto de brincar com a música dessa forma.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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