ENTREVISTAS
Pivot
24 Batidas cardíacas por segundo
13 Out 2008 14:21
Haverá certamente quem já sinta saudades daqueles filmes dos anos 80 que convenciam os putos de que era possível criar uma nave espacial usando apenas peças de máquinas de lavar. A saudade que move os Pivot é a que sentem desde que arranharam o espaço pela via dos primeiros contactos com a música (fosse essa composta por Jean Michel Jarre ou outros autores de bandas-sonoras marcantes). Ao segundo álbum, O Soundtrack My Heart, o trio híbrido australiano, formado por dois terços rock e um outro ligado à máquina laptop, armam constelações que aglomeram as referências musicais de cada um, partindo dos mestres obrigatórios e terminando com a cabeça bem mergulhada no rock biónico dos Battles. Não admira pois que este segundo longa-duração conheça o sempre honroso selo da Warp. Dave Miller, o operador responsável pelas manobras do laptop, aceitou partilhar algumas páginas do diário de bordo mantido pelos Pivot numa altura em que o céu deixou de ser o limite e passou a ser o lar.
Esclarece-me primeiro um pouco acerca de como os Pivot se juntaram.

Os Pivot começaram por ser um conjunto com cinco membros. Após o lançamento do primeiro disco Make Me Love You, editado apenas na Austrália, três membros saíram e eu entrei. Eu andava a fazer alguns concertos de improvisação alucinada com o Laurence, antes de me juntar à banda, e, depois de ter tocado certa vez com os Pivot, como substituto de um dos membros, eles convidaram-me para entrar na banda.

Qual foi habitualmente o ritmo das gravações do O Soundtrack My Heart? Viviam perto uns dos outros quando começaram a desenvolver o álbum? Ou, em vez disso, tentaram um modo de “total concentração” para aproveitar o pouco tempo comum?

Eu vivi em Londres durante praticamente todo o tempo reservado à produção do disco e os irmãos Pike (Laurence e Richard) estavam em Sidney. O álbum foi gravado em cerca de 6 meses, mas só estivemos juntos em estúdio durante 5 dias ou perto disso. Todo o restante tempo foi dedicado a edição, overdubs e pós-produção em Sidney e Londres. Acredito que foi um óptimo plano de trabalho porque, devido à diferença de fuso horário, era bem provável que a qualquer altura do dia alguém estivesse a trabalhar no disco ou a formar ideias nesse sentido. Levou isso a que o terminássemos com razoável rapidez.

Gosto da facilidade que algumas faixas demonstram na transição entre estilos, e mais especificamente daquele momento de breakdance que surge repentinamente na “In the Blood”. Achas que as dinâmicas no disco ganharam com o facto da soma dos vossos gostos resultar numa combinação quase perfeita??

Sim, acho que o disco assenta realmente nessa soma. O nosso gosto colectivo varia de tal forma que acaba por ser um desafio somar as partes sem que essas sejam distinguíveis entre si. Um desafio em que fomos bem sucedidos desta vez.

Tento às vezes calcular a quantidade de ideias que ficaram pelo caminho durante essa fusão de gostos. Achas que algum do material preterido pode ser depois repescado em diferentes versões e edits? Continuaste a voltar ao excesso à medida que entraste em digressão do disco?

Algumas das coisas foram de facto descartadas durante o processo, sendo que todas essas não nos pareciam merecedoras de desenvolvimentos. São várias as “versões” que vão surgindo durante o processo, e representam basicamente músicas no seu mais recente estado. É bem provável que venhamos a ter uma “porrada” de demos desta temporada… Ao vivo, gostamos de brincar com os diferentes sons de cada música previamente gravada, mesmo que raramente recuperemos essas velhas “versões”. O objectivo é mesmo olhar em frente.

© Glen Wilkie

Que lições, acumuladas enquanto tocaste a solo, te parecem ter sido mais úteis como preparação para o que fazes agora com os Pivot?

(reticente) Provavelmente a parte mais improvisada das minhas actuações a solo foi o que mais estimulou as aptidões que uso agora nos Pivot. A capacidade de baralhas as coisas, baralhar a estrutura de canções que as pessoas reconhecem, mas mantendo tudo a um nível interessante e reconhecível para mim e para o meu público.

Acreditas que, em geral, as pessoas já ultrapassaram a aquela noção que estabelece o músico atrás do laptop como o menos esforçado na banda? Eu recordo-me de assistir ao Four Tet numa primeira parte de Radiohead e de algumas pessoas na plateia dizerem que ele estava ali a divertir-se com um jogo qualquer de “treinador de futebol” para PC.

As pessoas não ultrapassaram essa noção, de todo. Atrevo-me mesmo a dizer que apenas uma pequena percentagem das pessoas fazem uma pequena ideia do que estou a fazer em palco. É óbvio que isso também depende do tipo de público. Eu tenho microfones que transportam até ao meu laptop o som das vozes, bateria, teclados e guitarras durante o concerto e manipulo tudo isso ao vivo gerando samples e efeitos. Mantém o fluxo de dinamismo para nós, mas interrogo-me às vezes acerca de quantas pessoas se aperceberão do que se está a passar. Temos feito uma cover dos Talking Heads que engloba simultaneamente cinco linhas de percussão e quatro linhas de guitarra. Ou seja, com apenas um guitarrista e um baterista em palco, somos capazes de fazer essa multiplicação através de samples transformados em loops. É bastante complexo tentar explicar a alguém que não entende muito de computadores até onde vai a capacidade dos mesmos, mas o que importa isso? Se as pessoas gostarem, não é necessário saberem como funciona. Se quiserem saber, podem-me perguntar após o concerto…

Qual é a cover de Talking Heads que mencionaste há pouco? Achas que a complexidade instrumental dos Talking Heads é adequada à quantidade de loops que consegues combinar no computador?

É uma cover da “I Zimbra” do Fear of Music. Acho que uma versão dessa vai sair num sete polegadas para venda exclusiva em digressão. A instrumentação deles é obviamente muito diferente da nossa, mas é isso que a torna mais divertida de tocar. Para mais, essa música tem uma vibração completamente distinta do restante alinhamento, o que traz sempre mais gozo e uma certa descontracção à ocasião. Acaba por ser uma excelente demonstração dos milagres da samplagem ao vivo.

Fala-me da sessão nos estúdios Maida Vale. Como foi tocar num lugar tão lendário?

Foi fabuloso. Gravámos uma sessão para o programa Rob Da Bank da BBC Radio 1. Ficámos completamente honrados. O estúdio é incrível. O mesmo estúdio onde foram gravadas todas aquelas sessões do John Peel, além de tantas outras. Foi mesmo especial.

Grande parte dos sons no disco transportam um certo sentimento de “velha escola” que parece ser alimentado pelos três. Recordas-te de algumas escutas fortes que tenham sobrevivido até hoje desde o tempo em que tinhas sete ou oito anos?

O Richard e o Laurence lembram-se de escutar o Oxygene de Jean Michel Jarre na escola. Lembro-me também da banda-sonora de um icónico filme australiano surgido nessa altura: Gallipoli com o Mel Gibson. Recordo-me de escutar a banda-sonora d’ A Guerra dos Mundos na Escola Primária e de reparar que alguns dos miúdos ficaram com medo e pediram que parasse. (risos) Tudo isto é filtrado no disco, certamente. Não era nossa intenção replicar essas experiências, mas talvez escutar os seus ecos no disco.


Eu recordo-me do impacto que teve em mim o poster do Gallipoli quando eu tinha cerca de oito anos. Mantenho uma enorme curiosidade em relação a como os australianos reagem ao facto do Mel Gibson ser geralmente o fanático mais troçado em Hollywood. Como observas esse fenómeno do Mel Gibson na Austrália?

Eu acho que grande parte dos australianos deserdou o Mel Gibson quando ele começou a desenvolver um sotaque americano, o que será provavelmente a mais rápida forma de enfurecer os australianos. Eu acredito até que os miúdos nem saibam que ele é australiano. O destaque que mereceu em tempos foi desviado para o Heath Ledger, Nicole Kidman, Naomi Wats, etc.. Existem, afinal, outras estrelas de que os australianos se podem orgulhar nestes dias.

Enquanto tocavam na primeira parte dos concertos dos Sigur Rós, nunca ficaram fascinados com a ideia de que tinham um papel preparatório naquele crescendo clássico que eventualmente terminaria no avassalador clímax que é a oitava faixa do ( )? Os Sigur Rós continuam a terminar com essa? Continua a surpreender-te?

Eles terminaram com o novo single nos concertos que tocámos com eles na Austrália e França. Mas essa de que falas é também uma excelente música. Eles são fabulosos ao vivo.

Ainda equacionaram tentar qualquer coisa de especial para o lançamento australiano do O Soundtrack My Heart? Gosto de reparar nos singles e EPs exclusivos que a Austrália costuma ter.

O disco foi lançado um pouco antes na Austrália, mas não temos nada reservado ao mercado australiano por agora. O Japão recebe tudo o que é exclusivo agora…

Podias escolher dois discos predilectos do catálogo da Warp e justificar essa escolha?

Peel Session dos Autechre, porque me recorda o esforço mental que exigia tentar perceber como cada um dos sons parecia vir de uma força alienígena. Selected Ambient Works 2 do Aphex Twin, pelas memórias de escutas às 7 da manhã, ao regressar de festas de techno e house, quando era mais novo.

E o que nos reserva o restante ano em termos de Pivot?

Vamos andar em digressão pela Europa até Novembro. Acho que também teremos alguns concertos em Nova Iorque e Austrália antes do ano terminar. O Dezembro será para descansar, pela primeira vez este ano.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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