ENTREVISTAS
William Parker
Música Folk
29 Set 2008 17:30
Incansável contrabaixista, senhor de uma imensa criatividade, William Parker é uma figura de proa do jazz contemporâneo e talvez o mais importante executante do instrumento após Charles Mingus. Aluno de Jimmy Garrison, Richard Davis e Wilbur Ware, Parker reconhece o contrabaixista Ronnie Boykins, da Arkestra de Sun Ra, como referência importantíssima. Sempre envolvido em múltiplos projectos, o seu contrabaixo reflecte uma personalidade musical criativa, original, muito intensa. Além do contrabaixo, Parker tem-se dedicado a experimentar/descobrir instrumentos menos comuns - flautas, instrumentos de cordas e percussões, provindos de regiões distintas do globo como o Oriente, as Índias ou o Norte de África – integrando estes elementos na sua música, num raro percurso de multi-instrumentista. Aquando da sua passagem por Portugal, integrado no Folk Songs Trio de Victor Gama, William Parker falou-nos dos seus projectos e das suas ideias sobre música.
Como é que conheceu o Victor Gama e como é que se reuniram no projecto Folk Songs Trio?

Conheci o Victor Gama por intermédio do baterista, percussionista e compositor Guillermo E. Brown. Foi uma breve apresentação, ele falou-me do projecto que este criador de instrumentos de Portugal estava a desenvolver e disse-me que ele vinha à América. Havia um concerto marcado para o Tonic, em Nova Iorque, e então eu tive a oportunidade de participar nesse projecto, tocando contrabaixo e também outros instrumentos que tenho explorado ao longo dos últimos dez anos.

E porquê este nome Folk Songs?

O David Gunn, que neste projecto trabalha com o laptop, explicou-me que o Folk Songs Project envolvia arte e sons - sons recolhidos nas cidades onde actuamos, sons de pessoas a falar, crianças a brincar… Um dia perguntaram ao Louis Armstrong se ele gostava de música “folk”. Ele respondeu que sim, porque era música “for the folks”!

Num concerto do William Parker Violin Trio, em Braga, referiu o contrabaixista Ronnie Boykins como uma influência marcante para a sua música. Quem foram os primeiros músicos de jazz que o influenciaram a seguir a carreira na música?

Um dos primeiros discos que ouvi, em 1959, quando tinha sete anos, foi um disco do Duke Ellington. O meu pai punha o disco muitas vezes e eu ouvi-o muito, especialmente o “Diminuendo and Crescendo in Blue”, que foi gravado no festival de Newport, em 1956 ou 1957. Ouvia esse disco quase todos os dias e essa é uma das minhas primeiras memórias musicais, essa música de Duke Ellington, Paul Gonsalves, Johnny Hodges e Sam Woodyard… O Duke Ellington apresentava os músicos “on drums, Sam Woodyard” e nós ficávamos com os nomes na cabeça. E a voz do Duke Ellington, a forma como apresentava a banda, aquela elegância e a ideia maravilhosa de ter uma banda a tocar ao ar livre, em Newport, foram influências importantíssimas para mim… Nunca tive a tendência imitar o som do Duke Ellington, mas aquela ideia de que era possível criar um “som” foi determinante.

E o Henry Grimes foi outra influência importante para si?

Sim, definitivamente. Quem estivesse interessado no avantgarde via que o Henry Grimes aparecia em quase todos os discos! E ele era magnífico, estava fabuloso em cada disco, ele tinha muita presença, criava o seu espaço… Era música nova! E o que é que cada um tocava? Podiam manter o tempo, tocar “clusters” como o Lewis Worrell ou Donald Garrett, tocar rápido como o Gary Peacock no Spiritual Unity do Albert Ayler? Como é que se faz? Não existe uma escola, é preciso ouvir tudo para compreender todas essas possibilidades. E nesse sentido o Henry foi uma grande influência.

Em 2002 o Henry Grimes foi surpreendentemente encontrado vivo e o William ofereceu-lhe um contrabaixo. Esperava que ele tocasse da mesma forma como há quarenta anos?

Na altura não pensei nisso, mas sabe uma coisa? A música é como comer ou fazer amor, é uma coisa que se faz quase por instinto… É uma coisa que não se esquece. Passados uns anos podemos não fazer coisas tão bem como dantes, quando se é velho não se faz amor da mesma forma como quando se é jovem… Mas quanto a tocar música, acho que é possível continuar a fazê-lo ao longo dos anos. Na altura não pensei que ele pudesse tocar tão bem como o está a fazer agora, fiquei apenas contente pelo facto de ele estar vivo e disponível para voltar a tocar.


Um dos meus catálogos discográficos preferidos é a “Blue Series” da editora Thirsty Ear, dirigida pelo pianista Matthew Shipp, que faz um grande cruzamento entre jazz, electrónica, hip-hop e improvisação livre. O William Parker tem colaborado em inúmeros discos: David S. Ware, Spring Heel Jack, El-P, The Blue Series Continuum, Free Zen Society, etc. Como consegue colaborar com todas estas pessoas diferentes, em tantos estilos diferentes?

O mais importante é evitar que quaisquer circunstâncias afectem a música. Há uma similaridade naquilo que eu toco nos diversos discos, se se concentrar no som do meu instrumento vai ver que toco basicamente o mesmo tipo de música independentemente dos contextos. É uma coisa que acontece naturalmente. Não me preocupo em usar um estilo com esta pessoa ou outro estilo diferente com outra. Pode ter-se um estilo único, basta saber enquadrá-lo com os diferentes contextos musicais. Se alguém vai tocar música free e depois vai tocar bebop, precisa de conhecer bem o bebop, porque não vai ter a mesma liberdade.

O quarteto “Die Like a Dog” (composto por William Parker, Peter Brötzmann, Toshinori Kondo e Hamid Drake) fez furor nos anos 90. O ano passado o Peter Brötzmann disse-me numa entrevista que a banda tinha terminado porque o Toshinori Kondo estava mais interessado em electrónicas. Há alguma possibilidade de se voltarem a reunir?

Sim, claro. Actualmente continuamos todos a tocar e há sempre a possibilidade de nos reunirmos. Nem todas as bandas permanecem sempre juntas, às vezes é preciso parar. No nosso caso, todos gostamos uns dos outros, gostamos de tocar juntos e há sempre a possibilidade de isso voltar a acontecer.

Participou no disco Beyond Quantum com Anthony Braxton and Milford Graves, um disco que tem sido aplaudido por toda a gente e considerado como um dos melhores do ano. Como foi trabalhar com estes dois músicos?

Eu tenho trabalhado com Milford Graves desde 1984, em situações de trio, quarteto e duo. E é sempre uma grande experiência! Nós somos capazes de entrar no grooves que dançam dentro da música, e no topo da energia que alimenta a música. O Milford é um dos maiores músicos do mundo e um grande ser humano. Tenho tido a oportunidade de trabalhar com Anthony Braxton desde 2007, já fizemos concertos em duo e em trio, com Cecil Taylor e com Hamid Drake. O senhor Braxton é um compositor excepcional e um grande "arquitecto do som". Espero que um dia ele consiga materializar todos os seus brilhantes sonhos musiciais.

O seu disco mais recente chama-se Double Sunrise Over Neptune. Que ideias pretende transmitir com este disco?

Double Sunrise Over Neptune vem de uma ideia que eu chamo de "tonalidade universal", que consiste na ideia que todos os instrumentos e estilos musicais se podem misturar num único som, sem perda da vitalidade artística de cada um.

Vai tocar no próximo ano na Casa da Musica, no Porto, com o projecto The Inner Songs of Curtis Mayfield. O Curtis Mayfield foi uma referência importante para si, enquanto músico de jazz?

A música do Curtis Mayfield serviu de banda-sonora ao movimento dos direitos civis e acaba por ser universal, no sentido em que quando a ouvimos deixamos de pensar no estilo, é só música.

Para além do contrabaixo, o instrumento pelo qual é mais conhecido, toca ainda outros instrumentos (flautas ou percussões, entre outros). Considera-se um contrabaixista ou um multi-instrumentista?

É uma boa questão… Nunca pensei em mim como contrabaixista. Quando me perguntam “o que tocas?”, eu respondo “o contrabaixo”, mas vejo-me mais enquanto músico do que propriamente contrabaixista. Eu sei mais sobre música do que sobre contrabaixos, acontece que toco contrabaixo. Actualmente estou a trabalhar para chegar a um ponto em que me considere multi-instrumentista, ainda não cheguei lá, mas estou a trabalhar para isso. E não sei se algum dia serei um contrabaixista, mas sei que posso ser um músico.


Apesar da modéstia, é globalmente considerado como um dos mais importantes contrabaixistas das últimas décadas, talvez o mais importante depois de Charles Mingus. Como vê o papel do contrabaixo na actualidade e no futuro?

O contrabaixo é o navegador, é o leme do navio, o contrabaixo guia a música. O contrabaixo é o motor, o contrabaixo é pulsação, o contrabaixo é cor. O contrabaixo é o cérebro da música, o contrabaixo dá alma à música. O contrabaixo é o alicerce que suporta a melodia. E as possibilidades são ilimitadas, infinitas. Eu adoro o contrabaixo, adoro tocar o contrabaixo. Quando está presente é um dos instrumentos mais importantes na música moderna.

Mantém-se a par de novos músicos? Quem são os seus jovens contrabaixistas favoritos?

Bem.. Há tantos bons contrabaixistas no mundo e são todos óptimos. Eu não tenho acompanhado quem são os novos contrabaixistas… Não sei quem são os novos talentos, porque todos os dias há novos músicos a sair das escolas e todos a tocar bem… O ideal seria encontrar quem tocasse uma nota que pudesse mudar o mundo. Eu já ouvi muitos contrabaixistas tocar muitas notas e muitas coisas, mas ainda não ouvi nenhum que tocasse essa nota que pudesse mudar o mundo, que pudesse ressuscitar os mortos. Mas são todos óptimos e o meu coração está com eles, porque a vida não é fácil, especialmente na América, não é nada fácil!… No Iraque a vida não é fácil, na Índia não é fácil, no Bangladesh não é fácil… E até aqui em Portugal não deve ser fácil… A vida é dura para os jovens que estão a começar.

Pegando numa questão recorrente, como classifica a música que toca, “jazz”?

Antes de tudo, nem se sabe bem ao certo o que é o jazz. Se formos a uma loja de discos vamos à letra A e vemos Louis Armstrong, mais abaixo vemos Albert Ayler, vamos à letra S e vemos Archie Shepp, Sadé, vamos ao W e vemos Grover Washington, Stevie Wonder… São todos jazz! É preciso darmos atenção a todos os tipos de música e não só a um género específico. Não interessa ficarmos fechados num género fechado, temos é de preservar a nossa individualidade. Podemos fazer música electrónica, música punk, música africana, música indiana, fado, tango… e misturar tudo! Não interessa a separação por barreiras, porque é tudo som e é tudo válido, desde que funcione.

E no seu caso pessoal, como classifica a sua própria música?

Eu chamo-lhe música criativa, porque para mim a música criativa é aquela que durante a sua execução se procria e torna-se maior do que o seu embrião. Pode começar por “mmm mmm mmm mmm” [entoa a melodia de “My Favourite Things”], para o Coltrane esse era o embrião e a partir daí ele tocava durante três horas. A música criativa é uma música que, depois de iniciada, não se sabe onde vai parar. Não tem a ver com estilo, é sobre a música, até onde ela vai.

Acaba de editar um novo livro, chamado Who Owns Music?. De que trata este livro?

É apenas uma compilação de alguns dos meus escritos ao longo do tempo que uma editora alemão mostrou interesse em publicar. O título é uma das questões que eu coloco no livro: “quem é dono da música?” Quem a rotula, quem a define? Estou a pensar publicar outros livros, sobre outros temas, nos próximos anos. Quando os músicos morrem, ninguém é capaz de explicar a sua música correctamente, uma vez que ninguém compreende exactamente o que a nossa música é excepto nós próprios. Por isso cada músico deveria escrever um livro sobre a sua música. Tal como o Derek Bailey tem um livro, o Anthony Braxton tem um livro, o Leo Smith tem um livro… Porque se nós deixamos para os críticos e para os escritores, eles não compreendem, porque eles não nos perguntam aquilo que nós pretendemos dizer. É importante sermos nós, os músicos, a explicar a música que fazemos.

E já encontrou a resposta para essa pergunta, “quem é dono da música”?

Ninguém! Ninguém é dono da música!...
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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