ENTREVISTAS
David Maranha
Explorador sonoro
∑ 14 Mai 2008 ∑ 08:00 ∑
Depois de as √°guas terem acalmado, quisemos ir ao encontro daquele que assinou um dos discos portugueses mais bem falados de 2007. David Maranha assinou Marches of the New World e deu-se bem com isso. √Č visto como um dos exploradores sonoros portugueses mais prementes da actualidade, depois de uma actividade bem significativa nos Osso Ex√≥tico, um dos segredos bem guardados do experimentalismo portugu√™s. David Maranha gosta de falar sobre a sua m√ļsica - nota-se; v√™-se-lhe gosto quando tenta pensar no seu trabalho. Em entrevista colhida em contra-tempo (no sentido mais positivo de falar sobre algo que j√° passou h√° algum tempo), David Maranha lan√ßa um olhar num passado n√£o t√£o passado. Marches of the New World √© o tema da conversa mas at√© deu para vislumbrar o futuro.
Agora que a poeira assentou, o teu disco foi muito bem recebido numa s√©rie de publica√ß√Ķes nacionais e internacionais. Foi considerado um dos melhores discos do ano pelo √ćpsilon. Surpreendeu-te de alguma forma o alcance de Marches of the New World?

Estive a ouvir o disco recentemente e confesso que continuo satisfeito com ele. Isso para mim acaba por ser o mais importante. Não seria muito reconfortante ver as pessoas a gostarem muito de uma coisa que eu considerasse menor. Posto isto o CD acabou por não se distribuir da melhor forma fora de Portugal. Isso não foi muito positivo em termos de vendas, uma vez que geralmente a maior parte dos discos que edito se vende quase na totalidade no resto da Europa, nos Estados Unidos e no Japão. O que me surpreendeu desta vez foi o facto de o álbum ter suscitado mais interesse por cá. Isso é novo. Existe mais motivação quando sentes que existe algum interesse pelo teu trabalho.

Em vez de um disco solit√°rio optaste por um disco partilhado com uma s√©rie de m√ļsicos. Quais s√£o as diferentes do processo que culminou neste disco quando comparado com o teu trabalho nos Osso Ex√≥tico?

O som que eu pretendia era o de um grupo, com uma sec√ß√£o r√≠tmica de baixo, bateria e percuss√£o e uma massa sonora de √≥rg√£o, violino e violoncelo a funcionar em cont√≠nuo. Tentar fazer isto sozinho em overdub n√£o me pareceu o mais correcto. Gosto de tocar com outras pessoas e tive a sorte de trabalhar com m√ļsicos que fizeram o trabalho de certeza melhor do que eu faria sozinho. Quanto aos Osso Ex√≥tico n√£o temos propriamente um m√©todo e tamb√©m n√£o estamos interessados em cri√°-lo, mas √© tamb√©m trabalho partilhado, por mim, pelo Andr√© e pela Patr√≠cia.

Suponho que a improvisa√ß√£o desempenhe um papel muito activo nas tuas cria√ß√Ķes. Quando percebes que determinada explora√ß√£o √© edit√°vel, pode passar para um disco?

Recentemente n√£o tenho trabalhado com partituras. N√£o quer isto dizer que ande para ai a improvisar. Quando penso numa coisa nova a primeira coisa que imagino s√£o os timbres e os instrumentos que quero utilizar. Logo a seguir concentro-me na estrutura. Gosto de perder algum tempo nestas actividades e n√£o deixar qualquer espa√ßo para improvisa√ß√Ķes. Dito isto n√£o gosto de fechar as pe√ßas a 100% deixando se poss√≠vel algum espa√ßo para a interpreta√ß√£o.

Como √© que existe este disco ao vivo? Sei que fizeste a estreia da apresenta√ß√£o da vers√£o em banda completa do Marches of the New World na Casa da M√ļsica‚Ķ

Infelizmente n√£o pude contar com o Helena Espvall no violoncelo pois o or√ßamento disponibilizado pela Casa da M√ļsica n√£o contemplava pagar viagens dos States para c√°. Optei por dividir o Tiago Miranda que no √°lbum se ocupou das percuss√Ķes, entre estas e o Hammond de modo a criar outra linha mel√≥dica que substitu√≠sse o violoncelo original. Pareceu-me que funcionou bem e vamos ter a oportunidade de repetir a dose no Barreiro no Out Fest 2008 no dia 16 de Maio, desta vez com o Bernardo Devlin no √≥rg√£o e percuss√Ķes.

Tanto quanto sei dedicas parte do teu tempo a reunir instrumentos menos comuns. Isso √© parte essencial na descoberta de novos caminhos para a tua m√ļsica?

Alguns, mas nada de especial. Tenho alguma dificuldade em manter algum empenho num determinado instrumento por um período longo de tempo. Em 2006 estava bastante empenhado no dobro, um instrumento incrível mas que analisando à posteriori nunca se adaptou ao meu trabalho. Desde 2007 tenho andado virado para o órgão eléctrico que me parece o instrumento onde consigo facilmente por em prática muitas das ideias mais recorrentes. Penso que encontrei um instrumento a longo prazo pois apesar de um ano e meio a praticar diariamente e com vários trabalhos gravados entretanto, continuo a ter ideias para novos projectos, e o mais importante, ainda consigo gostar de tocar o Hammond.

Fazes tamb√©m parte dos Curia com o Manuel Mota, Margarida Garcia e Afonso Sim√Ķes. Em que ponto est√° essa frente neste momento?

Continuo bastante entusiasmado. Estamos a preparar alguns concertos e a pensar em novas edi√ß√Ķes. Gostava de pensar que daqui a muitos anos ainda estar√≠amos a tocar. Vamos l√° a ver se ningu√©m emigra...

E os Organ Eye? Acreditas que a multiplicação em diversos projectos potencia a exploração de novos territórios só por si?

No caso em concreto da musica do Torben e da Jasmine, n√£o tenho quaisquer d√ļvidas que esta colabora√ß√£o nos levou por caminhos que dificilmente faria sozinho. Apesar de estruturalmente achar que temos muito em comum eles usam instrumentos electr√≥nicos, geralmente samplers, eu geralmente estou mais inclinado para instrumentos de tradi√ß√£o cl√°ssica ou el√©ctricos. Gostava de voltar a trabalhar com eles.

Como é que foi o concerto com o Charlemagne Palestine e a Colleen. Presumo que tenha sido uma noite especial…

√Č um local de facto √ļnico. Parece-me que funcionou bastante bem por se tratarem de pe√ßas e instrumentos diferentes mas que no conjunto resultaram bastante bem. Adoro a m√ļsica do Charlemagne Palestine e este trabalho para √≥rg√£o de igreja muito em particular. Pareceu-me logo que podia ser um grande concerto, como se veio a concretizar. Optei por tocar √≥rg√£o el√©ctrico em vez de tocar no √≥rg√£o da S√©, apesar de j√° o conhecer (grav√°mos um disco dos osso ex√≥tico com ele), pois pareceu-me que funcionaria melhor no contexto dos outros concertos.

Tens trabalhado em novo material a solo? Podemos esperar um novo lançamento para breve?

Creio que em 2007 abusei um bocado em n√ļmero de trabalhos editados. Vinha de um per√≠odo de 3 anos √† espera da finaliza√ß√£o de um CD meio encalhado, gr√°ficos da capa, masteriza√ß√Ķes e sobretudo falta de tempo do editor que resultaram num processo que, tamb√©m por minha culpa me distraiu do trabalho da musica. A partir de 2006 comecei a ter mais convites para concertos e com eles surgiram tamb√©m v√°rias colabora√ß√Ķes. Foi por alguma coincid√™ncia que todos estes trabalhos acabaram por ser editados em 2007, numa situa√ß√£o que n√£o √© muito vantajosa para as editoras que querem vender os discos pois houve mais do que uma situa√ß√£o em que as criticas de dois √°lbuns de editoras diferentes acabaram por sair coladas, o que parece n√£o ser bom em termos de promo√ß√£o (dizem-me...). Por agora descanso e fa√ßo descansar as pessoas pois j√° era uma vergonha estar sempre a dar discos aos amigos. Entanto estou com algumas ideias que gostava de come√ßar a gravar. Talvez para o m√™s.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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