ENTREVISTAS
Jazzinho
Aventura portuguesa
· 02 Ago 2007 · 08:00 ·
Jazzinho é o veículo principal para as canções de Guida de Palma, alguém que se considera uma aventureira portuguesa dos tempos modernos. Ainda jovem, conheceu Jaco Pastorius e teve aí o momento derradeiro que lhe indicou o caminho para a música. Não demorou muito até que Guida de Palma agarrasse o jazz como seu aliado, tendo-lhe acrescentado posteriormente o sufixo "inho" para melhor ilustração. Em ano de lançamento do seu segundo disco, Atlas, Guida de Palma faz uma retrospectiva da sua carreira e uma radiografia do presente.
Não é toda a gente que com 16 anos se muda para Paris para ser acompanhado pelo génio Jaco Pastorius. Aconteceu consigo durante os primeiros concertos no clube de jazz Sunset. Como via Jaco Pastorius?

Como um semi Deus. Ele inventou a fretless bass e com isso desenvolveu todo um estilo de tocar que continua a inspirar muitos músicos. Era um génio. Ele tinha vindo em digressão a Paris e apareceu no Sunset onde eu estava a tocar. Foi uma experiência inesquecível, tanto para mim e para o grupo mas também para o público que viu e ouviu de tão perto este músico formidável que morreu tragicamente tão jovem. Ainda por cima ele veio três dias seguidos!

Foi isso que lhe abriu definitivamente o caminho para a música?

Pelo menos, reforçou, confirmou que deveria continuar. Foi uma honra e um privilégio para mim.

Em tempos foi voz do projecto de jazz experimental francês Magma. Isto na década de 80. O que é que se recorda dessa experiência?

Christian Vander no seu apartamento escuro, só com uma bateria, um piano e um Ferrari. Ele ouviu-me a cantar Otis Redding e convidou-me para uma digressão estival pelo sul da França. Lembro-me de ter que aprender muito depressa a contar ritmicamente e a cantar Kobaien (língua inventada por Christian Vander) em harmonia.


A partir de aí trabalhou ao lado de vários músicos. Existe algum que lhe tenha ficado na memória por alguma razão especial?

O Saxofonista e flautista americano Ronnie Laws, irmão de Hubert e Cynthia Laws. Não somente um músico excelente e um dos símbolos do movimento jazz musical afro-americano dos anos 70, com o label Black Jazz, e com canções como "Always there", mas também uma pessoa bondosa e generosa.

O disco de estreia teve um sucesso considerável de vendas. O que se recorda do desse álbum? Foi um momento importante de definição estética para o grupo?

Recordo-me carinhosamente de sessões de gravação em Hackney, Londres, interrompidas pelo canto da seita religiosa do lado ou pelos ruídos dos filmes porno do estúdio dos vizinhos de cima... Só boas memorias... E foi assim que eu e o Michele Chiavarini, musico italiano muito talentoso passamos inúmeras horas a construir o conceito de chill out bossa jazz music que queria fazer. O resultado foi pioneiro neste estilo e só não o reproduzi no segundo porque o Michele tinha-se tornado muito caro! Ainda tentei guardar o mesmo esquema com um outro músico como parceiro, mas a química não era a mesma. E também, como já tinha uma super banda formada nessa altura e testávamos ao vivo as novas canções, com reacções muito positivas, era natural que a musica evoluísse de um som de estúdio para um muito mais “live”.

Como cresceu este projecto até o lançamento desde segundo disco, Atlas? Como sente este novo álbum?

Primeiro escrevemos as canções, depois ensaiamo-las e desenvolvemo-las no meu salão e durante concertos. Quando o Ed Motta chegou a Londres para realizar o disco, ensaiamos mais dois dias durante os quais ele levou as canções ainda mais longe. Gravamos num estúdio grande com cabine de bateria, percussão, e assim a secção rítmica pode gravar junta como num concerto. Isso traz um som excitante, espontâneo, quente às canções. Como teclados utilizamos o Fender Rhodes, Moog, Prophet8, Solina, B3, Clavinet, um Fender Jazz Bass, secção de sopros, quarteto de cordas. Enquanto que no primeiro álbum o som era tecnicamente extremamente sofisticado, programado, processado, com loops; no segundo não houve programação, edição, compressão e o mínimo de efeitos. É vintage, cru e nu.

Presumo que exista um significado especial no título do disco. O que nos pode contar acerca disso?

Atlas porque sou uma aventureira portuguesa do terceiro milénio e que estas aventuras me têm levado a muitos sítios... É uma cartografia áudio do meu percurso musical que se destina a todos, bem que as minhas conquistas se façam de avião e não em caravela...


Os músicos de Jazzinho, o seu grupo, são ingleses e brasileiros residentes em Londres. Como gere essa mistura de influências? Presumo que a seu favor…

Eu própria sinto-me em parte inglesa após tantos anos radicada lá. Compreendo a maneira de ser e estar dos ingleses e também a dos meus irmãos brasileiros, que quando foram ao Bairro Alto e Alfama, diziam que era tal e qual a Baia! Ambas fazem parte integrante de mim.

Jazzinho já actuou em salas como o Jazz Cafe (Londres), Joe's Pub (NY), Festival de Jazz de Montreal ou o La Paloma em Roma. Estes locais representaram especial responsabilidade em termos de actuação?

Todas as salas de espectáculo são importantes mas, as que refere, contam com a presença de muitos artistas internacionais e, por isso, são marcos na minha carreira musical. Só o facto de ter sido convidada para tocar nelas representa uma honra em si. Mas, para ser sincera, o mais importante em qualquer sala, são as pessoas. Elas são a alma e o coração. E a sala de espectáculo, as suas infraestruturais, o palco, o som, as luzes e o seu pessoal, o veículo pelo qual o espectáculo viaja... Um concerto é uma viagem. As pessoas vêm preparadas para viajar e cabe ao grupo levá-las por vales e planícies, a um destino que ficara gravado nas suas memórias.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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