ENTREVISTAS
m. rösner
Manhãs submersas
· 29 Mai 2007 · 08:00 ·
A abreviação que Matt Rösner confere ao nome, para assinar a música que compõe, é inversa à ampliação que cede às propriedades das linguagens acústicas que, nas suas mãos, têm vindo a revelar-se cada vez mais magníficas. O artista sonoro australiano entendeu (e deu a entender) que mais proveitosa seria a captação da essência que possa pairar nas manhãs de uma pequena vila costeira, se não forçasse as confissões sonolentas da guitarra acústica e de um violino com peso histórico e familiar. Concedeu-lhes margem para espairecer, enquanto ele próprio fermentava ideias ao longo dos dias que tomaram o processo. Enquanto documento desse método, Morning Tones revela que uma grande variedade de paisagens podem ainda ser projectadas por um microfone, instrumentos por ele absorvido e todo um revestimento electrónico periférico. Revela-o usufruindo da introspecção construtiva que concentra sobre o seu autor aquilo que se dispersava em colaborações no anterior Alluvial, que muito mais adulterava – num ping-pong tornado fusão - as suas fontes introduzidas e manipuladas em tômbola laptop. Com uma generosidade conhecida a poucos, m. rösner partilha com o Bodyspace detalhes relativos à feitura de Morning Tones - álbum e faixa homónima – e tudo acerca do labor que lhe ocupou as auroras da segunda metade do ano de 2005.
Podias enquadrar cronologicamente o Morning Tones, mencionando o álbum e a própria faixa?

Comecei a escrever o álbum Morning Tones em Agosto de 2005. Nessa altura, não tinha em mente uma label para lançá-lo ou um calendário a seguir – sentia-me mais cativado por experimentar e criar um disco que viesse a alcançar aquilo que me tinha movido inicialmente. Antes das gravações, tinha ocupado imenso tempo com field recordings e o meu objectivo era integrar os sons em torno da minha casa com instrumentos acústicos na tentativa de capturar uma certa noção de tempo e espaço. Trabalhei muito depressa. Descobri rapidamente que a melhor altura para eu escrever estas faixas seria bem cedo de manhã. Isso levava-me a acordar por volta das cinco e meia todas as manhãs e gravar durante uma hora ou perto disso. Por volta de meados de Outubro de 2005, dispunha de quatro demos que me satisfaziam. Uma dessas era a faixa “Morning Tones”, se bem que na sua forma condensada e sem a introdução improvisada de guitarra. Nessa precisa altura, decidi que era altura de procurar uma label que estivesse interessada em lançar este tipo de música. Decidi enviar o material para a Apestaartje e para algumas pequenas labels no Japão e Reino Unido. Por volta desses tempos tinha tocado em alguns concertos locais e tinha calendarizada uma breve digressão pela costa este da Austrália, o que me levou a suspender por um pouco as gravações. No dia após o meu regresso de digressão recebi um e-mail da Apestaartje a referir que gostariam de lançar as faixas desde que complementadas com algo novo que completasse o disco. Afinquei-me de imediato nessa tarefa utilizando o mesmo processo na esperança de escrever duas novas peças mais extensas que completassem o disco. Nesse sentido, adicionei violino e acordeão ao processo. Por meados de Janeiro de 2006 eu tinha duas novas peças concluídas, mas o disco continuava um pouco curto. Por isso, revisitei a faixa “Morning Tones” e decidi adicionar-lhe uma introdução de guitarra. Coloquei um único microfone no chão de um estúdio numa quente manhã de verão, deixando o som do equipamento, a minha respiração e os ruídos exteriores num segundo plano, de forma a criar uma síntese de todas as ideias em que vinha a trabalhar em todo o disco. Pessoalmente, julgo que concluir o disco nestes termos fez com que se assemelhasse ao encerrar de um ciclo.

Há pouco mencionaste a inclusão do violino e lembrei-me de ter lido que tinha sido o teu pai a tocar os sons de violino adicionados. Levou isso a que se tornasse demasiado afectivo um processo em que tens de fazer os possíveis por te concentrares?

Acho isso engraçado – é curiosamente divertido perceber como o conteúdo dos factos se baralha na comunicação por Internet e e-mail. O meu pai não tocou violino no disco. O que aconteceu foi eu ter usado na faixa “Dissolve” que finaliza o disco um violino que o meu avô comprou por volta de 1930. Não sou muito bom a tocar violino e aquela foi a minha primeira experiência com o instrumento. Por isso limitei-me a tocar algumas notas e tons que editei depois no laptop. Por sua vez, o meu avô era um grande músico que estudou composição e foi convidado para integrar a West Australian Orchestra. Contudo, a guerra estalou por essa mesma altura e ele nunca mais tocou em frente de pessoas. A história foi adulterada quando disse à Apestaartje que estava a usar o violino do meu avô. Pouco tempo depois fico a saber no site deles que tinha samplado o meu pai a tocar. O meu pai não toca, mas tem uma colecção fantástica de discos – desde jazz, rock, folk às mais recentes tendências de electrónica. Na verdade, é frequente ele descobrir nova electrónica antes de mim. A utilização do violino conferiu uma perspectiva mais afectiva ao processo de gravações. Recordo-me de estar sentado no meu quarto a olhar para o violino e a pensar Que músicas teria ele tocado nesta coisa?. Sei que costumava tocar para o outro vigia durante as noites do período de guerra, levando isso também a que a experiência fosse bonita e poderosa. Ainda tenho o violino em casa – a minha mulher e eu queremos restaurá-lo.

Que métodos específicos e técnicas de software tentaste não repetir neste disco após tudo o que havias explorado em Alluvial?

Para mim, o Alluvial esteve altamente ligado ao processamento, ao uso de microprocessadores dsp para a manipulação de fontes de som acústico. Em Morning Tones, queria que os sons acústicos dispusessem de espaço para respirar, e, atendendo a que a maioria das gravações incidiam em improvisações, concentrei-me na retenção do que se sentia ao som bruto sem os soterrar por um monte de efeitos. Grande parte do Alluvial foi gravado num espaço concebido a pensar na sua acústica e com uma grande variedade de instrumentos e microfones diferentes. Perdi um longo tempo com experiências antes de passar à gravação – a tentar diferentes colocações para o microfone e à descoberta dos melhores métodos para usufruir do espaço. Sentei-me nesse lugar, a cave da minha antiga casa, durante quase dois anos a tentar criar esse disco. Nessa altura não o percebi, mas esse período foi realmente importante no meu desenvolvimento como artista de electrónica. Mas com o Morning Tones ambicionava mesmo gravar um disco menos preso ao processamento e técnica e mais acerca de apanhar um momento. Procedeu-se mesmo comigo sozinho num pequeno quarto, com todos os instrumentos e apenas um bom microfone. Não desesperei. Se as coisas não estivessem a funcionar, deixava-as e voltava a elas mais tarde. Esse é um dos aspectos positivos de trabalhar logo pela manhã – se as coisas não estivessem a resultar, saía de casa, ia para o emprego e não pensava em música porque os meus pensamentos estavam absorvidos pelos acontecimentos do dia.


Parece-me bem lógico que menciones a manhã como o tempo preferencial para te empenhares no Morning Tones, atendendo a que por vezes parece ser um disco que ainda está a tentar aquecer e a coordenar os seus músculos, ou texturas, se preferires. Desenvolveste alguns métodos com vista a preservar as ideias que surgiam durante o horário de emprego ou confiaste no facto de que as melhores sobreviveriam até à manhã seguinte?

É muito frequente ocorrerem-me ideias durante o dia e, durante o processo de Morning Tones, assim aconteceu. Tomo o meu tempo fora de estúdio como útil à edição de mim mesmo e contemplação. Gravava em cd-r algumas primeiras misturas das faixas que escutaria depois em diferentes alturas do dia. Estava constantemente a escutá-las e a pensar Preciso de outra guitarra aqui. ou Talvez devesse remover algumas camadas nesta parte. Algumas das ideias relacionadas com field recordings surgiam durante o dia, a partir de sons acidentais à volta do meu escritório e casa.

Aprecio o tom que “Drifts” (de Alluvial) ganha com a co-produção do Dave Miller. Envolveste algumas pessoas na faixa “Morning Tones”, através de debate ou conselhos aceites?

As colaboração de Alluvial foram divertidas. Aprendi muito com elas. O Dave e eu desenvolvemos três ou quatro colaborações ao longo dos últimos anos e aprendo sempre alguma coisa com ele quando gravamos. Para mim, é disso que se trata uma colaboração: captar diferentes perspectivas de outros artistas e aplicá-las ao teu próprio som. No Morning Tones o trabalho foi completamente solitário. Não envolveu quaisquer outros músicos. Após Alluvial, que incluía quatro colaborações, tinham em mente concentrar-me num disco individualmente. Além disso, não creio que alguém aceitasse levantar-se às seis da manhã para gravar! Quando tinha as faixas concluídas, enviava-as a gente cuja apreciação merece a minha consideração. Proporcionaram-me muito feedback construtivo que assimilei.

Recentemente considerei em perspectiva uma grande parte dos discos do Lawrence English (patrão de rösner na Room 40) e reparei que muitos podem estar de alguma forma ligados à temperatura. Tudo se tornou mais claro com o recente For Varying Degrees of Winter. De um modo semelhante, “Morning Tones”, enquanto faixa e álbum, levaram-me a escutar as tuas músicas como elementos afectados e sensíveis à claridade e diferentes tonalidades de luz. Qual foi a influência exacta da luz no processo?

Essa é uma boa questão, porque nunca considerei a luz como uma influência directa, mas agora que penso nisso, talvez a sujeição à luz seja algo sempre presente a nível subconsciente. As minhas peças não pretendem ser narrativas, não contam uma história. Em vez disso, procurei invocar um determinado sentimento e, pela manhã, a luz tinha influência nisso. O lugar onde moro torna-me mais receptivo a mudanças na luz natural durante o dia e entre estações. Vivo numa pequena vila costeira, com cerca de 200 habitantes apenas, muito próxima da praia. Além de que não foi planeada como uma cidade ou um subúrbio. É natural desenvolveres uma ligação com o mundo natural quando vives longe de um meio urbano.

Sei que forneceste à Grain of Sound (label portuguesa a descobrir em http://www.grainofsound.com) uma faixa exclusiva e algumas fotos para publicação na Sonic Scope Quaterly (magazine disponível online). Essas encontravam-se mais próximas, temporalmente e tematicamente, de Alluvial ou Morning Tones?

As imagens que cedi à Grain of Sound foram criadas por volta da altura em que estava a completar Morning Tones. O objectivo dessas imagens era obter uma cor única e processá-la intensamente através de software de edição. O que a aproxima do processo que utilizei ao gravar Alluvial, mas, neste caso, a um nível visual. De certo modo, existe alguma ingenuidade e impureza nessas imagens. Não me considero um designer gráfico – interesso-me muito por essa área, mas julgo-me um novato nisso. O meu trabalho em design industrial é bem mais preciso e resulta habitualmente num objecto muito funcional que deve preencher uma necessidade específica ou a vontade de um cliente. A imagem cedida à Grain of Sound contém erros resultantes do programa de edição gráfica, mas optei por não corrigi-los porque queria fazer constar as marcas do processo criativo. Foi uma reacção a trabalhar sempre de uma forma mais rígida.

A próxima questão sai um pouco da rota, mas não posso deixar de perguntar como resultou a performance com o Taylor Deupree? Adoro a cena dele. É utópico esperar uma colaboração entre vocês?

A performance com o Taylor Deupree correu muito bem. Os meus sets estão sempre a mudar – às vezes utilizo instrumentos e noutras apenas um laptop e as suas ferramentas de processamento. Nessa ocasião, estreei um controlador MIDI especialmente concebido para o Ableton Live. Foi óptimo ter à minha disposição um controlador manual do som conforme distribuído pelas colunas. Sou um fervoroso adepto do trabalho do Taylor e foi uma imensa honra tocar com ele. Seria fabuloso desenvolver uma colaboração com ele, mas, para ser honesto, não creio encontrar-me na mesma divisão que ele. Ele é um artista que ocupa a dianteira da electrónica experimental. Eu ainda não alcancei isso, mas parece-me haver margem de progresso, especialmente nas minhas prestações ao vivo.

Qual é o teu disco favorito do Taylor Deupree? E da label Room 40?

Que questão difícil!... Todos os discos do Taylor são fabulosos. É difícil escolher um favorito. Mesmo assim, teria de seleccionar o Stil. pela enorme influência que teve em mim quando o escutei. Os meus discos favoritos da Room 40 são o Ghost Towns do Lawrence English. Adoro o facto de documentar um espaço e a forma bruta que assume sem processamentos. É natural que se sentisse tentado a usar processamento digital, mas mostrou controlo. Steelwound do (Ben) Frost e o Friction do Rod Coopers são também discos com alta rotação na minha aparelhagem durante os últimos anos.

Podemos esperar mais actividade de Pablo Dali (projecto de rösner) para breve?

Neste momento, não tenho quaisquer planos estabelecidos com vista à produção de música sob o nome de Pablo Dali. Associo-o esse desígnio a um período de transição mais associado à IDM e a música orientada pelas batidas. Abandonei totalmente essa perspectiva. Encontro-me mais interessado em abordagens mais abstractas e livres. O último lançamento de Pablo Dali foi o single California Grey na Meupe. Adoro aquelas faixas – representaram o ponto alto do som Pablo Dali. Tentei compor mais material dentro desse estilo, mas termino sempre num beco sem saída e leva isso a que me sinta frustrado.

E tens trabalhado em algum material enquanto m. rösner?

Tenho um novo disco, ainda por intitular, a ser masterizado neste momento. Será lançado pela Meupe ainda este ano. Soa mais próximo de Alluvial do que do Morning Tones. As faixas são mais curtas. Continua a incidir sobre texturas, mas não tão processadas quanto isso. Inclui muito material tocado ao vivo e a presença de músicos convidados. Existe outro projecto a que me tenho dedicado com Shoeb Ahmad, um jovem músico de Camberra. É um disco completamente acústico elaborado através de computador. Não foram usados outros efeitos além de equalização e compressão. Cada um de nós gravou improvisações instrumentais que enviámos mutuamente por FTP. Utilizámos uma variedade de instrumentos que passou pela guitarra acústica e eléctrica, uma grande quantidade de precursão, piano, acordeão e o sempre fiável violino. Em Março, tínhamos reunido material suficiente para formar um álbum e encontramo-nos agora à procura de label para lançá-lo. As gravações decorreram tão velozmente... Parece-me o mais natural dos discos que gravei. Custa-me a crer que estávamos em pontos opostos do país (Austrália) quando o gravámos.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

Parceiros