ENTREVISTAS
Osso Exótico
Cenários possíveis
· 18 Mai 2006 · 08:00 ·
Na década de 80 nasciam pelas mãos de André, David Maranha, Bernardo Devlin e António Forte (que juntos gravaram I). Foram recolhendo mais alguns cúmplices pelo caminho (a formação foi-se modificando de quando em vez), e até hoje pouco mais se sabe sobre os Osso Exótico além daquilo que pode ser escutado nos discos: aqueles que já lançaram ora na sua própria editora (a Carbo Records), ora por selos estrangeiros como Staalplaat, Nemskeio ou Sonoris. Parece ser aliás entre estes dois mundos (o nacional e o internacional) que os Osso Exótico vivem, não só em termos dos lançamentos mas também no que diz respeito às actuações ao vivo. Certo é que os Osso Exótico são autores de alguns dos discos mais significativos e marcantes da música experimental portuguesa – senão ouça-se V, editado pela Ananana em 1997, registo fascinante feito de dezasseis temas compostos por David Maranha, Patrícia Machás, e André Maranha (com a participação de Simão Varela). Em entrevista ao Bodyspace, David Maranha abre um pouco mais o jogo no que diz respeito à existência dos Osso Exótico. Os Osso Exótico são um dos nomes mais fortes da edição 2006 do festival Where’s The Love, que acontece dia 18, 19 e 20 de Maio na Galeria Zé dos Bois.

Para começar, uma pergunta cliché mas obrigatória: quando e como começaram os Osso Exótico?

Não tenho uma ideia muito precisa das datas pois tive vários grupos com o Bernardo e o Tó entre 1985 e 1988 ou 1989. Creio que o meu irmão começou a tocar connosco então pois é dessa data o nosso primeiro vinil. A patrícia e o Oliver vieram mais tarde, já para trabalhar no nosso segundo LP.

Que memórias guardas desses tempos?

Para te dizer com franqueza, não sou muito dado a nostalgias e a reflexões sobre o passado. Geralmente gasto mais o meu tempo a pensar nos assuntos que tenho em mãos. Nem tão pouco tiro grande prazer deste trabalho. Com a excepção de alguns breves momentos em que descubro algo que não estava à espera, ou uma ou outra viagem para um concerto.

Como surge o nome Osso Exótico?

Foi tirado de um livro do António Maria Lisboa. Digamos que à primeira se tratou de uma atracção fonética, mas creio que tratando-se de uma tradução livre de "cadavre exquis" o nome traduz o modo como desenvolvemos os nossos trabalhos e como sobrepomos as ideias que cada um propõe.

Como nasceu o primeiro disco? Como convergiram os Osso Exótico naquela direcção musical exposta no primeiro lançamento do projecto?

De todos os nossos trabalhos talvez esse seja aquele que me é mais difícil analisar… Provavelmente por apontar em diferentes direcções. Talvez seja um álbum de transição entre um formato de canção e uma abordagem mais próxima do trabalho que estamos a fazer actualmente. Para baralhar o LP que fizemos a seguir é totalmente composto de pequenas canções.

Tanto quanto sei, os Osso Exótico não são muito favoráveis a catalogações. Mesmo assim será possível fugir ao minimalismo, o drone, e a algumas estéticas que pareceram influenciar o som do projecto ao longo dos tempos. O que nos podem dizer acerca disto?

Não tenho nada contra as catalogações e até sou de opinião que fazem muita falta nas bibliotecas e aos ervanários. A mim não me tem feito grande falta. Nem por uma vez me vieram à cabeça pensamentos do género "vou fazer uma música minimalista" ou " o próximo álbum vão ser três drones". Pelo contrário esse tipo de catalogações tendem a bloquear-me, pelo que me afasto delas.

Criaram o selo Carbo Records onde editaram alguns dos vossos discos. Como nasceu na altura a decisão de começar uma editora e quais foram as principais dificuldades com as quais tiveram que lidar?

Na altura pareceu-nos a maneira mais fácil de fazer o trabalho como gostávamos, no que diz respeito à música e às capas. A distribuição do nosso primeiro disco, editado pela Multinational, foi feita pelo Miguel Santos que era na altura quem nos tratava dos concertos e contactos com as distribuidoras nacionais e internacionais (actualmente está a organizar o festival Atlantic Waves), que fez de facto um belo trabalho de distribuição, pelo que os trabalhos que se seguiram tiveram o caminho facilitado.

Até aos dias de hoje lançaram uma série de discos em vários selos, inclusive alguns fora do país.


Creio que editámos mesmo mais em editoras estrangeiras. Temos quatro editados em Portugal e dois em França, um na Holanda, um na Alemanha, um na Suiça e um em Itália. O que dá uma derrota por 4-6 por parte dos nacionais.

Quando e porquê começaram a lançar discos em editoras de outros países?

Prescindimos da editora com todo o prazer quando começámos a ser contactados para nos editarem os trabalhos, pois era uma tarefa que nos tirava muito tempo.

Os Osso Exótico não são com certeza exemplo único de bandas que começaram a olhar mais lá para fora do que cá para dentro a certa altura, por variadas ordens de razões. Qual foi sendo a reacção aos Osso Exótico por parte da imprensa e do público estrangeiros?


Para dizer a verdade, geralmente o que têm acontecido, é serem as editoras a contactarem-nos, e uma vez que têm vindo a fazer melhor trabalho na distribuição que as nacionais, incluindo a nossa (Carbo), não vemos razões para mudar.

Em 1994, Bernardo Devlin deixou os Osso Exótico depois de um concerto em Berlim. A sua saída esteve relacionada com o próprio caminho criativo da banda?

A certa altura começou a tornar-se evidente que tínhamos visões diferentes do caminho a seguir. Creio que o Bernardo estava e continua a estar mais orientado para a canção, e foi ele próprio que constatou que os Osso Exótico talvez não fossem o melhor meio para realizar as suas ideias. Olhando agora de fora para o trabalho dele acho que ele tomou uma decisão acertada.

Como funcionam hoje em dia os Osso Exótico em termos de composição? Como um colectivo de número variável?

Digamos que não temos uma metodologia definida. Em cada trabalho geralmente temos de partir do zero. O que sendo um problema também pode ser uma virtude.

Como se procedeu ao longo dos tempos a escolha dos instrumentos a serem tocados nos discos? Têm Church Organ Works (editado na francesa Sonoris), um disco criado apenas a partir de órgãos de igreja e depois nota-se uma predilecção por instrumentos clássicos…

A escolha dos instrumentos está sempre subordinada à ideia que temos para determinado trabalho. Não penso que haja uma predilecção por instrumentos clássicos, talvez instrumentos não electrónicos mas até ai estamos facilitar pois ultimamente tenho utilizado muito órgão eléctrico ligado a amplificador de guitarra.

Como surgiu a ideia de gravar Church Organ Works? Apontaram-lhes motivos ou razões de âmbito religioso mas tanto quanto sei sempre rejeitaram isso…

Às vezes é difícil fugir-se à história. E o órgão é um instrumento que desde sempre esteve relacionado com a musica religiosa. Eu só posso falar relativamente à abordagem que tivemos nos temas desse trabalho que não é nem religiosa nem mística. De qualquer maneira não pretendemos controlar a audição dos outros, e à quem diga que deus está em todo o lado.

Há hoje em dia uma maior abertura e aceitação em Portugal de uma certa música digamos periférica, não só em termos de nascimento de novos projectos mas também num certo aumentar da visibilidade de outros (o Manuel Mota e o Sei Miguel, por exemplo, têm tocado bastante, especialmente por Lisboa). Concordam? De que modo é que isso afectou o projecto?

Bem talvez para nós esteja tudo na mesma. A única diferença que vejo é que a ZDB está com uma programação mais dinâmica. Mas uma vez que lá tocamos uma ou duas vezes por ano não vou dizer que tem sido um stress. De qualquer modo eu trabalho em outras coisas como arquitectura pelo que também não tenho tempo para mais. E quanto a concertos no estrangeiro só quando nos contactam, nos pagam a viagem, o hotel e algum dinheiro, pelo que também são uns tantos concertos por ano. Não tenho paciência para andar a fazer digressões às nossas expensas.

Vão tocar agora no Festival Where's The Love, na galeria Zé dos Bois, ao lado de nomes como os Espers, Skaters, Alan Silva, Blood Stereo, Fish & Sheep, Axolotl, Tomutonttu, Ignatz, Manuel Mota ou Chris Corsano. O que esperam dessa actuação?

Espero que corra bem… é para isso que estamos a trabalhar.

Quais são os planos discográficos para a banda em termos futuros? Existem algumas hipóteses para breve?


Isso é que me tem deprimido. Já temos uns trabalhos acabados há anos e as editoras não se despacham. Temos uma colaboração com os Verres Enharmoniques de Manu Holterback e Sophie Durrand gravada entre 2003 e 2004 para editar na Phonomena do Toshio Kajiwara desde então. Está quase para sair há anos. Na altura estava muito animado com o resultado. Eles tocam uma espécie de harmónica de vidro em que o pé é um tubo de vidro que possibilita variar a quantidade de água no interior do copo através de um reservatório de água que controlam com os pés. Produz uma grande variedade de efeitos e o resultado da junção com a nossa música pareceu-me bastante feliz. Vamos lá a ver se é este ano…

Victor Afonso, o músico da Guarda que responde sob o epíteto de Kubik, considera os Osso Exótico como sendo "talvez o mais importante e ousado projecto português de música experimental". Qual a vossa posição acerca disto?

Nestes casos, e com a devida modéstia, é costume dizer obrigado. É sempre bom saber que alguém aprecia o nosso trabalho.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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