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Osso Exótico
Cenários possíveis


Na d√©cada de 80 nasciam pelas m√£os de Andr√©, David Maranha, Bernardo Devlin e Ant√≥nio Forte (que juntos gravaram I). Foram recolhendo mais alguns c√ļmplices pelo caminho (a forma√ß√£o foi-se modificando de quando em vez), e at√© hoje pouco mais se sabe sobre os Osso Ex√≥tico al√©m daquilo que pode ser escutado nos discos: aqueles que j√° lan√ßaram ora na sua pr√≥pria editora (a Carbo Records), ora por selos estrangeiros como Staalplaat, Nemskeio ou Sonoris. Parece ser ali√°s entre estes dois mundos (o nacional e o internacional) que os Osso Ex√≥tico vivem, n√£o s√≥ em termos dos lan√ßamentos mas tamb√©m no que diz respeito √†s actua√ß√Ķes ao vivo. Certo √© que os Osso Ex√≥tico s√£o autores de alguns dos discos mais significativos e marcantes da m√ļsica experimental portuguesa ‚Äď sen√£o ou√ßa-se V, editado pela Ananana em 1997, registo fascinante feito de dezasseis temas compostos por David Maranha, Patr√≠cia Mach√°s, e Andr√© Maranha (com a participa√ß√£o de Sim√£o Varela). Em entrevista ao Bodyspace, David Maranha abre um pouco mais o jogo no que diz respeito √† exist√™ncia dos Osso Ex√≥tico. Os Osso Ex√≥tico s√£o um dos nomes mais fortes da edi√ß√£o 2006 do festival Where‚Äôs The Love, que acontece dia 18, 19 e 20 de Maio na Galeria Z√© dos Bois.

Para começar, uma pergunta cliché mas obrigatória: quando e como começaram os Osso Exótico?

Não tenho uma ideia muito precisa das datas pois tive vários grupos com o Bernardo e o Tó entre 1985 e 1988 ou 1989. Creio que o meu irmão começou a tocar connosco então pois é dessa data o nosso primeiro vinil. A patrícia e o Oliver vieram mais tarde, já para trabalhar no nosso segundo LP.

Que memórias guardas desses tempos?

Para te dizer com franqueza, n√£o sou muito dado a nostalgias e a reflex√Ķes sobre o passado. Geralmente gasto mais o meu tempo a pensar nos assuntos que tenho em m√£os. Nem t√£o pouco tiro grande prazer deste trabalho. Com a excep√ß√£o de alguns breves momentos em que descubro algo que n√£o estava √† espera, ou uma ou outra viagem para um concerto.

Como surge o nome Osso Exótico?

Foi tirado de um livro do Ant√≥nio Maria Lisboa. Digamos que √† primeira se tratou de uma atrac√ß√£o fon√©tica, mas creio que tratando-se de uma tradu√ß√£o livre de "cadavre exquis" o nome traduz o modo como desenvolvemos os nossos trabalhos e como sobrepomos as ideias que cada um prop√Ķe.

Como nasceu o primeiro disco? Como convergiram os Osso Exótico naquela direcção musical exposta no primeiro lançamento do projecto?

De todos os nossos trabalhos talvez esse seja aquele que me √© mais dif√≠cil analisar‚Ķ Provavelmente por apontar em diferentes direc√ß√Ķes. Talvez seja um √°lbum de transi√ß√£o entre um formato de can√ß√£o e uma abordagem mais pr√≥xima do trabalho que estamos a fazer actualmente. Para baralhar o LP que fizemos a seguir √© totalmente composto de pequenas can√ß√Ķes.

Tanto quanto sei, os Osso Ex√≥tico n√£o s√£o muito favor√°veis a cataloga√ß√Ķes. Mesmo assim ser√° poss√≠vel fugir ao minimalismo, o drone, e a algumas est√©ticas que pareceram influenciar o som do projecto ao longo dos tempos. O que nos podem dizer acerca disto?

N√£o tenho nada contra as cataloga√ß√Ķes e at√© sou de opini√£o que fazem muita falta nas bibliotecas e aos ervan√°rios. A mim n√£o me tem feito grande falta. Nem por uma vez me vieram √† cabe√ßa pensamentos do g√©nero "vou fazer uma m√ļsica minimalista" ou " o pr√≥ximo √°lbum v√£o ser tr√™s drones". Pelo contr√°rio esse tipo de cataloga√ß√Ķes tendem a bloquear-me, pelo que me afasto delas.

Criaram o selo Carbo Records onde editaram alguns dos vossos discos. Como nasceu na altura a decisão de começar uma editora e quais foram as principais dificuldades com as quais tiveram que lidar?

Na altura pareceu-nos a maneira mais f√°cil de fazer o trabalho como gost√°vamos, no que diz respeito √† m√ļsica e √†s capas. A distribui√ß√£o do nosso primeiro disco, editado pela Multinational, foi feita pelo Miguel Santos que era na altura quem nos tratava dos concertos e contactos com as distribuidoras nacionais e internacionais (actualmente est√° a organizar o festival Atlantic Waves), que fez de facto um belo trabalho de distribui√ß√£o, pelo que os trabalhos que se seguiram tiveram o caminho facilitado.

Até aos dias de hoje lançaram uma série de discos em vários selos, inclusive alguns fora do país.


Creio que editámos mesmo mais em editoras estrangeiras. Temos quatro editados em Portugal e dois em França, um na Holanda, um na Alemanha, um na Suiça e um em Itália. O que dá uma derrota por 4-6 por parte dos nacionais.

Quando e porquê começaram a lançar discos em editoras de outros países?

Prescindimos da editora com todo o prazer quando começámos a ser contactados para nos editarem os trabalhos, pois era uma tarefa que nos tirava muito tempo.

Os Osso Ex√≥tico n√£o s√£o com certeza exemplo √ļnico de bandas que come√ßaram a olhar mais l√° para fora do que c√° para dentro a certa altura, por variadas ordens de raz√Ķes. Qual foi sendo a reac√ß√£o aos Osso Ex√≥tico por parte da imprensa e do p√ļblico estrangeiros?


Para dizer a verdade, geralmente o que t√™m acontecido, √© serem as editoras a contactarem-nos, e uma vez que t√™m vindo a fazer melhor trabalho na distribui√ß√£o que as nacionais, incluindo a nossa (Carbo), n√£o vemos raz√Ķes para mudar.

Em 1994, Bernardo Devlin deixou os Osso Exótico depois de um concerto em Berlim. A sua saída esteve relacionada com o próprio caminho criativo da banda?

A certa altura come√ßou a tornar-se evidente que t√≠nhamos vis√Ķes diferentes do caminho a seguir. Creio que o Bernardo estava e continua a estar mais orientado para a can√ß√£o, e foi ele pr√≥prio que constatou que os Osso Ex√≥tico talvez n√£o fossem o melhor meio para realizar as suas ideias. Olhando agora de fora para o trabalho dele acho que ele tomou uma decis√£o acertada.

Como funcionam hoje em dia os Osso Ex√≥tico em termos de composi√ß√£o? Como um colectivo de n√ļmero vari√°vel?

Digamos que não temos uma metodologia definida. Em cada trabalho geralmente temos de partir do zero. O que sendo um problema também pode ser uma virtude.

Como se procedeu ao longo dos tempos a escolha dos instrumentos a serem tocados nos discos? Têm Church Organ Works (editado na francesa Sonoris), um disco criado apenas a partir de órgãos de igreja e depois nota-se uma predilecção por instrumentos clássicos…

A escolha dos instrumentos está sempre subordinada à ideia que temos para determinado trabalho. Não penso que haja uma predilecção por instrumentos clássicos, talvez instrumentos não electrónicos mas até ai estamos facilitar pois ultimamente tenho utilizado muito órgão eléctrico ligado a amplificador de guitarra.

Como surgiu a ideia de gravar Church Organ Works? Apontaram-lhes motivos ou raz√Ķes de √Ęmbito religioso mas tanto quanto sei sempre rejeitaram isso‚Ķ

Às vezes é difícil fugir-se à história. E o órgão é um instrumento que desde sempre esteve relacionado com a musica religiosa. Eu só posso falar relativamente à abordagem que tivemos nos temas desse trabalho que não é nem religiosa nem mística. De qualquer maneira não pretendemos controlar a audição dos outros, e à quem diga que deus está em todo o lado.

H√° hoje em dia uma maior abertura e aceita√ß√£o em Portugal de uma certa m√ļsica digamos perif√©rica, n√£o s√≥ em termos de nascimento de novos projectos mas tamb√©m num certo aumentar da visibilidade de outros (o Manuel Mota e o Sei Miguel, por exemplo, t√™m tocado bastante, especialmente por Lisboa). Concordam? De que modo √© que isso afectou o projecto?

Bem talvez para n√≥s esteja tudo na mesma. A √ļnica diferen√ßa que vejo √© que a ZDB est√° com uma programa√ß√£o mais din√Ęmica. Mas uma vez que l√° tocamos uma ou duas vezes por ano n√£o vou dizer que tem sido um stress. De qualquer modo eu trabalho em outras coisas como arquitectura pelo que tamb√©m n√£o tenho tempo para mais. E quanto a concertos no estrangeiro s√≥ quando nos contactam, nos pagam a viagem, o hotel e algum dinheiro, pelo que tamb√©m s√£o uns tantos concertos por ano. N√£o tenho paci√™ncia para andar a fazer digress√Ķes √†s nossas expensas.

Vão tocar agora no Festival Where's The Love, na galeria Zé dos Bois, ao lado de nomes como os Espers, Skaters, Alan Silva, Blood Stereo, Fish & Sheep, Axolotl, Tomutonttu, Ignatz, Manuel Mota ou Chris Corsano. O que esperam dessa actuação?

Espero que corra bem… é para isso que estamos a trabalhar.

Quais são os planos discográficos para a banda em termos futuros? Existem algumas hipóteses para breve?


Isso √© que me tem deprimido. J√° temos uns trabalhos acabados h√° anos e as editoras n√£o se despacham. Temos uma colabora√ß√£o com os Verres Enharmoniques de Manu Holterback e Sophie Durrand gravada entre 2003 e 2004 para editar na Phonomena do Toshio Kajiwara desde ent√£o. Est√° quase para sair h√° anos. Na altura estava muito animado com o resultado. Eles tocam uma esp√©cie de harm√≥nica de vidro em que o p√© √© um tubo de vidro que possibilita variar a quantidade de √°gua no interior do copo atrav√©s de um reservat√≥rio de √°gua que controlam com os p√©s. Produz uma grande variedade de efeitos e o resultado da jun√ß√£o com a nossa m√ļsica pareceu-me bastante feliz. Vamos l√° a ver se √© este ano‚Ķ

Victor Afonso, o m√ļsico da Guarda que responde sob o ep√≠teto de Kubik, considera os Osso Ex√≥tico como sendo "talvez o mais importante e ousado projecto portugu√™s de m√ļsica experimental". Qual a vossa posi√ß√£o acerca disto?

Nestes casos, e com a devida mod√©stia, √© costume dizer obrigado. √Č sempre bom saber que algu√©m aprecia o nosso trabalho.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
18/05/2006