DISCOS
The Alps / Jefre Cantu-Ledesma
Jewelt Galaxies / Spirit Shambles / The Garden of Forking Paths
· 12 Abr 2007 · 08:00 ·
The Alps / Jefre Cantu-Ledesma
Jewelt Galaxies / Spirit Shambles / The Garden of Forking Paths
2006
Spekk / Matéria Prima


Sítios oficiais:
- The Alps / Jefre Cantu-Ledesma
- Spekk
- Matéria Prima
The Alps / Jefre Cantu-Ledesma
Jewelt Galaxies / Spirit Shambles / The Garden of Forking Paths
2006
Spekk / Matéria Prima


Sítios oficiais:
- The Alps / Jefre Cantu-Ledesma
- Spekk
- Matéria Prima
São Franscisco explode e implode surtindo equivalentes resultados altamente positivos.
Jefre Cantu-Ledesma é mais um daqueles espíritos criativos cuja imparável prolificidade reclama, por si só, que sejam adicionadas mais doze horas à duração do dia para que se lhe acompanhe a par e passo os movimentos musicais. Atipicamente “musicais”, neste caso, atendendo a que Cantu-Ledesma, mais nos projectos paralelos do que nos Tarentel que lhe ocupam a maior fatia de tempo, opera bem perto dos meandros do experimentalismo articulado a partir da soma orgânica de instrumentos avessos à convenção (regularmente ditos freak) ou, noutras circunstâncias, da moderação científica do drone a quem se declara devotamente com The Garden of Forking Paths. Esse, surgido em nome próprio, faz bom proveito da reaquisição de fôlego garantida ao multi-instrumentista por altura do abrandamento improvável no calendário de lançamentos atribuídos aos Tarentel nos últimos dois anos.

Pura jogada estratégica, já que o amealhar de material deixa escapar, em questão de meses a seguinte quantidade de registos: quatro volumes de Ghetto Beats on the Surface of the Sun, a comprovar o vigor dos Tarentel, The Garden of Forking Paths, sublinhar exímio da auto-suficiência de JCL, e a compilação de dois preciosos CD-r que magnetizam até aos Alps de São Francisco os detectores de psicadelismo tal como destilados a um todo que era folk numa mais pacifica e homogénea vida anterior. Toneladas de música pertinente que forçam a que se estenda uma passadeira opinativa a Jefre Cantu-Ledesma e, por tabela, aos músicos que lhe são periféricos.

A periferia que o envolve nos Alps transpira potenciais ideias que, somadas, personificam uma fonte por onde se espera que venha a correr néctar vitaminado pela tradição freak e transcendental de São Francisco – residência actual de JFC, Alexis Georgopoulos - que nos Tussle torna infinitas as possibilidades rítmicas com cowbell, címbalos e timbalão - e Scott Hewicker, para quem a vocação musical é apenas uma das actividades artísticas mantidas. Na compilação de ambos os CD-r, Jewelt Galaxies e Spirit Shambles, os Alps colocam bem alta a fasquia e lançam-se ao mapear daquele limbo vago entre o improviso e o esboço de uma linguagem que, por cá, foi sendo adjectivado como “extra-corpóreo” e “estratosférico” e identificado aos discos de Frango ou DOPO.

São cristais amplificados, consumações (sofridamente) graduais de uma estrutura que é apenas miragem ou a permanente evaporação de paisagens que cobrem a folk ou a herança pós-rock com um véu. Exercícios que, conforme progridem, oferecem uma colorida plumagem sonora mais solidamente sónica e evidente que desvia os sentidos da perseguição a ressonâncias que, em segundo plano, rodopiam como papagaios de papel e depois se estatelam em silêncio. Quando falta profundidade ou cimento aos favos oníricos, a multifuncionalidade da guitarra lá está para estabelecer contacto entre coisas à partida incompatíveis como a flauta ébria e as muito mais frias tapes sibilantes. “O Wind” equivale ao corpo unimaculado que vê a sua mancha de ruído mais libertino alastrar-se e activar os recursos curativos de que é capaz a acústica mais escorreita, enquanto que “Tintinnabulations” pode ser um carro de gelados voador que entra na terra dos sonhos sem pagar portagem, fitando o encarregado da tarifa com uma poeira de metais que não assenta e o mantém estático com uma espiral terminada em vácuo. Espera-se com ansiedade pelo longa-duração prometido para breve.

O que era subtil no caso dos Alps passa à condição de sublime quando se escuta o primeiro álbum assinado em nome próprio por Jefre Cantu-Ledesma, que havia já explorado os meandros do processamento laptop com o desígnio de Calophon e trilhado terrenos semelhantes em lançamentos conjuntos partilhados com outros estetas sonoros. The Garden of Forking Paths reaproveita o título traduzido de um pequeno conto do escritor argentino Jorge Luis Borges para considerações sobre factores existencialistas como os sonhos, memória, morte, nascimento e o infinito. Entende-se, pois, que todos esses suscitem interpretações bifurcadas, cujo acompanhamento e revestimento pode bem ser providenciado pelos drones doseados – texturas outonais em serpentear ininterrupto, resultantes do processo laboratorial que rege uma ciência bastarda e pouco exacta.

Como agentes ao serviço da aversão que possa manter The Garden of Forking Paths face a alguma esterilidade digital da música generativa, actuam as oscilações tonais imperceptíveis usurpadas ao ressoar metálico de gongos e címbalos, o aproveitamento daquilo que normalmente progride soterrado por misturas que privilegiam outras texturas bem mais sonantes, a selecção de porções que se faz passar por aproximação casual de uma corrente – formada a partir de todo o tipo de tapes e respectivas usufruições - que nunca deixou de se mover, sem início ou fim. Em troca do lugar cativo que nos oferece Jefre Cantu-Ledesma neste labirinto cerebral por si arquitectado, ceda-se parte que seja do tempo auditivo vago a posteriores empreendimentos seus que muito bem-vindos serão se se mantiverem neste patamar de qualidade superior.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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