DISCOS
Final Fantasy
He Poos Clouds
· 26 Jun 2006 · 08:00 ·
Final Fantasy
He Poos Clouds
2006
Tomlab / Flur


Sítios oficiais:
- Final Fantasy
- Tomlab
- Flur
Final Fantasy
He Poos Clouds
2006
Tomlab / Flur


Sítios oficiais:
- Final Fantasy
- Tomlab
- Flur
As minorias assumidamente nerd regem-se por códigos e comportamentos que parecem, à partida, ininteligíveis aos olhos de quem resiste a levar avante a sua curiosidade por um determinado meio estranho e, por consequência, a arriscar o aprisionamento na virtualidade fantasiosa desse. Quem algum dia virou terrenos para adquirir a mana que exige a invocação de um Feiticeiro Pródigo, sabe o que é ter sobre si a vigilância – por vezes, condescendente – de alguém que pura e simplesmente não concebe o gozo que se obtém a um duelo de Magic: the Gathering. A distância a separar o nerd crente do incorruptível realista é a mesma que distingue alguém que já encontrou profundidade tridimensional a um estereograma de outrem que tenha passado apenas um olhar passageiro sobre o mesmo. Com He Poos Clouds, Owen Pallett arrisca percorrer esse percurso de fé rumo ao Graal que aguarda os guerreiros capazes de angariar para o seu reino mágico cúmplices exteriores. Graal que, por estas alturas, andará pelas mãos de Peter Jackson (no pós da conversão global ao universo Senhor dos Anéis). Para o efeito, Owen adoptou um termo que por si só antecipa uma realidade paralela – a do videojogo Final Fantasy – e, para esta segunda ocasião, optou por fundi-lo com um dos jogos de role play que conta com mais fiéis em todo o mundo, Dungeons & Dragons. Acaba por ser recompensador dar conta de que, num só feitiço, o arqueiro violinista faz justiça a uma execrável adaptação de D&D para cinema em 2000 e consolida a dimensão orquestral do que no primeiro disco era apenas solado.

Para quem não sabe, Owen Pallett também contribuiu, durante o tempo que tomou a digressão de Funeral aos Arcade Fire, para que aquele majestoso “Wake Up” ameaçasse as pulsações cardíacas das crianças aprisionadas em corpos de adultos por todo o mundo. Alguns passos à esquerda de Win Butler, lá estava ele pronto a cumprir velório itinerante no coral “Ahhhhhaaaaahhhaahhhaaaaaahhhhhaaaaahhhaaaaah...”. Pode, contudo, a imprensa francesa poupar-se a comparações alongadas, já que Final Fantasy é mesmo outro jogo. Como semelhanças a apontar, talvez só mesmo a sensibilidade arty que desencadeia o autismo abstracto de ambos e o barroquismo de sótão que os une. Final Fantasy orienta-se por um estado de espírito ironicamente solene (traduza-se literalmente o título do disco), enquanto que, integrado nos Arcade Fire, Pallett tinha de pactuar com o pesar colectivo anulado por viagens de balão imaginadas e picos de euforia.

He Poos Clouds é obra de alguém disposto a tomar por si os riscos que implica um objecto como este - uma ópera à mercê de autor insano - e a espalhar-se no cumprimento desse dever. É quando o cristal de Clouds estala que as suas componentes se dividem em perfeita isometria entre os recipientes do encanto e desencanto: a primeira porção recebe todos os certeiros e preciosos usos do instrumento de cordas – ampliado a quarteto, desta vez – e a segunda contará certamente com a ocasionalmente débil consistência vocálica de Owen Pallett. Sobre a aplicação das cordas pode-se referir que o seu planeamento favorece uma progressão em formação de bando saqueador (a arriscada “Song Song Song” comprova isso mesmo) em vez da direcção exacta que descreviam as cordas Guilherme Tell do primeiro Has a Good Home (que armazena uma apreciável quantidade de incisivos ready mades a serem samplados num futuro próximo). Compensou, de facto, o tempo perdido numa formação clássica por parte de um compositor pronto a degustação indie. De tal modo, que as vocalizações menos conseguidas não chegam sequer a perturbar o predominante encanto. A opção de Pallett para contornar a insuficiência é semelhante à de Jamie “Xiu Xiu” Stewart: distorcer ou sobrecarregá-la com mantos instrumentais que a sufoquem ao ponto do irreconhecível. Apesar de propositadamente vitimado por esse desequilíbrio vocal, “If I Were a Carp” prova, em prol de He Poos Clouds, que a sua inabalável propensão fantasiosa podia até contar com a insuportável presença de Alec Ounsworth (mentor do balão de ar Clap Your Hands Say Yeah) e fazer dessa um peão determinante ao seu xadrez narrativo.

Para todos os efeitos, He Poos Clounds ocupará por ventura o lugar do primeiro grande disco afecto a um novo romantismo pixelizado à vontade orgulhosamente insular de quem vive mais confortavelmente num mundo a que se interrompe o tempo ao clicar em “pause” do que numa realidade sujeita às ocasionais maratonas emocionais. Sobre o teledisco de “Disarm”, Billy Corgan referia em certa ocasião que havia sido inspirado em Mr. Vertigo de Paul Auster - obra que alegorizava o progressivo ruir da inocência infantil ao acompanhar a cada mais presente inabilidade de voar do seu protagonista. Os Smashing Pumpkins sobrevoavam nesse teledisco sobre um fundo a preto-e-branco que oferecia a perspectiva celestial de uma cidade. He Poos Clouds leva Owen Pallett às cavalitas do Dragão Thanatos num voo que muito dista da Montreal cujos reveses mundanos o terão levado a procurar refúgio num transe fantasioso que agora produz discos de valor imenso.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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