bodyspace.net


Final Fantasy He Poos Clouds

2006
Tomlab / Flur


As minorias assumidamente nerd regem-se por c√≥digos e comportamentos que parecem, √† partida, inintelig√≠veis aos olhos de quem resiste a levar avante a sua curiosidade por um determinado meio estranho e, por consequ√™ncia, a arriscar o aprisionamento na virtualidade fantasiosa desse. Quem algum dia virou terrenos para adquirir a mana que exige a invoca√ß√£o de um Feiticeiro Pr√≥digo, sabe o que √© ter sobre si a vigil√Ęncia ‚Äď por vezes, condescendente ‚Äď de algu√©m que pura e simplesmente n√£o concebe o gozo que se obt√©m a um duelo de Magic: the Gathering. A dist√Ęncia a separar o nerd crente do incorrupt√≠vel realista √© a mesma que distingue algu√©m que j√° encontrou profundidade tridimensional a um estereograma de outrem que tenha passado apenas um olhar passageiro sobre o mesmo. Com He Poos Clouds, Owen Pallett arrisca percorrer esse percurso de f√© rumo ao Graal que aguarda os guerreiros capazes de angariar para o seu reino m√°gico c√ļmplices exteriores. Graal que, por estas alturas, andar√° pelas m√£os de Peter Jackson (no p√≥s da convers√£o global ao universo Senhor dos An√©is). Para o efeito, Owen adoptou um termo que por si s√≥ antecipa uma realidade paralela ‚Äď a do videojogo Final Fantasy ‚Äď e, para esta segunda ocasi√£o, optou por fundi-lo com um dos jogos de role play que conta com mais fi√©is em todo o mundo, Dungeons & Dragons. Acaba por ser recompensador dar conta de que, num s√≥ feiti√ßo, o arqueiro violinista faz justi√ßa a uma execr√°vel adapta√ß√£o de D&D para cinema em 2000 e consolida a dimens√£o orquestral do que no primeiro disco era apenas solado.

Para quem n√£o sabe, Owen Pallett tamb√©m contribuiu, durante o tempo que tomou a digress√£o de Funeral aos Arcade Fire, para que aquele majestoso ‚ÄúWake Up‚ÄĚ amea√ßasse as pulsa√ß√Ķes card√≠acas das crian√ßas aprisionadas em corpos de adultos por todo o mundo. Alguns passos √† esquerda de Win Butler, l√° estava ele pronto a cumprir vel√≥rio itinerante no coral ‚ÄúAhhhhhaaaaahhhaahhhaaaaaahhhhhaaaaahhhaaaaah...‚ÄĚ. Pode, contudo, a imprensa francesa poupar-se a compara√ß√Ķes alongadas, j√° que Final Fantasy √© mesmo outro jogo. Como semelhan√ßas a apontar, talvez s√≥ mesmo a sensibilidade arty que desencadeia o autismo abstracto de ambos e o barroquismo de s√≥t√£o que os une. Final Fantasy orienta-se por um estado de esp√≠rito ironicamente solene (traduza-se literalmente o t√≠tulo do disco), enquanto que, integrado nos Arcade Fire, Pallett tinha de pactuar com o pesar colectivo anulado por viagens de bal√£o imaginadas e picos de euforia.

He Poos Clouds √© obra de algu√©m disposto a tomar por si os riscos que implica um objecto como este - uma √≥pera √† merc√™ de autor insano - e a espalhar-se no cumprimento desse dever. √Č quando o cristal de Clouds estala que as suas componentes se dividem em perfeita isometria entre os recipientes do encanto e desencanto: a primeira por√ß√£o recebe todos os certeiros e preciosos usos do instrumento de cordas ‚Äď ampliado a quarteto, desta vez ‚Äď e a segunda contar√° certamente com a ocasionalmente d√©bil consist√™ncia voc√°lica de Owen Pallett. Sobre a aplica√ß√£o das cordas pode-se referir que o seu planeamento favorece uma progress√£o em forma√ß√£o de bando saqueador (a arriscada ‚ÄúSong Song Song‚ÄĚ comprova isso mesmo) em vez da direc√ß√£o exacta que descreviam as cordas Guilherme Tell do primeiro Has a Good Home (que armazena uma apreci√°vel quantidade de incisivos ready mades a serem samplados num futuro pr√≥ximo). Compensou, de facto, o tempo perdido numa forma√ß√£o cl√°ssica por parte de um compositor pronto a degusta√ß√£o indie. De tal modo, que as vocaliza√ß√Ķes menos conseguidas n√£o chegam sequer a perturbar o predominante encanto. A op√ß√£o de Pallett para contornar a insufici√™ncia √© semelhante √† de Jamie ‚ÄúXiu Xiu‚ÄĚ Stewart: distorcer ou sobrecarreg√°-la com mantos instrumentais que a sufoquem ao ponto do irreconhec√≠vel. Apesar de propositadamente vitimado por esse desequil√≠brio vocal, ‚ÄúIf I Were a Carp‚ÄĚ prova, em prol de He Poos Clouds, que a sua inabal√°vel propens√£o fantasiosa podia at√© contar com a insuport√°vel presen√ßa de Alec Ounsworth (mentor do bal√£o de ar Clap Your Hands Say Yeah) e fazer dessa um pe√£o determinante ao seu xadrez narrativo.

Para todos os efeitos, He Poos Clounds ocupar√° por ventura o lugar do primeiro grande disco afecto a um novo romantismo pixelizado √† vontade orgulhosamente insular de quem vive mais confortavelmente num mundo a que se interrompe o tempo ao clicar em ‚Äúpause‚ÄĚ do que numa realidade sujeita √†s ocasionais maratonas emocionais. Sobre o teledisco de ‚ÄúDisarm‚ÄĚ, Billy Corgan referia em certa ocasi√£o que havia sido inspirado em Mr. Vertigo de Paul Auster - obra que alegorizava o progressivo ruir da inoc√™ncia infantil ao acompanhar a cada mais presente inabilidade de voar do seu protagonista. Os Smashing Pumpkins sobrevoavam nesse teledisco sobre um fundo a preto-e-branco que oferecia a perspectiva celestial de uma cidade. He Poos Clouds leva Owen Pallett √†s cavalitas do Drag√£o Thanatos num voo que muito dista da Montreal cujos reveses mundanos o ter√£o levado a procurar ref√ļgio num transe fantasioso que agora produz discos de valor imenso.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
26/06/2006