DISCOS
Lali Puna
I Thought I Was Over That
· 04 Jul 2005 · 08:00 ·
Lali Puna
I Thought I Was Over That
2005
Morr / Flur


Sítios oficiais:
- Lali Puna
- Morr
- Flur
Lali Puna
I Thought I Was Over That
2005
Morr / Flur


Sítios oficiais:
- Lali Puna
- Morr
- Flur
George Lucas sabe-o certamente. Quando é dado por terminado o período de filmagens de uma trilogia (envolva hobbits ou actores sem outro talento que não o posar de óculos escuros), a preocupação passa para a sala de montagem. É por lá que se vão acumulando – em pilha sujeita ao esquecimento – os trechos excedentes, matéria, que por uma ou outra razão, surge como inapropriada à idealização do conceito. Até porque o mundo passa bem sem demonstrações de afecto entre wookies. Contudo, na hora da rentabilização póstuma, recaem quase sempre sobre essas “impurezas” as garras da reciclagem. Nada a temer neste caso, pois I Thought I Was Over That – Rare, Remixed and B-Sides alarga a infalibilidade dos três discos conhecidos ao que deve ser tido apenas como periférico, mas que, mesmo assim, conhece aqui enquadramento lógico propício ao avolumar de interesse. A adequada qualidade do relicário de pontas-soltas permite aos Lali Puna aspirarem a dias ainda melhores sem verterem lágrimas sobre o leite derramado.

Além de servir como recipiente ao que escapou à convocatória dos álbuns, I Thought I Was Over That serve também de montra a remisturas de temas alheios em nome próprio e, inversamente, à prata da casa cinzelada pela mão de ourives externos (dispostos a demonstrações de simpatia e agradecimentos simbólicos). Além disso e mediante a generosa variedade do registo, é possível descobrir - entre os ramos cortados ao Bonsai – facetas que desconhecíamos aos Lali Puna e outras tantas recém-formadas que já produzem saliva. Apesar de concebido como complemento paralelo, I Thought I Was Over That é muito mais que um contentor de derivados indesejáveis. Este podia até ser o quarto disco dos Lali Puna, pela forma como revela a transacção acima da mera retrospectiva.

Um digno passado persegue os Lali Puna. Para mais, funciona nos dois sentidos inversos. O primeiro dos dois discos expõe material voluntário e parte com considerável vantagem (no que a revelações diz respeito) sobre o seu reverso dedicado exclusivamente a remisturas elaboradas por outrem (excepto uma das faixas). Não será necessário um tremendo esforço para descobrir pepitas de outro entre a peneira. Os Slowdive – geniais ensaístas da vertigem em forma de pós-rock - conhecem homenagem à sua altura na eternidade condensada em “40 Days” – extraído ao disco de tributo Blue Skied An’Clear. A coisa melhora e a pulsação dispara com um “Clear Cut” a dar por bem gasto o tempo partilhado com Tim Simenon (o nome que a influente máscara Bomb the Bass oculta) na concepção do EP com o mesmo nome. “Clear Cut” pertence em qualquer antologia de música dita urbana e deixa a ideia de que os Coldfinger (sem desfazer) teriam muito a aprender com os seus congéneres germânicos. Produzido exclusivamente para a ocasião, “Past Machine” parece ter um pé assente sobre as melhores referências obtidas junto dos Joy Division e Chameleons e outro convicto em dar seguimento à mutação indie encetada com o último Faking The Books. Arrebata a coroa de melhor faixa e deixa-nos a todos pelo anzol.

Igualmente impressionante é dar conta de que o arrebanhar de remisturas não resulta em catástrofe (sim, ainda não recuperei de Telegram), apesar de também não representar muito mais que facultativa oportunidade de tomar contacto com reinterpretações do que por si já é suficientemente esclarecedor. Jimmy Tamborello (metade dos Postal Service aqui disfarçado pelas possibilidades oferecidas pela designação Dntel) aplica a sua sensibilidade a um “Faking the Books”, que, bem vistas as coisas, até podia ter sido originalmente composto pelo esteta que agora o simplifica. O canadiano Sixtoo (conhecedor de um fervoroso devoto entre os nossos redactores) pretere a sua identidade em prol de uma segunda vida para “Small Things”. Os Two Lone Swordsmen (dois a mais, digo eu) podiam ter deixado a esgrima em casa e poupado o clássico “nin-com-pop” de um embaraço desnecessário. Surpreendentemente ou nem por isso, é com uma remistura dub de “Left Handed” – a cargo dos próprios Lali Puna – que o segundo disco recolhe a maior fatia de mérito. Lali Puna ao quadrado resulta.

Faltou à compilação uma faixa cantada no irresistível português dadaísta de Valerie Trebeljahr. E aqui intervém a saudade egoísta de quem preserva "Rapariga da Banheira" ou "Contratempo" firmes sobre o sagrado pedestal reservado à melhor electrónica de sotaque lusitano (a vocalista Valerie viveu em Portugal durante dez anos). No entanto, obriga o bom-senso a revelar de que nada do que aqui consta desilude os rendidos ao charme cosmopolita dos Lali Puna. Arrisca-se até o lançamento a converter mais uns quantos a esse estranho culto da serenidade de olhos assentes na linha do horizonte que separa a esperança atlântica da frieza germânica (convertida pelos Lali em coolness). Hás-de me dizer onde tens o teu caixote do lixo.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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