DISCOS
Ölga
What is
· 05 Mai 2005 · 08:00 ·
Ölga
What is
2005
Bor Land


Sítios oficiais:
- Ölga
- Bor Land
Ölga
What is
2005
Bor Land


Sítios oficiais:
- Ölga
- Bor Land
O que significa afinal Ölga? Um entrosamento triplo que os sentidos empolga? A combustão auto-suficiente que catalogações amolga? Pós-rock em dia de folga? A banda que falta aos horizontes musicais de Anderson Polga? What Is dispõe-se muito mais a questões do que a absolutismos peremptórios. Por aqui, as frases inscritas em tábua rasa não correspondem necessariamente a mandamentos. As frases podem até ser figuras. Reina a incerteza. Ölga é tão somente a fonte a partir da qual as sombras se formam nas paredes da caverna.

É o sonho que comanda a vida do trio. Os Ölga distinguem-se por tomar o caminho mais longo em direcção à quimera. Perdem-se em limbos cerebrais, alcançam o clímax por meio de uma ascensão sinuosa conduzida pelo órgão e voltam-se a encontrar à esquina dos três vertíces. Pode um disco ser labiríntico sem simultaneamente repelir pela sua complexidade? Os dispositivos lúdicos de What Is apontam para uma força anímica equivalente à sentida por milionários fingidos perdidos em horas a fio de Monopólio. A duração psicológica de What Is diverge claramente (e conforme as estações da mente) da real.

O primeiro álbum dos Ölga apresenta uma mecânica semelhante à dos livros de Aventuras Fantásticas (aqueles em que se comiam Provisões para ganhar 4 pontos de Força): permitem que sejam os dados sensoriais a ditar o rumo ao trajecto a percorrer, tal como o samurai sem mestre que, ao chegar a uma encruzilhada, arremessa um pau ao ar e deixa que seja a extremidade mais aguçada do objecto a apontar-lhe o caminho. Tal como nos livros, trocar a ordem às faixas com um shuffle é fazer batota. A vida, no céu translúcido como na terra, é plena de possibilidades e o trio dá-se ao luxo de facultar mais umas quantas. A liberdade criativa - em que What Is parece estar assente - inspira interpretações tão diversas quanto o número de combinações de um cofre. Insinuam-se bifurcações e o sonho torna-se cíclico.

"Money" é hino disco (ainda assim, nada tem a ver com “Y.M.C.A.") imerso na solenidade confessional de alguém que pode ser Nixon prestes a abandonar a presidência. Apesar de ser a faixa que de forma mais directa aponta para um ambiente concreto e perceptível em vez de nebuloso, "Money" atrai a presa de prazeres fáceis até ao núcleo do contágio e, assim que a encontra em transe, cessa em pleno clímax, como o Batman que resgata um Robin mais pagodeiro a um qualquer estabelecimento da 24 de Julho. Depois disto, What Is estatela-se de queixo numa roda viva de paralelos e improváveis passagens entre eles. "Money" não garante menos que uma viagem alucinante. Pagar para ver.

Envolto em contornos épicos, "The Hunt" opõe soldados grunhos a lobisomens em sessão da meia-noite vivida num frágil estado de consciência que cerra os olhos enquanto os ouvidos se tornam mais clarividentes. What Is torna intelígivel essa capacidade que os Ölga possuem de acrescer visão à audição. “Hassana” comporta o tom bíblico do cinema de Cecil B. DeMille e dita o auge ao disco. "Cube" aveluda o órgão até que este expluda em lounge capaz de despir uma Amélie Poulain vamp através da simples carícia do som.

Fosse eu perder-me em comparações e podia até trazer à baila as incursões dos Doors por terrenos místicos ou a brilhante tentativa de contemplar o infinito imortalizada por Kool & the Gang nessa obra que é “Summer Madness”. Prolongar-me nesse marasmo seria inútil, já que os Ölga deixam - com a intervenção divina deste promissor álbum - de fazer sentido enquanto termo de comparação e passam a assumir uma identidade própria, capaz de determinar rótulos por si só.

A parábola acaba por ser a dos quatro monges budistas que, de mãos assentes na pele do elefante e olhos fechados, conseguem identificar o que tacteiam apenas a partir do momento em que se decidem a trocar impressões. What Is pode ser a quarta parte de um elefante ou o dito animal em idade jovem. Agarrem-se à memória mnemónica, pois daqui ninguém sai sem antes se perder. What Is perfila-se desde já como melhor debute (se exceptuarmos o primeiro EP) do ano.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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