DISCOS
Ricardo Toscano Quartet
Ricardo Toscano Quartet
· 08 Fev 2019 · 16:43 ·
Ricardo Toscano Quartet
Ricardo Toscano Quartet
2018
Clean Feed


Sítios oficiais:
- Clean Feed
Ricardo Toscano Quartet
Ricardo Toscano Quartet
2018
Clean Feed


Sítios oficiais:
- Clean Feed
Longa se torna a espera.
A espera foi longa. O saxofonista Ricardo Toscano surgiu muito jovem, começou por se fazer notar na Festa do Jazz, ainda adolescente, e rapidamente passou a ser convidado para tocar com muitos músicos portugueses. Desde então alimentou um enorme currículo de colaborações e continuou a estudar. Afirmou-se como saxofonista e notável improvisador, com solos enérgicos e memoráveis. Não teve pressa em editar o seu disco de estreia. Muitos discos são editados quando os músicos estão ainda numa fase prematura, por vezes estão ainda numa fase de evolução técnica, muitas vezes ainda não têm ideias bem definidas. Os discos aparecem pela necessidade de mostrar algo. Toscano não teve pressa, trabalhou com calma. E ainda bem que o fez.

O seu quarteto surgiu em 2013. Ao saxofone alto de Toscano juntaram-se outros três músicos portugueses da mesma geração: João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Lopes Pereira (bateria). O grupo começou por se fazer notar a tocar a música de John Coltrane, que interpretar dinâmica rara. Seguiu-se a música de outros clássicos: Cannonball Adderley, Miles Davis, Herbie Hancock ou Wayne Shorter. Nunca se tinha visto um grupo de músicos portugueses a tocar com aquela elevada qualidade técnica aliada a uma enorme energia e dinâmica.

Os concertos cativavam o público, a formação começou a dar que falar e foram convidados para muitos festivais portugueses, passaram por muitas salas. Até que surgiu a questão: então e o disco? O quarteto poderia ter gravado mais cedo, poderia gravar o disco só com versões de temas alheios, reinterpretações de clássicos. Este tipo de trabalho também teria algum mérito, tratar-se-ia de uma reinterpretação à linguagem do quarteto. Mas não foi isso que aconteceu. O saxofonista quis esperar, quis escrever, compor com calma.

O disco chegou no final do ano de 2018, editado pela editora Clean Feed. O álbum apresenta um total de seis temas, cinco composições originais de Toscano e um tema alheio (o clássico “The Sorcerer”, de Herbie Hancock). Em primeiro lugar, destaca-se a qualidade das composições, aqui encontramos temas estruturados com ideias originais, que transmitem diferentes ambientes. Não são apenas um puro veículo para mostrar a exuberância técnica, estas composições têm valor em si mesmas, mostram originalidade e qualidade.

O destaque natural é o saxofone alto de Toscano, que exibe um som com qualidade e segurança. E quando chega o momento de improvisar, o saxofone afirma-se com energia e expressividade. A companhia é perfeita: o piano de João Pedro Coelho, o contrabaixo de Romeu Tristão e a bateria de João Lopes Pereira funcionam como máquina oleada, contribuem com força rítmica, mas sabem também mostrar delicadeza. Individualmente são todos músicos tecnicamente notáveis, mas é no envolvimento colectivo que mostram mais brilho.

O disco arranca morno com “Almería”, o saxofone de Toscano espreita, chega o contrabaixo e depois a banda entra toda, até que a coisa vai crescendo, o saxofone regressa no final para exibir a sua expressividade. Ao segundo tema encontramos a revisão de “The Sorcerer”, com o tema de Hancock transformado pelo quarteto português: mantém a reverência ao original, mas expõe a dinâmica do grupo. Como terceira música chega “Song of Hope” que, além de título confiante, assenta numa toada lenta, com um motivo melódico triste e belo.

Com “Our Dance”, o quarto tema, o ritmo volta a acelerar e o quarteto entra na sua zona de conforto. “Lament”, está num registo próximo das baladas de Coltrane, com o saxofone de Toscano a mostrar-se sem pudor. E o disco fecha com “Grito mudo”, outro registo lento, agora a funcionar como despedida emotiva.

Ricardo Toscano já era um fenómeno de popularidade no actual panorama do jazz português do século XXI. Já era reconhecido, entre pares e junto do público, como instrumentista notável, os seus concertos estavam cheios, esgotavam, os seus solos eram aplaudidos de pé. Agora, com a edição deste disco, Toscano confirma-se como músico completo, compositor e líder de um quarteto superlativo. Este disco, belíssimo, fica para a história do jazz português.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
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