DISCOS
Quinteto Tati
Exílio
· 22 Mai 2004 · 08:00 ·
Quinteto Tati
Exílio
2004
Transformadores
Quinteto Tati
Exílio
2004
Transformadores
Não depende, para avaliar da qualidade ou não de um disco, o grau de identificação obtido com um determinado lugar ou época. É apenas como dizem os célebres cartazes “You don’t have to be mad to work here. But it helps.”. E será difícil, à priori, acreditar que poderemos chegar ao fim de um disco chamado “Exílio” com uma ideia definida sobre por onde a nossa mente foi “forçada” a viajar. Não existe, ao fim e ao cabo, definição. Existe uma capacidade nata, brilhante, e tão natural quanto o cheiro da maresia ou de uma estação de comboios, de reproduzir um dia. Um dia que é feito de uma janela aberta com telhados baixos e o rio em fundo. De pátios imaginários que substituem a sala-de-estar numa derradeira valsa pelos dias gloriosos. De caminhadas por avenidas, cada porta fechada podendo encerrar o segredo para tornar o sonho menos socialmente aceite na realidade que só a nós próprios admitimos desejar.

J.P.Simões teria algo a provar, após La Toilette Des Êtoiles não ter chegado ao patamar ocupado por Fossanova, a sua estreia com os Belle Chase Hotel, marco na música feita intra-fronteiras. Ao escolher o português como língua preferida na maior parte das suas canções, substitui alguns dos maneirismos que o caracterizavam por uma ressonância, um entoar subtil de sílabas, palavras e frases, que adquirem uma força vastíssima. Mordaz, apaixonado, poeta, falso decadente que o finge ser para melhor detectar os verdadeiros. “Vou cumprindo o programa”, diz em “Carta Tardia”, ideal para reflectir numa ampla livraria caseira, de roupão, sofá e copo de whisky, e pensamentos dispersos sobre outra pessoa.

A música é moderna, enquanto procura disfarçá-lo. Existem valsas, swings, perfumes mediterrânicos-cosmopolitas, aproximações à bossa nova e ao samba. Canta-se uma “Valsa Quase Antidepressiva” com um optimismo a dar as boas-vindas ao lusco-fusco. Uma “Rumba Dos Inadaptados” em que a suavidade na voz contraste com a tristeza contemplativa da letra. “Suor e Fantasia” é jazz fresco, fanfarras e manjericos a erguerem-se do ruído do dia. “Um Fado Qualquer” poderá levar os mais cinéfilos a pensar em Fight Club, quando questiona se o design do que se possui basta. Mas “talvez se aguente sem nada dizer”.

Instrumentalmente, o Quinteto Tati possui um leque alargado de soluções, cada uma com o seu momento debaixo das luzes. Sopros, flautas, órgãos, pianos, xilofones, batuques, a voz da convidada Petra (sobretudo em “No Jazz”), contrabaixo dedilhado ou com arco. O piano imita a guitarra dos Mão Morta em “Inventário Marítimo”, requiem para uma cidade (Lisboa) afundada. Sons de um circo – “E se então sonhar um tempo de amor / Talvez pense em nós”. Flautas, metáforas, palavras que transmitem poder em cada dicção, “Hoje o dia doeu fundo / Mas gosto ainda do mundo” (“Uma Para O Caminho”). Acabam os “Créditos Finais” ao som do tráfego. O vento dos carros a passarem bate nos cabelos. Algo está diferente, algo está melhor. Aventura? Talvez baste atravessar a rua. J.P.Simões faz-nos crer em tanto.
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com
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