DISCOS
Kendrick Lamar
To Pimp A Butterfly
· 06 Mai 2015 · 11:25 ·
Kendrick Lamar
To Pimp A Butterfly
2015
Top Dawg Entertainment / Aftermath Entertainment
Kendrick Lamar
To Pimp A Butterfly
2015
Top Dawg Entertainment / Aftermath Entertainment
"I got a bone to pick".
Ambição. Uma palavra que, na música em geral, e no hiphop em particular, assume um significado vital. Não importa que seja a ambição de Jay-Z em tornar-se um magnata, a ambição consciencializadora e lírica dos De La Soul, ou as metáforas e imagética de um Aesop Rock. Ela está sempre lá. Mas como reagir a um caso como o de To Pimp A Butterfly, em que a ambição é de tal forma complexa e multifacetada, que reduzi-la a uma qualquer lista de significandos seria incomensuravelmente injusto? Para dar um exemplo, ouça-se a última canção do disco, “Mortal Man”. Kendrick fala da possibilidade de os seus actuais fãs o deixarem, caso alguma coisa má venha a acontecer no seu future. No entanto, a música em si soa relaxada. Dir-se-ia mesmo “Californiana”, como a Compton de onde ele é originário. Será Kendrick Lamar a jogar no campo de contrastes entre a parte musical e a parte lírica de – por exemplo - uns Steely Dan?

To Pimp A Butterfly tem vários refrões apelativos. Quer nos singles como “King Kunta” e “i”, quer em outras faixas como “Alright” (é o Pharrell a produzi-la, afinal de contas), “Hood Politics” ou “Complexion (A Zulu Love)”. Simplesmente não procurar ouvir, escutar, identificar (estão na internet pessoal), decifrar as letras destas músicas, e de todas as outras do disco, seria um erro de palmatória tão grande quanto descurar as letras de qualquer grande escritor de canções que se queira mencionar. Kendrick Lamar assume-se aqui como o grande letrista do hiphop mainstream ou próximo dele, dos zerodezes. E também como o grande MC no sentido mais puro do termo. De alguém que combina lírica com flow. Capaz de assumir diferentes velocidades, vozes, tons, timbres, estados de espírito. Capaz de rimar sobre aparentados do g-funk, neo-soul, jazz, free jazz, sintetizadores etéreos, guitarras, baixos corpulentos à Bootsy Collins, batidas, não-batidas, sem-batidas, anti-batidas, etc. Capaz de contar a sua experiência pessoal, sem nunca cair no onanismo ou no solipsismo. Capaz de criar uma sequência de 79 minutos que se “lê” como um livro absorvente.

Esse “livro” poderia ser apenas as memórias de Kendrick Lamar. Podia ser apenas “O que Kendrick Lamar vê”. Só que isso seria demasiado limitativo. Deixaria de fora o que ele sente, o que ele sente que os outros sentem, os conflitos internos e externos, dele e de outros. Podia ser só um tratado sobre a condição de um afro-americano nos Estados Unidos. Mas não o pode ser. Pois Kendrick sabe bem que algumas experiências só podem ser ouvidas, nunca empatizadas. Quer esteja a responder furiosamente como em “The Blacker The Berry”, quer se refira a armadilhas no caminho, como em “Wesley’s Theory” (Wesley = Wesley Snipes) ou “Institutionalized”. Um comentário num site sobre este disco afirmava que as recentes mortes suspeitas de jovens afro-americanos às mãos da polícia teriam necessariamente significados diferentes para etnias diferentes. Pode-se ter toda a solidariedade do mundo, sim. Mas, caso não se partilhe certas características físicas, não se pode saber o que é viver com o medo de ”ser o próximo”.

Seria tão simples colocar este disco ao lado de obras como It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back ou Fear Of A Black Planet dos Public Enemy. E aliás, “Complexion (A Zulu Love)” é um parente de “Polywannacracka” do Segundo. Mas isso seria ignorar tantos momentos em que Kendrick olha para dentro. Casos de “u” ou “Momma”. A sua visão engloba demasiadas coisas, mas nunca parecem ser demais, mesmo quando ele se sente em conflito consigo próprio. Na dúvida se pratica aquilo que prega ou não.

To Pimp A Butterfly é, em suma, um álbum auto-profético. Sabe que quer ser importante, que quer seguir as pegadas do seu ídolo 2Pac (opiniões sobre os “talentos” do Sr. Shakur ficam para outra altura), sabe que é importante, e É importante. Kendrick vai, inclusivé, ser cabeça de cartaz no Summer Jam da estação de radio novaiorquina Hot 97. Talvez a maior radio hiphop/r&b dos EUA. E quem o viu a dar um concerto fabuloso no Primavera 2014 sabe que ele tem tudo para dominar o palco e dar um show do caraças. Ele conquistou o direito a ser ouvido em qualquer contexto musical. Ok, talvez não desse para um festival EDM. Não se está a falar de desfiles de palhaços, seja como for. É certo que já o era antes do álbum sair, e isso pode sempre causar problemas. Mas tentar não custa nada. E se há muitos anos Leonard Cohen aguentou um bom bocado a entreter 600000 pessoas num festival depois de Jimi Hendrix, quem diz que Kendrick não consegue o mesmo? E mesmo que não consiga, e que o pessoal sinta saudades do Chris Brown, há coisas que merecem mais do que o efémero de um festival toca-os-hits-e-baza. To Pimp A Butterfly é para destacar como um enormíssimo disco, de um enormíssimo MC e escritor. Quem quiser chegar-se à frente, e pegar na estafeta, que se prepare árdua e convenientemente.
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com
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