DISCOS
Quio
Phiu
· 03 Jan 2008 · 08:00 ·
Quio
Phiu
2007
AGF Producktion / Flur


Sítios oficiais:
- Quio
- AGF Producktion
- Flur
Quio
Phiu
2007
AGF Producktion / Flur


Sítios oficiais:
- Quio
- AGF Producktion
- Flur
M.I.A. já tem direito a sósia sedeada em Berlim, sem que isso seja motivo para torcer o nariz.
O adiamento indefinido que se reserva ao funeral do hip-hop prende-se principalmente com a capacidade do género em adaptar-se às necessidades de cada ocasião sem que isso represente uma traição ou desrespeito, mas sim uma afirmação de rebeldia que, quando apresenta palpáveis inovações, enovela consigo elogios de produtores e vozes do meio numa bola de neve que termina a sua rota quando é generalizada a aclamação. A partir de uma situação contra-corrente, Quio ousa aplicar feminilidade e inteligência a um hip-hop que muitas vezes repele esses dois acrescentos. Nem tanto quanto isso no continente europeu - mais precisamente na cidade de Berlim, que, ao que parece, é território cujo drum n’ bass e dubstep (ou perto disso) não é de todo estranho à voz de Quio – moça bipolarizada por uma inconstância que a leva a ser, às vezes, a MC confiante de bling ao pescoço e, noutros momentos, a praticante de um verbalizar-mariposa que a encontra a flutuar mais sibilante por todo o espaço do dancehall (colocando-a, em termos de registo, perto de uma Ari Up das Slits em “ganzado” modo “Punky Reggae Party”).

Acrescente-se que, para dar corpo a esta sua segunda investida, contou com as produções de AGF, a também berlinense que normalmente colabora, em matrimónio criativo e civil, com Vladislav Delay (que, por aqui, se ocupa da masterização). Juntas acreditaram que era possível revisitar (e emular), em passo acelerado, os pontos de contacto entre a genealogia digital e as linguagens musicais mais urbanas, sem nunca perder de vista o norte mais brincalhão do hip-hop (“Minha Rima”, ao contar com a participação algo irritante do frenético MC brasileiro Edu K, indica que pode não ter assim tanta graça uma lição de português com sotaque brasileiro).

Não se iluda, pois, quem esperasse encontrar nesta a porta para um disco de hip-hop “puro e duro” como Ready to Die de Notorious B.I.G. ou obra desse calibre: Phiu seria um disco condenado a morrer imediatamente no fogo-cruzado de Nova Iorque, tivesse merecido a infelicidade de nascer do outro lado do Atlântico. Porém, quem cala, consente o domínio de M.I.A., enquanto heróica figura que usa a vertente mais politizada do hip-hop como arma, e, até certo ponto, a orientação de Phiu terá o seu quê de direito de resposta a isso: sem perder tempo na elaboração de discursos, Quio vai, mesmo assim, tecendo considerações sobre símbolos dispares da sua identidade germânica (Hitler – brrrr! – e Kraftwerk) em “Bratwurst” e apelando a uma pacificidade vaga em “Grow Together”.

Na capa que serve de fachada a Phiu, a representação desenhada de Quio torna-a muito semelhante a Annie Lenox. Tanto que, afinal, se Quio aprender a caminhar sobre os cacos de electrónica notavelmente espalhados por AGF, os doces sonhos podem também vir a ser feitos de um hip-hop que, mesmo de costas viradas para a variante trip de Bristol, não deixa de ter bem ciente esse cânone, que, a custo, procura actualizar com a inclusão de toda a imparável sofisticação berlinense e uma atitude caprichosa e traquina própria de quem é princesa em representação dos povos oprimidos. Com o mesmo par de vogais e consoantes, Phiu é o equivalente frio do Kala que valeu medalha de prata a M.I.A. no pódio erigido pelo Bodyspace aos melhores discos de 2007.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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