Festival Para Gente Sentada 2005
Teatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
01 Out 2005

Muitos se lembrarão com certeza da primeira edição do Festival para Gente Sentada como uma edição memorável, como uma estreia auspiciosa. Muitos se lembrarão da actuação de Devendra Banhart (a então primeira em Portugal) que ganhou logo ali contornos quase históricos – quanto mais não seja porque rendeu a Santa Maria da Feira um hino escrito pelo próprio Devendra Banhart, incluído em Cripple Crow, o seu último disco - e prémio de melhor concerto do ano. Muitos se lembrarão da doçura de Rosie Thomas e das canções de Sufjan Stevens. Muitos se lembrarão do desejo de ver o Festival para Gente Sentada repetir-se. E assim acontece, com novas memórias, como novos desejos. É certo que o cartaz desta segunda edição não é tão cativante e chamativo quanto era o primeiro, mas o Sentados – como se atreveram a chamar-lhe – continua a ser um certame obrigatório para os amantes dos escritores de canções de guitarra na mão e não só. O Sentados é um marco importantíssimo para Santa Maria da Feira.

Em maré de aniversário da Bor Land (a editora celebra este mês cinco anos de existência com a realização de uma série de concertos - de artistas do seu catálogo - espalhados por todo o país e também com a edição de uma compilação dupla que pode ser descarregada no site oficial), coube a Francisco Silva a abertura do Sentados versão 2005 e a representação portuguesa. E não se safou nada mal. É provável que a actuação no Sentados tenha sido mesmo um dos melhores concertos de sempre de Old Jerusalem. E para isso muito contribuiu Ricardo Lopes dos Mandrágora na percussão, o alinhamento escolhido e a cada vez maior segurança de Francisco Silva na condução das canções. Serivu também este concerto para mostrar e provar de uma vez por todas que Twice the Humbling Sun - o segundo de Old Jerusalem - é um disco em tudo mais equilibrado e coeso do que o seu disco de estreia, e isso acaba por se reflectir cada vez mais nos seus concertos. O ritmo imprimido pela percussão de Ricardo Lopes também contribuiu para esse estado de graça – momentos houve em que a música de Old Jerusalem pareceu ser invadida por um qualquer toque de Trás-os-Montes. Resta dizer que se esperam mais actuações com a dupla Francisco Silva / Ricardo Lopes. Mesmo que o fumo que saia dos palcos que possam pisar faça prever um concerto dos Kiss.

Tem pouco aspecto de cantautor. As tatuagens não ajudam, o look de ex-presidiário também não, mas Damien Jurado subiu ao palco – iluminado por uma espécie de candeeiros em forma de preservativos cortados e pendurados no tecto – para contar as suas histórias; aquelas que já canta há muitos anos – a sua discografia fala por si. Ao palco subiu também alguém para cumprir funções na guitarra eléctrica, responsável por adornar as canções que Damien Jurado iria interpretar na guitarra acústica. On My Way to Absence é o último disco do norte-americano, mas foi com o regresso a 2003 – e a Where Shall You Take Me? - que a sua actuação deu os primeiros. Primeiro passo na belíssima “Abilene” ("I fell in love with a girl of nineteen/ A black-haired girl I called Abilene/ «Young girl, where's your husband?»/ «Sadly,» she replied, «I do not have one.»/ «It's you I'll marry with your parents' permission.»"), segundo passo na não menos bela “Omaha”, canção que em disco conta com a tal doçura de Rosie Thomas nos murmúrios, no refrão. Pouco depois, Damien Jurado apresenta uma canção em que fala dos assassinos que percorrem os Estados Unidos fugindo à polícia numa espécie de jogo do rato e do gato. De resto, Damien Jurado é capaz de fazer canções à volta de pequenos momentos. Ou isso ou falar de relacionamentos que correram mal. Damien Jurado é daqueles que acham que conduzir lá bem para longe – para um local onde ninguém conhece quem chega – é a solução para todos os problemas. E talvez tenha razão. Prometeu voltar apesar do medo dos aviões e despediu-se com uma canção sobre Ohio.

Woven Hand © Frederico Martins

Começou no banjo, fabuloso, como tentando superar-se a si mesmo, depois do concerto já de si forte em Paredes de Coura - David Eugene Edwards, o líder dos 16 Horsepower, é já uma figura incontornável. Do outro lado há uma guitarra nervosa. Há algures uma sombra de Nick Cave, no cantar nervoso ou na relação com a religião. Quando David Eugene Edwards agradece, pelas palmas alguém do público aproveita para lhe agradecer a presença. David Eugene Edwards sorriu. Há também uma bateria que se mostra cada vez mais imprescindível de tema para tema. Impressiona na música dos Woven Hand – e em toda aquela feita por David Eugene Edwards – a qualidade de nunca deixar de ser extrema, o nunca abrandar da emoção, da dor ou da solidão. Torna-se claro que, algures ao longe, cavalos selvagens relincham ao vento. Ou isso ou algo assim próximo de um cenário dantesco, remoto, derradeiro, incontrolável. Não incomoda nem surpreende sequer que para David Eugene Edwards o Nebraska lhe faça lembrar a Espanha – muito menos quando fica sozinho com o banjo. Uma actuação de Woven Hand é – sabe-se – uma experiência (quase) religiosa. Há aliás qualquer coisa de religioso nos murmúrios que saem da sua boca; suspeição confirmada quando afirma, convicto: “I love the lord Jesus/ Above anything”. David Eugene Edwards toca no assunto dos índios para dizer que os americanos lhe roubaram as terras com pistolas. O rugir das guitarras anuncia o sermão e não há forma de lhe escapar. “What are we doing here”, dispara. “He loves me” afirma, enquanto olha para cima, para o infinito. No segundo e último diálogo com o público afirma só cantar sobre uma coisa. Quando o público pergunta qual é essa coisa, David Eugene Edwards pede: “You tell me”. Quando alguém replica “the lord Jesus” a resposta é “Is there anything more to talk about?”.

· 10 Jan 2005 · 22:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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