Festival Para Gente Sentada 2005
Teatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
01 Out 2005
Da última vez que Josephine Foster esteve em Portugal os ovos de chocolate eram assunto do dia e os folares e procissões vinham logo a seguir: era a Páscoa, passada por alguns na companhia de Josephine Foster. Os dias agora são outros, de Outono, a estação perfeita para receber a música da autora de Hazel Eyes, I will lead you, aquele que pode ser considerado como o seu primeiro disco a solo. Cada vez mais distante do registo rock que rondava All the leaves are gone (disco gravado com os Supposed) , Josephine Foster é agora cada vez mais fiel à folk. É muito provável aliás que Josephine Foster seja a mais freak das folkers da colheita Golden Apples of the Sun. Josephine canta às florestas e às estrelas (a natureza está sempre muito presente nas suas canções), canta sobre a comida americana de pequeno-almoço ou segue para Crakerjack Fool, canção meia macabra onde Josephine deixa entrar os pássaros e as aves. Tudo isto com uma quietude tal que se podia ouvir o respirar dos presentes na sala. Pareceu óbvio que Josephine Foster se mostrou mais segura do que nos concertos em Portugal por altura da Páscoa, e isso deve-se muito provavelmente ao facto de ter apresentado canções escritas de raiz para interpretação a solo, sem banda. Enquanto que com as canções de All the leaves are gone pareceu na altura faltar alguma coisa, com Hazel Eyes, I will lead you parece que não é preciso mais nada. Mas é mais do que legitimo que de Josephine Foster ainda se possa esperar muito mais.

Josephine Foster © Ana Sofia Marques

Sondre Lerche está apaixonado, é oficial. A outros escritores de canções e domadores de emoções ter-lhes-á feito bem, mas ao norueguês, e a julgar pelos temas que disse ter composto muito recentemente para o seu próximo disco, é possível que o tiro lhe saia pela culatra – afinal de contas escrever sobre amor sem se cair em lamechismos e pieguices não é para todos e Sondre Lerche devia saber disso. Mas o concerto não foi só um desfilar de amor e parentes próximos. Foi, no geral, um apresentar de canções com menos ou mais acentuação no rock, com guitarra acústica ou eléctrica; um concerto que mostrou que Sondre Lerche até é um bom guitarrista mas que é um escritor de canções mediano, sem grandes rasgos de talento – há, diga-se, exportações muito melhores vindas da Noruega. Esteve bem ao cantar em português (muitas vezes bem conseguido) uma canção de Milton Nascimento descrita pelo norueguês como sendo uma canção sobre a América e sobre chocolate. E com razão: “Coração americano / acordei de um sonho estranho / Um gosto de vidro e corte / Um sabor de chocolate / No corpo e na cidade / Um sabor de vida e morte / Coração americano / Com sabor de vidro e corte / A espera na fila imensa / E o corpo negro se esqueceu / Estava em San Vicente / A cidade e suas luzes”. É que ao que parece Sondre Lerche cantou com Milton Nascimento há cerca de um ano numa Igreja em Noruega e ainda se recordava da letra da canção de “San Vicente”. Do seu último disco - Two way monologue - saíram “Days that are over” e, já lá para o fim, a própria “Two way monologue”, que acabou por ser um dos melhores momentos do concerto – esse e a ocasião em que pegou numa canção de Elvis Costello.

Sondre Lerche © Ana Sofia Marques

Patrick Wolf é uma criatura estranha e não é só pela forma como se veste; não é só por parecer saído de uma cena de A Lagoa Azul. É-o essencialmente por escrever canções que serpenteiam por vários géneros musicais e acabar sempre por se colocar à deriva dos mesmos. Patrick Wolf nasceu praticamente com a música - quer em termos pessoais quer em termos familiares – e com 23 anos é já senhor de dois discos, e o terceiro já está à vista. Veio a palco para sentar-se nos teclados mas mais tarde havia de pegar no violino (que pouco usou pois o arco não pareceu querer nada com as suas canções), ukulele barítono e ukulele soprano. A plataforma de partida para as canções constrói-se algures entre a folk, o rock e a música electrónica e ao vivo contou com a presença de um baterista. Mas para além de tudo isto, uma das coisas que mais chamam – e chamaram – à atenção é a voa de Patrick Wolf, ao mesmo tempo cristalina e excêntrica. Obviamente Wind in the Wires, o último disco do britânico, não foi coisa para ser esquecida: “Wind In The Wires” e lá para perto do fim “The Libertine” surgiu para alegria de alguns presentes que se manifestaram a preceito. O bom gosto de Patrick Wolf não é só na música pois havia de mostrar uma canção com palavras de W.B.Yeats, o seu poeta favorito. Mas ainda na música – e numa noite forte em versões – Patrick Wolf acabaria por trazer a palco Kate Bush com o tema “Running up that hill” onde às tantas se diz “And if I only could, I'd make a deal with God / And I'd get him to swap our places / Be running up that road / Be running up that hill / Be running up that building / Say, If I only could, oh...”. Feitas bem as contas, Kate Bush fazia e fez todo o sentido. Quanto mais não fosse para cimentar a actuação de Patrick Wolf como a melhor do segundo dia. Há muito mais por chegar vindo do britânico. É fácil perceber isso. E o mesmo se pode dizer do Festival Para Gente Sentada.

Patrick Wolf © Ana Sofia Marques
· 10 Jan 2005 · 22:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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