Noites Ritual Rock 2005
Jardins do Palácio de Cristal, Porto
26-27 Ago 2005
Já todos sabem que Manuel Cruz tem uma legião de fãs que o acompanha seja com os Pluto, seja com os Supernada, seja na tenda de imprensa onde até chovem pedidos de casamento por parte de fãs masculinos. Piropos à parte, apetece dizer que, esteticamente falando, os Supernada ficam mais ou menos a meio caminho entre os Ornatos Violeta e os Pluto. O que é o mesmo que dizer que lá pelo meio, o rock-funk ainda sobrevive. O que sobrevive ainda é a pose sem T-shirt do vocalista da banda que lançou uma vez um disco chamado Cão. Canções como “Cisma” e “O Preço das Uvas” deixam a vontade que os Supernada editem um primeiro disco de originais em breve para ver até que ponto é que a divisão de Manuel Cruz em mil e um projectos dará bons frutos. Os fãs parecem não duvidar do sucesso dos resultados que se esperam para breve. Aproveitando o motivo da família, o disco de estreia de Nuno Prata também não cairia nada mal nos próximos tempos.

Supernada © Carlos Oliveira

E agora algo completamente diferente, uma viagem do Porto a Coimbra na procura do rock ‘n’ roll que por lá se tem feito nos últimos tempos. Uma viagem que trouxe à cidade invicta os seus dois maiores representantes, duas bandas que - como todos deviam saber - nasceram das cinzas dos Tédio Boys. De um lado Kaló, do outro Paulo Furtado, e a boa notícia é que ambos podiam sair vencedores e nenhum sairia vencido. Os Bunnyranch continuam a apresentar as malhas de Trying To Lose, um disco editado em 2004. Malhas como “Liar Alone”, “Intelligent Freak” (dedicada como é habitual ao Legendary, ou seja, ao amigo Paulo Furtado). A chuva apareceu e ainda levou com ela alguns menos corajosos (um deles dizia, conformado: “a gente sofre pelo rock, sofre pelo rock mas não tanto... só um bocadinho”) mas foram muitos os que ficaram. E as razões são muitas. Os espasmos de Kaló, o seu estilo, a forma como toca bateria em pé e canta ao mesmo tempo, a forma como fala no meio das canções como se procurasse alguma verdade ainda por dizer, ou os teclados ardentes de Filipe Costa que sublinham o efeito rock ‘n’ roll. E se estas razões não fossem ainda suficientes, há uma passagem por um tema original de Paul Revere and The Raiders e “Tetas da Alienação”, uma versão do tema dos Mão Morta que fará parte de uma compilação de tributo à banda liderada por Adolfo Luxúria Canibal.

Bunnyranch © Carlos Oliveira

Sabia-se de antemão que os Wraygunn vinham às Noites Ritual Rock no Porto com um intuito especial: gravar alguns temas para serem incluídos na edição inglesa de Eclesiastes 1.11, prevista para depois do Verão. Sabe-se igualmente que os Wraygunn há muito – está bem, está bem, mais recentemente - que deixaram de ser apenas uma banda a viver em Portugal para passarem a actuar na França e na Itália. Sabe-se até que no próximo Outono, os Wraygunn vão voltar a França para uma digressão de 20 datas, por isso é mais do que certo que o futuro é risonho para Paulo Furtado e os seus comparsas. Muito mais quando se tem um conjunto de canções como as que os Wraygunn têm em Eclesiastes 1.11: temas como “Soul City”, “Drunk or Stoned” ou “Keep on Prayin'” têm potencial para fazer furor em Portugal, na Europa e em qualquer local do mundo. Nos ecrãs, Raquel Ralha discutia taco a taco a audiência e isso explica-se por vários motivos: o mais forte deles é que Raquel Ralha é sem sombra de dúvidas o actual número 1 do top de sex symbols do rock português. O facto de tocar cowbell num vestido preto e branco, de soltar os já famosos gritinhos alarmados em “Drink or Stoned”, ou cantar sensualmente em “There But For The Grace Of God Go I” são apenas mais alguns factores a seu favor.

Wraygunn © Carlos Oliveira

Mas no final é obviamente Paulo Furtado que brilha mais, seja a despejar uma garrafa de água pela cabeça abaixo enquanto afirmava “vocês estão molhados e calmos, eu estou molhado e não estou calmo”, seja a fornicar com a maquineta que geme do costume ou com a câmara de filmar, seja a misturar-se com o público, seja a subir pela estrutura metálica que envolve o palco para mais um pouco de fornicanço arriscado. Escusado será dizer que a maior parte destas aventuras foram levadas a cabo durante “All Night Long”, canção que é o verdadeiro elogio do amor pela noite dentro: “Gonna love that woman/ Gonna love that woman/ Baby all night long/ Baby all night long/ I'm gonna do that girl/ I'm gonna do that girl/ Baby all night long/ Baby all night long”. E obviamente não faltaram canções como “She's a Speed Freak” e “How Long, How Long?”, solos de guitarra de joelhos no chão e outras acrobacias. É verdade que este não foi o melhor concerto de sempre dos Wraygunn, mas o mediano dos conimbricenses continua a ser muito superior aos bons momentos da maior parte das bandas portuguesas. E se continuam assim ainda os vamos perder para o resto da Europa.

Wraygunn © Carlos Oliveira
· 26 Ago 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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