Festival Sònar
Barcelona
16-18 Jun 2005

Sònar by Day
Radian · The Durutti Column · Mouse on Mars
Sònar by Nigth
Roisin Murphy · Jamie Lidell · Le Tigre · The Soft Pink Truth

A invisível ressurreição de Matthew Herbert e a Europa de bicicleta

Apesar de se ter revelado inviável a oportunidade de assistir ao concerto de Matthew Herbert no primeiro dia de festival, acabou por ser ele a figura omnipresente durante a metade nocturna de uma sexta-feira que prometia mais do que cumpriu. Ora vejamos: Herbert produziu o debute a solo que Roisin Murphy trazia na mala entre as lantejoulas, foi Herbert que despoletou a metamorfose que transformou Jamie Lidell num monstro de palco (ao convidá-lo para compor uma remistura para o seu tema “The Audience”), ele próprio é o responsável pela iconoclastia dos Soft Pink Truth ao ter desafiado Drew Daniel (metade dos Matmos) a aventurar-se no house (o momento ficou registado no 12 polegadas Soft Pink Missy lançado pela Soundslike, propriedade de – adivinhe-se – Matthew Herbert). Ficamos a saber que ao lado de Marte fica situado o Planeta Herbert. Tudo isto faz com que os concertos alinhados para o Sónar Park surjam como equivalente a uma versão compacta de um All Tomorrow's Parties (o mítico certame cuja selecção de intervenientes fica a cabo de um artista consagrado) organizado por Matthew Herbert.

Sònar by Day


RADIAN
Presumo que assistir a um concerto dos Radian em tudo se assemelhe a percorrer de bicicleta a cidade de Viena respeitando toda as sinalizações que não a luminosa. Daí que a qualquer momento o velocípede – justaposto ao passeio como a electrónica perante a convencionalidade de um baixo que pedala – possa ser abalroado de forma aparatosa sem que nada o faça prever. Os Radian satisfazem apetites mórbidos com exercícios experimentais que tanto devem ao glitch como a essa instituição australiana que são os Necks. O trio vienense – debruçado essencialmente sobre o último Juxtaposition que serviu de mote à prestação – parece agora muito mais convicto do seu experimentalismo (nem sempre fácil, é certo), se compararmos este ao concerto que deram há três anos no Paradise Garage, por altura da passagem da digressão Looking for a Thrill (Jockey) por Lisboa. Ficamos a aguardar um regresso.


THE DURUTTI COLUMN
Trazer Vini Reilly – o abençoado génio sobre quem assenta o peso de Durutti Column - até ao Sònar é quase como contratar José Cid para actuar no Sequim D’Ouro. Barcelona voltou a ter uma preciosa oportunidade de ter um contacto directo com uma lenda viva que nunca deixou de demonstrar o seu profundo afecto pelos países que compõem a Península Ibérica (o disco Amigos em Portugal e inúmeras composições de inspiração castelhana serão as formas mais palpáveis de verificar isso mesmo). Por isso, um concerto de Durutti Column é invariavelmente um reencontro de velhos amigos. Mesmo sem ter nada a provar, aquele que é tido como o melhor guitarrista de sempre por John Frusciante (também ele guitarrista dos Red Hot Chilli Peppers) é generoso ao ponto de oferecer ao público presente um concerto tão descontraído (o próprio assumiu que a banda estava ali para passar um bom bocado) quanto arrebatador. Ao contrário do que se poderia esperar, Reilly colocou de parte a hipótese laptop que os seus últimos discos faziam antever e presenteou o Sònar com o que de melhor tem para oferecer: uma alma sem igual filtrada apenas por uma guitarra. Eu que até não sou grande apreciador de solos (muito por causa do virtuosismo que faz da guitarra uma máquina), suplicava mentalmente para que aqueles se prolongassem até ao final do festival. Brilhante. Nem outra coisa seria de esperar.

MOUSE ON MARS
Mediante um repertório tão vastamente rico em recursos dançáveis (assim como em tantos outros quadrantes), era maior o receio em relação ao que ficaria por escutar do que aquele relacionado com a inadaptação de algum material às exigências rítmicas do Sònar. Quando – ainda numa fase de aquecimento – os Mouse on Mars detonaram (salvo seja) o Escenario Hall com “Actionis”, todas e quaisquer dúvidas dissiparam-se, cedendo lugar à certeza de que este viria a ser um concerto memorável. O contagioso delírio trigonométrico pinta as paredes da sala com “graffiti” berrante, à medida que os tentaculares loops conduzem os náufragos perdidos em Marte até um subsolo onde são devorados pela centrifugadora esquizofrenia de todo aquele vórtex rítmico que fez dos autores de Iaora Tahiti uma instituição. Ainda que não disponha de termo de comparação, fico com a ideia de que tão energético concerto prova que – mesmo após dez anos de actividade – os Mouse on Mars ainda serão capazes de novas conquistas planetárias.


Sònar by Night

ROISIN MURPHY
A diferença está na qualidade do leite, quando antes era químico (a calhar como pequeno-almoço que se sucede a noitadas), agora é maternal. A sempre deslumbrante Roisin Murphy foi mãe, divorciou-se do parceiro matrimonial e musical Mark Brydon e viu Statues (o último disco dos Moloko) ser recebido com relativa indiferença. Roisin Murphy reinventou-se, sob o risco de actuar em nome próprio significar o retorno à estaca zero. Assim foi. Ainda que pesasse no reduzido número de presentes (e no ambiente) o facto dos Chemical Brothers ordenarem o pressionar do botão mesmo ali ao lado, Roisin Murphy e os sete magníficos que trouxe consigo foram incapazes de emular o ambiente intimo que o novíssimo (e tão recomendável como os mais apreciáveis trabalhos dos Moloko) Ruby Blue exige para que a sua magia funcione. Como que para compensar as lacunas advindas de uma notório inaptidão em atingir picos vocais, a loira volta a ter de recorrer aos métodos de sedução dos dias das camisas justas para angariar admiradores: bate com uma pandeireta nas nádegas, ensaia um charmoso sapateado e concluiu o concerto em trajes de sacerdotisa Darth Maul (o vilão do mais desprezível episódio da Guerra das Estrelas). Salva-se o explosivo primeiro single “Ruby Blue”, que bem pode vir a ocupar o lugar deixado por “Seven Nation Army” nos corações das meninas coquettes que, com as suas franjas, agraciam a vista por esse mundo fora.

JAMIE LIDELL
Na feira de vaidades que se verificava, o leilão de talentos e egos por insuflar prosseguiu com o espalhafatoso pregão bradado pela nova coqueluche da Warp (que, julgava eu, albergava apenas artistas respeitáveis), Jamie Lidell. Dando continuidade à tradição peitoral-chocante fundada por Lil’Kim e Janet Jackson, o arruaceiro de ruído agora tornado entertainer apresenta no Sònar um estranho conceito de espectáculo, que é muito mais uma manobra de hype que um concerto. O aparato com que Jamie Lidell faz desfilar a Motown convertida aos caprichos de um wanna-be (definição possível para o recente Multiply) parece fazer as delícias dos fotógrafos a seus pés, mas revela-se embaraçoso aos olhos de quem mantiver a devida distância do contágio febril. Pode até ser que todo aquele show-off acelerado vise ridicularizar a viciosidade do meio musical, mas – quando a subtileza não anda por perto - o anedotista acaba por se tornar na anedota. Multiply não ofende, o manifesto mediático de alguém desesperado em calçar os sapatos de Beck sim. Além disso, a música não precisa de outro Beck, quando o original (também ele arquitectado a partir de retalhos) ainda goza de boa saúde criativa.

LE TIGRE
A partir do Sónar Park é possível escutar os rugidos emitidos pelo tigre enclausurado na ilha da contra-cultura feminista norte-americana, agora celebrizada à escala mundial. Apesar de – por mérito pop próprio – serem bem sucedidas na exposição de convicções políticas sem arriscarem o enfadonho, a manifestação conduzida pelas Le Tigre não deixa de comportar o seu quê de aula de aeróbica intervencionista, por onde desfilam hinos que impelem à emancipação feminina como, em proporções equivalentes, à ginástica. Houve “Hot Topic” logo à saída da jaula, “F.Y.R.” - em regime karaoke - a apelar à união das lésbicas de todo o mundo, duas tentativas frustradas de acalmar os ânimos com a suavidade de “Sixteen”, “Deceptacon” tão explosiva como à primeira escuta, combate de sexos terminado em “T.K.O.”. As Le Tigre dispõem do arsenal, versatilidade (saliente-se o à-vontade com que cantam, tocam, dançam), naipe de canções memoráveis; contudo, uma atracção zoológica padece quase sempre de um prazo de validade que caduca assim que os malabarismos e truques terminam.

THE SOFT PINK TRUTH
Como se não bastasse aos Matmos a generosa fama de excêntricos de que gozam (à custa de discos elaborados a partir de sons extraídos a lipoaspirações, tilintar de baionetas e ratazanas), eis que a metade Drew Daniel cria um alter-ego para dar vazão às restantes fantasias desconcertantes que lhe façam acordar com os lençóis húmidos. Do You New Wave or Do You Want the Soft Pink Truth? - o hardcore de alças suadas e sangue na testa desconstruído à lei de um house libidinoso - serve de pretexto ideal a um mago demente em pulgas para vestir a pele do Quarto Reich da electrónica herética. Quando alguém por detrás da seriedade de um laptop se atreve a trazer um enorme objecto fálico à cintura, o paradoxo só pode mesmo resultar num enorme exantema cerebral infectado entre os ouvidos de quem escuta. Pela sua intensidade (a atingir clímax no “I am Nasty" que conclui), o dilúvio rosa parece demasiado curto. Faltou apenas a ironia de “Out of Step” (original dos lendários Minor Threat).

· 16 Jun 2005 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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