Mount Kimbie
Musicbox, Lisboa
14 Mai 2011
Na entrevista que nos concederam, a escassos dias da estreia absoluta em palcos portugueses, Dominic Maker e Kai Campos (o duo britânico Mount Kimbie) surpreenderam com a revelação de que, afinal, não apreciariam assim tanto o seu próprio álbum de estreia, Crooks & Lovers (Hotflush, 2010), aclamado como um dos melhores discos do ano transacto. Deveríamos ter previsto, desde logo, a crise de indentidade que se aproximava a passos largos de um Musicbox, ao Cais do Sodré, Lisboa, a rebentar pelas costuras de admiradores indígenas.

© Emília Salta

Durante os 60 minutos da actuação, mais coisa menos coisa, dedicaram-se a reformular e a distorcer as faixas que lhes granjearam um tamanho sucesso que agora, aparentemente, não conseguem digerir convenientemente. Por vezes, entre a salganhada de batidas e samples, lá surgiam algumas texturas mais reconhecíveis à superfície, para gaúdio dos presentes. Mas, de resto, a música dos Mount Kimbie pareceu sempre demasiado estranha, transfigurada para algo bastante distante da elegância rítmica de Crooks & Lovers, não sem decepcionar muitos dos presentes.

© Emília Salta

«O concerto terá algumas novidades que ainda não foram gravadas. E todas as faixas do disco são adaptadas para a actuação em palco, pelo que haverá muita reformulação», avisara de antemão Dominic Maker. Compreende-se o receio de cristalização no êxito inesperado do álbum de estreia, tal como a recusa do rótulo "pós-dubstep" que, de facto, é das coisas mais dúbias e pré-fabricadas que a imprensa da especialidade idealizou nos últimos tempos. Mas não deixa de ser caricata a abjuração instantânea de um princípio de sucesso.

© Emília Salta

O tempo de vida nas margens reduziu-se a um breve suspiro. No caso dos Mount Kimbie, antes mesmo de se imporem já sentem esta bizarra necessidade de parecerem outra coisa qualquer. A vertigem da novidade permanente tende a impossibilitar a fruição do momento presente. E a música, na sua essência, ressente-se disso. Não seria fácil, ressalve-se, transpor a genialidade de Crooks & Lovers, ipsis verbis, para o palco do Musicbox. Ainda assim, não era de todo imperioso boicotar tão intencionalmente as expectativas generalizadas.
· 17 Mai 2011 · 00:11 ·
Gustavo Sampaio
gsampaio@hotmail.com

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