Oeiras Alive!07
Passeio Marítimo de Algés, Algés
8-10 Jun 2007

10/06

Sam, the Kid · The Vicious Five · Beastie Boys

Sam, the Kid

Faz todo o sentido ver Pratica(mente), o celebrado mais recente disco de Sam, the Kid, vir forrado de dezenas de pequenas fotografias de cabine, que formam um inclusivo álbum de família onde o filho pródigo se junta a todos os outros membros. Pois se o formato físico é o documento dessa noção abrangente de que o hip hop é a entidade que fortalece os laços familiares, um concerto de Sam, the Kid, é um convite a que todos os presentes se juntem ao retrato. Apesar da rivalidade ser simultaneamente a pimenta que estimula e o tóxico que corrói o hip-hop, não há maneira de contestar a energia festiva e plena entrega que se descobre a um fim de tarde na companhia do puto-esponja e da sua calibrada turma de suporte. A união e a força daí resultante sente-se à página de diário arrancada ao dia “16/12/95”, com convidada especial para dar a voz à Sofia lírica, e à golpada de “Poetas de Karaoke”. Nem incomoda que alguns beats já soem um pouco datados, quando o espírito puro do old school tão bem se adequa a Sam e companhia.

The Vicious Five
Não foi por acaso que os Vicious Five decidiram colocar bem alto a sua mensagem de rock aplicado em reclamar a periferia da cidade que lhe pertence. Assim se sucedeu porque as apresentadas “Fallacies and Fellatio” ou “Stereo” contam com provocações em forma de refrão que impelem a que se ergam euforicamente as mãos para melhor avistarem a tal mensagem. Essa que é simples, directa e que ainda não descansou de raspar asfalto desde que saiu Up On The Walls: mexam-se, manifestem-se, devolvam o que seja a quem até nem tempo tem para fazer a barba tal é o tempo dispendido no exercitar rock. Quase parece retaliação rock aquela que os Vicious Five operam na precisa altura em que no palco principal se escutava o Jerusalém Som Sistema de Matisyahu. Sendo que a tenda de circo deve ter ficado aliviada com o facto do seu forro não ter entrado em combustão com os riffs das guitarras de “The Smile on those Daggers”. Houve também lugar para uma novidade concebida para andar de skate que provoca paixão à primeira vista. O concerto termina no mesmo ponto alto do seu início: com “The Electric Youth”, o retrato falhado de uma geração de Cinderelas, que vê o front-man Joaquim Albergaria a trepar uma armação metálica da tenda e a fazer constar, a partir desse píncaro, que o Tarzan também era à sua maneira um revolucionário.

The Vicious Five © Francisco Nogueira

Beastie Boys
O palco a quem tem as aptidões para pagar as comissões. Depois de por Lisboa terem andado a promover Hello Nasty, com entrevistas mas sem concertos, eis que os Beastie Boys aterram no novo aeroporto Marítimo de Algés para, em trajes de gala, provarem porque continuam a ser uma das dinâmicas entidades musicais, após um quarto de século que os viu ir do hardcore inspirado nos Bad Brains até a um ponto artístico em que tudo se pode esperar, sem que nunca se perca o rasto à inovação e imperante classe. Classe que se viu algo atrapalhada com os inconvenientes técnicos que afectaram durante os momentos iniciais os microfones de Mike D e principalmente Adam Yauch (que apresentava ligeiras semelhanças com o nosso jornalista Mário Augusto, como se este se tivesse envolvido numa reportagem sobre o hip-hop no universo do cinema).

Beastie Boys © Francisco Nogueira

Mas nada que abalasse uma prestação que cobriu todas as eras e registos possíveis: “Brass Monkey” e “No Sleep Till Brooklyn” lá estiveram em representação da energia old-school, “Tough Guy” e “Time for Livin’” em nome das raízes hardcore, “Something’s Got To Give” como prova de que esta é uma turma de excelentes instrumentistas (facto também verificável às novidades de The Mix-Up), “The Maestro” no lugar da surpresa que destaca a versatilidade de Mike D, “Triple Trouble” e “Intergalactic” enquanto veículos de samples que se apoderam imediatamente do corpo e o petardo perigosamente in your face que é “So What’cha Want”, com Ad-Rock a censurar o seu próprio You think I get high por imposição da atitude política correcta que mantêm os Beastie Boys desde que descobriram o Budismo. A quase perfeição foi servida em fascículos de uma história que se espera poder vir ainda a conhecer muitos capítulos.

Depois de quase duas horas de uma entrega sem igual no âmbito do Alive, soa completamente infeliz a vaia que merecem os Beastie Boys assim que Ad-Rock anuncia o último momento da noite (uma incendiária “Sabotage” que, ao envolver todo o arsenal de instrumentos, faz crer que os três de Brooklyn terão metade da idade real e que o teclista Money Mark se arriscava a sair dali com um colete de forças). Não será certamente com assobios que se conquistam tão nobres visitantes. No melhor pano cai a pior nódoa e algum desconforto sentido ao fim do concerto dos Beastie Boys faz pensar se as hipóteses de regresso, exceptuando o do dia de seguinte na Aula Magna, não terão sido diminuídas pela pressão assobiada que resultou em nada.

· 08 Jun 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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