Rodrigo Leão & Cinema Ensemble
Theatro Circo, Braga
31 Mar 2007
Não se trata de uma ocorrência comum, esta em que um músico alheio ao starsystem vê reconhecimento estampado em lugares cimeiros de tops de vendas e salas de concertos a rebentar pelas costuras. E não, não deixámos escapar o facto de Rodrigo Leão ter no curriculum o estatuto de membro fundador de influentes formações musicais portuguesas como o são os Sétima Legião e os Madredeus. É previsível que tal seja, por si só, garante de um respeito que envolva os portugueses, sobretudo quando se lhe é associada a nostalgia de recordar outros tempos. No entanto, sabemos que o trabalho de Rodrigo Leão a solo não é objecto do marketing pensado para outros artistas bem sucedidos do ponto de vista comercial, incluindo as bandas que integrou. E muita falta não lhe deve fazer essa promoção, a julgar pela massa humana que lotou o Theatro Circo, à semelhança do que tem acontecido noutras salas em que o músico se apresenta. As enchentes vão dando conta de que Rodrigo Leão, mesmo sem dar nas vistas, não passa despercebido a muita gente.

Rodrigo Leão & Cinema Ensemble © João Pedro Barros

Em Braga, assistiu-se a mais um espectáculo previsto na digressão sustentada pelo lançamento da compilação O Mundo (1993-2006), que surgiu no ano passado como um resumo do percurso a solo do músico. A acompanhá-lo nesta actuação estiveram os músicos que integram o Cinema Ensemble, habitués na partilha de palcos com Leão e que o assessoram de forma irrepreensível. Assim, foi possível ouvir o violino de Viviena Toupikova, o violoncelo de Jorge Correira, a viola baixo de Luís Aires, mais a bateria de Luís San Payo e o acordeão de Celina da Piedade. Celina da Piedade é, de resto, presença conhecida para os que acompanham o percurso de Rodrigo Leão nos últimos anos, visto que a colaboração entre ambos vem existindo desde o ano 2000. Felizmente assim o é, tendo em conta a beleza dos pormenores que o seu acordeão produz e o seu encaixe nas composições do músico. Beleza igualmente assinalável é a que revela a voz de Ângela Silva, também ela parte integrante do ensemble e que se apresenta logo no arranque do concerto para interpretar “Carpe Diem” e “Ave Mundi”, dois temas retirados de Ave Mundi Luminar, o registo de 1993, que revela uma orientação lírica para uma música erudita, inclusivamente cantada em latim. Rodrigo Leão, claro está, vai conduzindo o espectáculo discretamente em torno dos teclados, que constituem o seu painel de controlo.

Rodrigo Leão & Cinema Ensemble © João Pedro Barros

Para esta noite, o alinhamento escolhido contemplaria dois temas compostos originalmente para os Sétima Legião e Madredeus (respectivamente "Ascensão" e "Tardes de Bolonha"), que viriam a ser incluídos nos seus registos a solo. Numa das parcas ocasiões em que falou ao público, Rodrigo Leão fala do inédito que será interpretado de seguida. É ele “Café Velho”, um dos temas propositadamente compostos para a série televisiva “Portugal – Um Retrato Social” da autoria do sociólogo António Barreto, para a qual o músico compôs a banda sonora. Aproveita ainda para dedicar a interpretação do tema aos pais do violoncelista Jorge Correira. Quando, nos instantes seguintes se ouve cantar: O Céu está mais azul… eu sinto. / Fecho os olhos, mesmo assim… eu sinto., retirado de "Rosa", faixa pertencente a Cinema, o álbum de 2004, é Ana Vieira quem vislumbramos ao microfone. É a ela que cabe dar cor a interpretações antes engrandecidas por cantoras ilustres como Rosa Passos, Adriana Calcanhoto, Helena Noguerra ou Beth Gibbons. E, em espanhol, francês ou inglês, Ana Vieira demonstra estar à altura da incumbência. Igualmente à vontade na interpretação mostrou-se Celina da Piedade, que, para agrado do público presente, cantou “Pásion”. Todo o ensemble marcava pontos.

Aqui, Rodrigo Leão é estrela polar de uma constelação de luxo. Ao mesmo tempo que vai solidificando a reputação de compositor de referência, permite que os seus colaboradores brilhem à sua volta. No final, cumpriam o desejo de muitos no Theatro Circo, ao encerrarem com “Lonely Carousel” e “La Fête”. Celina da Piedade levanta-se para flanquear Ana Vieira, às quais se junta a violinista Viviena Toupikova. Estava feita a festa, ao cabo de uma hora e meia de concerto. Nessa noite, o céu pode ter estado menos azul, mas teve certamente mais estrelas.
· 31 Mar 2007 · 08:00 ·
Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net

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