ENTREVISTAS
Buraka Som Sistema
A caminho dum som tipo Buraka
· 07 Nov 2011 · 21:26 ·
Após Black Diamond ter sido objecto de garimpeiros um pouco por todo o mundo, é tempo de Komba (ritual religioso angolano que tem tanto de celebração como de tristeza) abrir um novo capítulo e alargar horizontes para aquela que será já a mais internacional das bandas portuguesas da actualidade. São de Lisboa, mas o som que praticam é para todos os que gostam de fazer a festa, em clubes de Luanda ou Budapeste, em concertos no Brasil ou nos Estados Unidos. Com os Coliseus de Lisboa e do Porto a servirem de arranque à apresentação do novo álbum, durante este mês de Novembro, apanhámos os Buraka Som Sistema a meio de intensa actividade promocional. A palavra ao mestre-de-cerimónias Kalaf sobre o presente momento de um grupo que não cria música com o intuito de representar as Nações Unidas da música electrónica, mas sim com a vontade de encontrar algo que seja genuinamente um som Buraka Som Sistema. Fazendo música livremente.
Como correram as recentes datas nos EUA e no Rock in Rio? Houve boa reacção aos temas de Komba?

Os concertos correram bem, é sempre estimulante tocar nos Estados Unidos. A primeira data foi especial porque foi um concerto só nosso, no Echoplex, uma sala emblemática no universo das indie bands. O Treasure Island foi muito bom, tocámos ao fim da tarde, e tivemos um público participativo, como, aliás, tem sido hábito sempre que passamos por São Francisco. O Rock in Rio foi menos memorável mas ainda assim motivo de celebração, dividimos o palco com um dos nossos projectos favoritos, os MixHell, do casal Laima e Igor Cavalera. Mas fomos a primeira banda do dia, abrimos o Palco Sunset às 14:30 da tarde e não tivemos tantas pessoas, mas as que lá estiveram conheciam os temas e foi o suficiente para se fazer a festa. Em todos estes concertos, tocámos quatro temas do novo disco e a reacção foi boa.

Costuma dizer-se que é complicado furar no mercado brasileiro. Vocês gostariam de apostar forte nesse mercado, sendo que têm reforçado a vossa exposição internacional?

Nos adoraríamos ter uma presença mais forte no mercado brasileiro, mas somos realistas e sabemos o quão difícil isso é, logo vai depender dos parceiros que encontrarmos naquele território, para os discos e concertos. O Black Diamond acabou de ser editado no Brasil pela Music Brokers Argentina e vamos ver como as coisas se desenvolvem a partir daqui.

O título do novo disco faz alusão a um ritual religioso angolano, celebrado sete dias após o falecimento de uma pessoa. Os Buraka homenageiam ou velam por alguém neste álbum?

Nos créditos do disco manifestámos por escrito os nossos agradecimentos a todos os que estiveram física e espiritualmente envolvidos na produção do Komba e, claro, dedicamos o disco a todas as pessoas importantes que faleceram durante a nossa existência.


Em que medida as diversas colaborações, vindas de tantos continentes, contribuíram para o resultado final do disco?

As nossas colaborações respeitam um critério muito simples. Todos os intervenientes estão aqui para completar a canção, para contar uma história e agregar valor de forma estética ou emocional a determinada canção. Não criamos música com o intuito de representar as Nações Unidas da música electrónica, se isso acontecer será sempre mera coincidência. Ao contrário do que aconteceu com o Black Diamond, as pessoas que convidámos para este Komba funcionaram como personagens num guião, escrito e realizado por nós. Sabíamos o que queríamos de cada uma e fomos buscar, dentro do nosso universo de relações, alguns amigos que pudessem entrar nessa dinâmica.

Colaboração com Mixhell, em “Macumba”; neste tema colaboraram com Igor Cavallera, que fez parte de Sepultura e agora pratica um som de base electrónica. Antes havia um nítido fosso entre músicos e públicos de som pesado/metal e de electrónica/dança. Mas cada vez mais isto perde sentido, não é?

Penso que a grande diferença é que a informação circula de forma rápida - sendo assim, quem é curioso consegue beber influências em vários géneros e aplicar naquilo que estiver a desenvolver sem receio de perder identidade. Hoje fazemos zapping com quarenta e tal canais de televisão no nosso televisor lá de casa, ouvimos música em shuffle e temos o mundo à distância de um clique no nosso computador. Acreditamos que isso são os sinais dos tempos.

Existe a presença de um certo triângulo Portugal – Angola – Brasil em Buraka Som Sistema. Pensam que a partir daqui (e também dos restantes países lusófonos) se pode formar uma forte aliança cultural, a dar cartas ao nível musical e não só?

Tudo é possível, desde que haja pessoas – não se fazem revoluções sem pessoas! Em relação a Portugal precisamos pelo menos de mais um milhão de jovens entre os 18 e os 35 anos a viverem activamente aquilo que se cultiva culturalmente nesse espaço.

Angola é um terreno fértil para inspiração? Que músicos destacam em Angola ou são os vossos preferidos? Destacam algumas influências musicais vindas de Angola para lá do kuduro?

Não é simples identificar quais são os músicos favoritos, mas ouvimos sempre os clássicos do Semba, assim como a nova geração que impôs um toque urbano àquilo que consideramos ser a música popular angolana.

Como olham para os tempos que se vivem actualmente em Angola?

Olhamos com atenção e até uma certa apreensão; o progresso é sempre positivo, mas há que fazer com cuidado e não esquecer que existem pessoas e algumas delas não conseguem correr tão depressa. Angola é uma jovem nação, com um passado conturbado, é preciso dar tempo para que se encontre o equilíbrio desejado.

Voltaste a Angola em 2007, após uma ausência de doze anos. Que diferenças ou principais traços de evolução tens sentido desde que saíste de lá até aos dias de hoje?

A minha relação com Angola é umbilical. Poderia estar aqui a desfilar uma série de aspectos negativos e positivos, mas no final do dia isso pouco interessa porque para mim as nações são feitas de pessoas e naquele lugar estão algumas de que gosto muito. Dificilmente faria uma análise objectiva sem cair em lamechices. Prefiro apenas dizer que estamos a caminhar para uma situação melhor.

O som do single “Hangover” retoma o impulso quase primordial de outras músicas, como “Yah” e “Kalemba”. Os álbuns de Buraka apresentam muito este balanço entre uma certa sofisticação (tecnológica e não só) e um apelo primitivo, mais cru…

O tema “Hangover” não foi criado para resgatar nada que tenhamos feito no passado. Há em nós a vontade de caminhar para o futuro e encontrar algo que seja genuinamente um som Buraka Som Sistema. Com este tema queríamos voltar aos clubes; quem esteve presente no Clube Mercado e nos viu a tocar naquela cave sabe que existe um lado cru e visceral no nosso som – esta canção vai buscar a essas emoções e claro, aponta para o futuro.

Neste disco ouve-se uma panóplia enorme de ritmos – o kuduro é cada vez mais uma base para vocês partirem tudo, avançando por outros caminhos?

Muito dos nossos temas não começam com um loop de Kuduro; hoje preocupamo-nos mais em dar aquilo que a canção precisa, independentemente do género em que depois se vá arrumar ou classificar determinada canção. Não tentamos “kudurizar” os nossos temas só porque sim - fazemos música livremente.


Em “Hypnotized” ouve-se um excerto, digamos, “adulterado”, do actual hino português. Por alguma razão em especial?

O hino está ali para servir de intro ao tema “Lol & Pop”, que é a música que fizemos a reflectir sobre a forma como somos vistos em Portugal. É uma sátira aos comentários que ouvimos sobre o conteúdo das nossas letras, sobre as sonoridades que abraçamos. Achamos piada a algumas coisas, outras sentimos que não têm graça nenhuma e decidimos manifestarmo-nos sobre o assunto.

Vi-vos dizer numa entrevista que criam música para o público que mais downloads faz na internet e que actualmente o disco serve principalmente para promover o trabalho dos artistas, ou seja, que não é por aí que se faz dinheiro. Como é que olham para todas estas mudanças que a indústria musical atravessa, muito devido à internet?

Tentamos viver com isso da forma mais saudável possível. A internet é benéfica e nociva ao mesmo tempo. Penso que o que precisamos ter ou alimentar nas pessoas é um pouco mais de bom senso.

Podem dar alguns pormenores sobre a after party que vai acontecer após os concertos dos Coliseus?

Muita festa e celebração!!
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

Parceiros