ENTREVISTAS
Dear Telephone
Telefonofilia
· 02 Mai 2011 · 20:27 ·
Os Dear Telephone vêm do Minho. Estão ainda verdinhos, mas acabam de editar um EP de estreia, Birth of a Robot através da PAD, e começam aos poucos a aventurar-se ao vivo. Os músicos têm ligações a projectos como The Astonishing Urbana Fall, La la la Ressonance, Peixe:Avião, Old Jerusalem, Green Machine ou Kafka, mas aqui trabalham um som que tem poucas ou nenhumas ligações com as referidas bandas. Produzem uma música distinta, trabalhada com duas vozes que se espalham sobre uma tapeçaria suave e orgânica, onde vão contando histórias como se fossem curtas-metragens. André Simão (voz, baixo e guitarra), Graciela Coelho (voz), Paulo Araújo (teclados, saxofone) e Pedro Oliveira (bateria) têm um carinho especial por telefones antigos e vão dar que falar nos próximos tempos. Em nome do grupo, André Simão conta-nos o que poderemos esperar dos Dear Telephone.
Como nasceu este projecto?

De um modo espontâneo e imediato. Conhecíamo-nos há bastante tempo, pessoal e artisticamente, tínhamos colaborado pontualmente em várias ocasiões e partilhávamos a vontade de dar corpo a um projecto em que houvesse bastante espaço para os instrumentos de cada um, numa perspectiva de depuração e frugalidade. Quando iniciamos o processo de composição pusemos na agenda a intenção de fazer canções, duras, cínicas e descomplicadas. Seguimos para estúdio com a ideia de fazer um registo informal, mas acabámos com um disco nas mãos.

Quais são as vossas influências, especialmente as influências comuns a todos os membros da banda?

Fomos descobrindo uma costela anglófila comum a todos e que acabou por contaminar o EP. Partilhamos bastantes influências do cinema à literatura (Greenaway, Mike Leigh, Len Lye ou Todd Haynes, Wolf, Wilde, David Lodge), partilhamos o fascínio pela cultura popular, pelo quotidiano, o lixo televisivo, os Velvet Underground, o melodrama de bolso. E obviamente, o disco póstumo do Arthur Russell - Love is overtaking me - de onde raptamos a versão que segue no disco, "Close my eyes".


Porquê a escolha do nome "Dear Telephone", uma referência a uma curta metragem de Peter Greenaway?

O nome é quase "self-explanatory". O filme aborda, de uma maneira muito conceptual e formalmente austera, a ideia da incomunicação. Dear Telephone remete para a solidão e o vazio, de alguém longe do mundo que encontra no telefone um meio possível de se relacionar com ele, um intermediário. Ao mesmo tempo evoca o imaginário das sitcoms ligeiras sobre o quotidiano e os telefonemas animados entre velhotas desocupadas ou adolescentes apaixonados.

Os músicos têm ligações a projectos como The Astonishing Urbana Fall, La la la Ressonance, Peixe:Avião, Old Jerusalem, Green Machine ou Kafka. O que retiraram de todas estas experiências para este projecto?

Vemos Dear Telephone quase como a antítese do carácter mais expressionista e experimental dos projectos que referes. Tentamos partir da maturidade que os projectos a que estamos ou estivemos ligados nos deu, para construir um universo deliberadamente mais árido, lunar e cirúrgico. E por outro lado, mais familiar, mais literário e irónico.

Editaram o vosso EP de estreia, Birth of a Robot, através da PAD. O que representa para vocês esta edição?

É o ponto alfa, o início. A banda nasce com o disco. E vice-versa.

O EP foi editado através da PAD, que tem no catálogo bandas como os Peixe:Avião, Old Jerusalem ou The Astroboy. Como aconteceu a ligação à editora? Sentem afinidades estéticas com os outros projectos do catálogo?

A estrutura da PAD interessou-se pelos primeiros registos que saíam do estúdio e desde cedo estabelecemos a vontade de trabalhar juntos. A maior parte dos músicos que pertence ao catálogo da editora já se relacionava, de algum modo, antes do nascimento da PAD, o que facilitou o processo. Não há nenhuma afinidade estética muito evidente entre as bandas do catálogo da PAD. É uma lista eclética, diversa, que abdica de um manifesto estético ou linha editorial circunscrita a um estilo ou modo de fazer música, para se centrar nas sinergias entre os músicos e na qualidade do trabalho que apresentam.

Têm planos para a edição de um álbum?

Depois do lançamento do EP concentramo-nos na procura de uma identidade live. Uma longa duração não é uma prioridade no curto prazo.


Pelo facto de contarem com duas vozes, masculina e feminina, já vos compararam com a histórica dupla Lee Hazelwood e Nancy Sinatra. Como reagem a estas comparações?

Essa em particular é bastante lisonjeira. Até porque procuramos, em certo sentido, recuperar um tipo de atitude em que eles foram pródigos: enquanto cantam vão saltando do papel de contador para personagem da história, num ping-pong, ora musical, ora narrativo.

Já tocaram em Braga, Lisboa, Coimbra e Guimarães. Como têm sentido as primeiras experiências ao vivo?

Com surpresa, ansiedade e fascínio. É como atravessares a Town no teu cavalo treinado, que conheces como a palma da mão, e deixares o animal a descansar no bebedouro junto ao salloon. Daí segues para o rodeo, montas um cavalo nervoso que nunca viste, concentras-te tanto em domá-lo que só percebes que estás na arena quando a poeira assenta e o teu cérebro troca o ruído da respiração pelo dos aplausos.

Vocês existem entre Barcelos e Braga. Como sentem o panorama pop/rock no Minho?

Desde meados dos anos 80 que o Minho produz, tal como Lisboa ou Porto, consistentemente, cada vez mais música. Com mais condições, mais estruturas a promover e a apoiar a produção musical. Barcelos e Braga são bons exemplos disso. Neste momento em particular isso sente-se claramente.

Quais são os objectivos da banda?

Genericamente, são os mesmos de quase todas as bandas. Crescer, ganhar consistência, editar, tocar, etc. Para cada um de nós, Dear Telephone funcionou como a oportunidade de dar corpo a alguns princípios e vontades estéticas que não cabem nos projectos de onde derivamos. Entretanto o projecto vai ganhando maturidade e espaço e começa a surgir uma identidade comum, autónoma, que vamos aprendendo a reconhecer e a respirar naturalmente. Procurar essa identidade e dar-lhe forma é o mais íntimo e importante dos objectivos.

Vocês ainda têm telefone fixo em casa ou já só usam telemóveis?

Temos, todos. Aliás, cultivamos dedicadamente a telefonofilia, como se vê no nosso site.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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