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Dear Telephone
Telefonofilia


Os Dear Telephone v√™m do Minho. Est√£o ainda verdinhos, mas acabam de editar um EP de estreia, Birth of a Robot atrav√©s da PAD, e come√ßam aos poucos a aventurar-se ao vivo. Os m√ļsicos t√™m liga√ß√Ķes a projectos como The Astonishing Urbana Fall, La la la Ressonance, Peixe:Avi√£o, Old Jerusalem, Green Machine ou Kafka, mas aqui trabalham um som que tem poucas ou nenhumas liga√ß√Ķes com as referidas bandas. Produzem uma m√ļsica distinta, trabalhada com duas vozes que se espalham sobre uma tape√ßaria suave e org√Ęnica, onde v√£o contando hist√≥rias como se fossem curtas-metragens. Andr√© Sim√£o (voz, baixo e guitarra), Graciela Coelho (voz), Paulo Ara√ļjo (teclados, saxofone) e Pedro Oliveira (bateria) t√™m um carinho especial por telefones antigos e v√£o dar que falar nos pr√≥ximos tempos. Em nome do grupo, Andr√© Sim√£o conta-nos o que poderemos esperar dos Dear Telephone.
Como nasceu este projecto?

De um modo espont√Ęneo e imediato. Conhec√≠amo-nos h√° bastante tempo, pessoal e artisticamente, t√≠nhamos colaborado pontualmente em v√°rias ocasi√Ķes e partilh√°vamos a vontade de dar corpo a um projecto em que houvesse bastante espa√ßo para os instrumentos de cada um, numa perspectiva de depura√ß√£o e frugalidade. Quando iniciamos o processo de composi√ß√£o pusemos na agenda a inten√ß√£o de fazer can√ß√Ķes, duras, c√≠nicas e descomplicadas. Seguimos para est√ļdio com a ideia de fazer um registo informal, mas acab√°mos com um disco nas m√£os.

Quais são as vossas influências, especialmente as influências comuns a todos os membros da banda?

Fomos descobrindo uma costela anglófila comum a todos e que acabou por contaminar o EP. Partilhamos bastantes influências do cinema à literatura (Greenaway, Mike Leigh, Len Lye ou Todd Haynes, Wolf, Wilde, David Lodge), partilhamos o fascínio pela cultura popular, pelo quotidiano, o lixo televisivo, os Velvet Underground, o melodrama de bolso. E obviamente, o disco póstumo do Arthur Russell - Love is overtaking me - de onde raptamos a versão que segue no disco, "Close my eyes".

Porquê a escolha do nome "Dear Telephone", uma referência a uma curta metragem de Peter Greenaway?

O nome é quase "self-explanatory". O filme aborda, de uma maneira muito conceptual e formalmente austera, a ideia da incomunicação. Dear Telephone remete para a solidão e o vazio, de alguém longe do mundo que encontra no telefone um meio possível de se relacionar com ele, um intermediário. Ao mesmo tempo evoca o imaginário das sitcoms ligeiras sobre o quotidiano e os telefonemas animados entre velhotas desocupadas ou adolescentes apaixonados.

Os m√ļsicos t√™m liga√ß√Ķes a projectos como The Astonishing Urbana Fall, La la la Ressonance, Peixe:Avi√£o, Old Jerusalem, Green Machine ou Kafka. O que retiraram de todas estas experi√™ncias para este projecto?

Vemos Dear Telephone quase como a ant√≠tese do car√°cter mais expressionista e experimental dos projectos que referes. Tentamos partir da maturidade que os projectos a que estamos ou estivemos ligados nos deu, para construir um universo deliberadamente mais √°rido, lunar e cir√ļrgico. E por outro lado, mais familiar, mais liter√°rio e ir√≥nico.

Editaram o vosso EP de estreia, Birth of a Robot, através da PAD. O que representa para vocês esta edição?

√Č o ponto alfa, o in√≠cio. A banda nasce com o disco. E vice-versa.

O EP foi editado através da PAD, que tem no catálogo bandas como os Peixe:Avião, Old Jerusalem ou The Astroboy. Como aconteceu a ligação à editora? Sentem afinidades estéticas com os outros projectos do catálogo?

A estrutura da PAD interessou-se pelos primeiros registos que sa√≠am do est√ļdio e desde cedo estabelecemos a vontade de trabalhar juntos. A maior parte dos m√ļsicos que pertence ao cat√°logo da editora j√° se relacionava, de algum modo, antes do nascimento da PAD, o que facilitou o processo. N√£o h√° nenhuma afinidade est√©tica muito evidente entre as bandas do cat√°logo da PAD. √Č uma lista ecl√©tica, diversa, que abdica de um manifesto est√©tico ou linha editorial circunscrita a um estilo ou modo de fazer m√ļsica, para se centrar nas sinergias entre os m√ļsicos e na qualidade do trabalho que apresentam.

Têm planos para a edição de um álbum?

Depois do lançamento do EP concentramo-nos na procura de uma identidade live. Uma longa duração não é uma prioridade no curto prazo.

Pelo facto de contarem com duas vozes, masculina e feminina, j√° vos compararam com a hist√≥rica dupla Lee Hazelwood e Nancy Sinatra. Como reagem a estas compara√ß√Ķes?

Essa em particular é bastante lisonjeira. Até porque procuramos, em certo sentido, recuperar um tipo de atitude em que eles foram pródigos: enquanto cantam vão saltando do papel de contador para personagem da história, num ping-pong, ora musical, ora narrativo.

Já tocaram em Braga, Lisboa, Coimbra e Guimarães. Como têm sentido as primeiras experiências ao vivo?

Com surpresa, ansiedade e fasc√≠nio. √Č como atravessares a Town no teu cavalo treinado, que conheces como a palma da m√£o, e deixares o animal a descansar no bebedouro junto ao salloon. Da√≠ segues para o rodeo, montas um cavalo nervoso que nunca viste, concentras-te tanto em dom√°-lo que s√≥ percebes que est√°s na arena quando a poeira assenta e o teu c√©rebro troca o ru√≠do da respira√ß√£o pelo dos aplausos.

Vocês existem entre Barcelos e Braga. Como sentem o panorama pop/rock no Minho?

Desde meados dos anos 80 que o Minho produz, tal como Lisboa ou Porto, consistentemente, cada vez mais m√ļsica. Com mais condi√ß√Ķes, mais estruturas a promover e a apoiar a produ√ß√£o musical. Barcelos e Braga s√£o bons exemplos disso. Neste momento em particular isso sente-se claramente.

Quais s√£o os objectivos da banda?

Genericamente, são os mesmos de quase todas as bandas. Crescer, ganhar consistência, editar, tocar, etc. Para cada um de nós, Dear Telephone funcionou como a oportunidade de dar corpo a alguns princípios e vontades estéticas que não cabem nos projectos de onde derivamos. Entretanto o projecto vai ganhando maturidade e espaço e começa a surgir uma identidade comum, autónoma, que vamos aprendendo a reconhecer e a respirar naturalmente. Procurar essa identidade e dar-lhe forma é o mais íntimo e importante dos objectivos.

Vocês ainda têm telefone fixo em casa ou já só usam telemóveis?

Temos, todos. Aliás, cultivamos dedicadamente a telefonofilia, como se vê no nosso site.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
02/05/2011